As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Por um ano novo de verdade

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por EUGÊNIO BUCCI*

Sim, é possível confiar. Criticamente, é possível confiar. Se a sociedade souber que não é coadjuvante, mas protagonista

Esperança não é uma boa palavra – e talvez não seja um bom sentimento. O educador Paulo Freire costumava dizer que preferia o verbo “esperançar” ao substantivo “esperança”, o que tem lá sua lógica. Verbo é ato, não mera sensação. “Esperançar” não é esperar à beira do caminho, com resignação, mas agir para mudar o caminho: uma atividade, não uma passividade.

No século XVII, o filósofo Baruch de Spinoza já tinha alertado. Em sua Ética, a esperança aparece como contraparte do medo: uma afecção ruim que, a exemplo do medo, enfraquece o espírito. Num resumo apressado, Spinoza dizia que, assim como o medo rebaixa a disposição de agir, pois intimida e confina o sujeito, a esperança torna a ação desnecessária, pois o sujeito fica lá embriagado pela torcida um tanto supersticiosa de que tudo vai dar certo.

Definitivamente, não é com esperança que devemos brindar 2023. Confiança talvez seja a palavra justa. O país tem chances reais de se aprumar não porque seja incorrigivelmente esperançoso, mas porque cidadãos e cidadãs, que trabalharam politicamente para reverter a escalada do autoritarismo, não vão deixar por menos. “Confiar” virou, para nós, um verbo político, uma ação que floresce da militância democrática e desemboca em compromisso público.

Confiar não se traduz em sujeição incondicional, em dar um “cheque em branco” para quem quer que seja. Confiar não é dizer “amém” para um suposto “mito” – ou para um mitômano. É antes uma postura racional: é saber que a palavra afiançada só define as ações coletivas quando fundamentada nos fatos. É recusar a mentira como gramática e rejeitar o negacionismo elevado a razão de Estado. Confiar é o oposto do fanatismo: é se fiar na democracia, não em salvadores da Pátria. A confiança que conta mora na relação, no diálogo entre iguais, no debate aberto, e só vale quando compartilhada – se for unilateral, ela se perderá. Se não mobilizar a sociedade, vai se desmanchar no ar.

É claro que o ano de 2023 terá asperezas. Temos gargalos na educação, na saúde, na comunicação pública. O panorama econômico não encoraja prognósticos otimistas. Há o centrão, além de tudo. E ainda existe a turma que implora de joelhos por um golpe militar, sem falar no pessoal que projeta e financia o terrorismo, como aquele plano de atentado a bomba em Brasília para provocar o caos e fomentar um golpe de Estado. Quanta birutice! Há os que se julgam patriotas inflamados, mas não passam de inflamáveis idiotas.

Para desafios tão grandes, o novo governo terá de estar à altura da confiança e, ao menos até aqui, ninguém sabe se o discernimento, a prudência, a grandeza e a sabedoria prevalecerão. Não vai ser fácil, de jeito nenhum. Mesmo assim, temos elementos objetivos para confiar que 2023 será melhor, em todos os aspectos, do que 2022, 2021, 2020 e 2019 juntos. E você, não importa em quem tenha votado, sabe que 2023 pode realmente ser melhor. Você sabe que é verdade.

A palavra “verdade” não nos chega ao acaso. Será nossa prova dos nove. Não se trata de uma verdade épica, visionária ou epifânica, mas simplesmente daquela Hannah Arendt definiu: a verdade dos fatos. Apenas ela, que qualquer cidadão reconhece como sua. Chega de governantes que adulteram dados sobre vacinação, desmatamento, urnas eletrônicas e rachadinhas. Chega de falastrões do fanatismo. Que entrem em cena agentes públicos que não vandalizam a ciência, o conhecimento, a história, a justiça e os fatos. Que saiam de campo os que detonam bombas simbólicas, todos os dias, nas fundações do edifício da razão.

A verdade de que precisamos, assim como a confiança que aprendemos a cultivar, não tem nada de dogma religioso. “Verdades” bíblicas em repartições públicas e nos palanques eleitorais já produziram estragos demais. A desfaçatez com que os mentirosos invocam a fé (que eles mesmos não têm) só nos serviu para deixar ainda mais patente que, na modernidade, o uso da religião na política interessa apenas aos enganadores. Que a fusão entre igrejas, partidos políticos e emissoras de rádio e televisão reflua – ou comece a refluir.

No mais, não dá para entender como um mandatário que se declara religioso pode bancar, de caso pensado, a difusão de mentiras tão devastadoras, como aquelas que desacreditavam a vacina. Os falsos messias afrontam, diariamente, a pelo menos dois dos mandamentos de Moisés: o terceiro (“não invocar o nome de Deus em vão”) e o nono (“não levantar falso testemunho”). Como isso se explica? Será que consideram os Dez Mandamentos uma forma de censura? Será que não sabem que a verdade é um pilar de todas as éticas, de qualquer tempo?

Agora chega. Que venha o réveillon. Que o uso do poder da República para disseminar “falso testemunho” sobre todos os assuntos esteja com os dias contados. Sim, é possível confiar. Criticamente, é possível confiar. Se a sociedade souber que não é coadjuvante, mas protagonista, se confiar em si mesma, esse verbo vai vingar e nos vingar. A confiança vai nos valer. Feliz ano novo verdadeiro.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de A superindústria do imaginário (Autêntica).

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

 

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Luiz Bernardo Pericás Priscila Figueiredo Salem Nasser Rodrigo de Faria Bruno Fabricio Alcebino da Silva Marcelo Guimarães Lima Luiz Carlos Bresser-Pereira Andrew Korybko Antônio Sales Rios Neto Vladimir Safatle Alexandre de Freitas Barbosa Henry Burnett Armando Boito José Micaelson Lacerda Morais Roberto Bueno Leonardo Boff Bruno Machado André Singer Chico Whitaker Alexandre Aragão de Albuquerque Ari Marcelo Solon Valerio Arcary Lucas Fiaschetti Estevez Daniel Costa Denilson Cordeiro Luiz Renato Martins Valério Arcary Eleutério F. S. Prado Alexandre de Lima Castro Tranjan Jorge Branco Igor Felippe Santos Chico Alencar Afrânio Catani João Feres Júnior Rubens Pinto Lyra Ronaldo Tadeu de