Poor, Middle e Rich

Imagem: Annie Spratt
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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

O mesmo juro composto que enriquece exponencialmente os ricos apenas alivia superficialmente os pobres, cristalizando a desigualdade em vez de reduzi-la

1.

Poor e Rich tinham como elo o enturmado Middle, apelidado de “Milhão” por ter se tornado milionário com a “pequena ajuda” da assistência social no ano no qual o demônio da pandemia assustou a todos. Vamos recordar o acontecido com a acumulação de riqueza financeira por cada um deles desde essa época incomum.

Poor era um típico representante dos clientes do varejo tradicional, possuidores de 190 milhões de contas recentemente. A riqueza per capita deles era quase doze mil reais, em dezembro de 2020, mas ele possuía apenas dez mil reais nessa época.

Milhão se destacava entre os possuidores de 22,5 milhões de contas do varejo de alta renda porque estes possuíam, em média per capita, menos de cem mil reais. No fim de 2020, formado em Universidade, ele tinha acumulado um milhão de reais.

Rich pertencia a um dos quase 70 mil grupos econômicos familiares, no Brasil, com cerca de 165 mil contas exclusivas e 757 mil contas de produtos financeiros no total dos clientes Private Banking. Naquele fim-de-ano, ele tinha acumulado dez milhões de reais, condição para entrar nesse grupo, embora abaixo da riqueza per capita do segmento, porque esta alcançava cerca de R$ 12,56 milhões.

Naquele ano, tinha acontecido uma surpresa extraordinária em todo o planeta: uma pandemia capaz de levar ao distanciamento social de seus habitantes. No mercado financeiro brasileiro, a taxa de juros de referência Selic anualizada (base 252, isto é, só trabalha em dias úteis), tal como o primo CDI, tinha caído de 4,4 % a.a., em janeiro de 2020, até mergulhar para o patamar de 1,9% a.a. em setembro. Permaneceu nesse nível até fevereiro de 2021.

Além desse susto, todos os investidores se assustaram mais ainda quando Fundos DI pós-fixados sofreram “marcação-a-mercado” pelos títulos de risco privado terem perdido valor no mercado secundário. Suas cotas, antes só em alta, tiveram uma baixa, ou seja, seus investidores perderam riqueza em valor nominal! Isso sem falar em valor real diante a inflação em alta…

Em pânico, muitos abandonaram os fundos e se alojaram em depósitos a prazo de “bancões”, porque os big five resolveram oferecer CDBs com 100% CDI de remuneração. Afinal, o Banco Central do Brasil tinha baixado a Selic para 2% a.a. – e ninguém sabia se estávamos “no fim do mundo”.

Ocorreu um redirecionamento massivo para esses depósitos a prazo. Eles tinham menos de dois trilhões de reais em saldo agregado e representavam 20% de todos os Haveres Financeiros (M4). Passaram, no fim do ano passado, para R$ 3,65 trilhões e a serem um quarto (25%) desses Haveres e, disparado, o maior produto do M2, isto é, Haveres Quase-Monetários por serem pós-fixados e resgatáveis.

2.

Pois bem, como reagiram os citados representantes de segmentos de clientes? Todos resolveram deixar o dinheiro dormir quieto e os juros compostos fazerem seu trabalho mágico, ajudado pelos impulsos do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central do Brasil.

Juros compostos são juros calculados sobre o valor inicial além de incidir sobre os juros acumulados de períodos anteriores, gerando um efeito de “juros sobre juros”” Diferente dos juros simples, o crescimento é exponencial e não linear, acelerando o rendimento em investimentos de longo prazo.

O resultado até o fim do ano passado está demonstrado abaixo. O acumulado em valores nominais por cada qual impressiona mais diante as variações relativas similares em termos percentuais. Permite entender o “mundo real” com clareza.

Todos ganharam mais 80% nesses seis anos, mas enquanto o Poor ganhou no ano da pandemia R$ 190 em rendimentos de juros, o Milhão ganhou R$ 19 mil e o Rich, R$ 190.000. Eles observavam os rendimentos mensais, no ano inicial da pandemia, em médias respectivas de R$ 16, R$ 1.583 e R$ 15.833, e resolveram “deixar quieto”. Os saques não fariam diferença para eles sem poderem sair de casa…

Habituaram a “esquecer” essa aplicação, enquanto o Copom fazia seu trabalho com o cansativo argumento das “expectativas desancoradas” diante a meta irrealista da taxa de inflação. A média anualizada da CDI nos 12 primeiros meses da pandemia, até fevereiro de 2021, foi de apenas 2,39% a.a., snif, snif…

3.

A partir de então, o Copom assustou-se com a “inflação importada”, dada a depreciação da moeda nacional, no último trimestre de 2020, e passou a progressivamente a elevar a Selic. Em 2021, iniciou-se com 1,9% a.a. e terminou com 8,6% a.a. a CDI anualizada com base 252. Um ano após, atingiu 13,65% a.a., no fim de 2023, 11,87% a.a., de 2024, 11,77%, e no ano passado, 14,9%!

Beleza para os rentistas! O Rich ganhava cerca de dezesseis mil reais mensais antes da retomada das altas contínuas da Selic e já em 2021 alcançou quase setenta e cinco mil reais. Com os juros compostos, no ano seguinte, R$ 126 mil reais por mês, manteve esse patamar em 2023, e foi elevado em 2024 para R$ 138 mil. Mas o ano passado foi o mais extraordinário!

Os rendimentos nominais mensais foram crescentes, saindo da faixa de R$ 150 mil reais, no primeiro trimestre, até atingir o patamar de duzentos mil reais em julho, mantendo-se em torno desse valor mensal até dezembro. A média mensal, considerando todo o ano, foi R$ 195 mil. Considerando-se 22 dias úteis em cada mês, o Rich ganhou mais de oito mil reais por dia, ou seja, mil reais por hora de atividade dos juros em sua jornada diária.

Renda passiva mensal é o dinheiro recebido regularmente (todo mês) sem precisar trabalhar ativamente por ele. Ele é gerado por ativos (formas de manutenção de riqueza), investidos no passado, como aluguéis de imóveis, dividendos de ações, juros de investimentos financeiros ou royalties de patentes, permitindo liberdade financeira. Exige esforço inicial, para criar a fonte de remuneração, mas depois gera fluxo de caixa contínuo, fazendo seu dinheiro trabalhar por você.

Não exige tempo de trabalho ativo contínuo como no caso do Poor. Ao contrário do salário (renda ativa), Rich não troca horas de trabalho por dinheiro diretamente. No seu caso, um servidor público com carreira completa até atingir a renda do teto do funcionalismo (R$ 46.366 ou trinta salários-mínimos em 2025), requereu um longo investimento inicial de tempo para criar o ativo financeiro gerador de renda.

Agora, na aposentadoria, obteve a liberação de seu tempo de trabalho. Os juros compostos brasileiros o permitem focar em outras atividades criativas porque já alcançou a independência financeira.

Já o Poor, coitado, embora a taxa de juro de referência tenha sido a mesma, seus rendimentos médios mensais de juros eram muito menores: em 2021, R$ 384; 2022, R$ 1.079; 2023, R$ 1.276; 2024, R$ 1.206; 2025, R$ 1.760. No ano passado, foi superior ao salário-mínimo, mas ele optou por consumir com o uso de cartões de crédito. Resultado: perdeu as contas com “inúmeros pagar em quantas vezes” e entrou no crédito rotativo, onde paga quase 450% a.a. porque, no fim do ano passado, a inadimplência nos cartões de crédito atingiu quase 65% do crédito rotativo concedido. “Os justos pagam pelos pecadores…”.

O Milhão se sente feliz com a média mensal alcançada em 2025 de R$ 19.555. Afinal, ela foi crescente: os rendimentos mensais de juros, no ano da pandemia, tinham sido em média só R$ 1.583. Nem tocou nesse ganho. No ano seguinte, foi recompensado com a média mensal de quase R$ 7.500, um complemento razoável do seu salário na meia-idade. Em 2022 e 2023, elevou para cerca de R$ 12.500 ao mês. Em 2024, subiu para quase R$ 14 mil e, graças ao Copom, em 2025, foi premiado com a média mensal de quase vinte mil reais!

Dava quase treze salários-mínimos, mas por prudência [ou ganância?] resolveu deixar esse “complemento salarial” capitalizando sua futura aposentadoria, porque senão perderá o padrão de vida alcançado se depender da pensão da Previdência. Milhão e Rich louvam todos os dias “as expectativas desancoradas”…

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

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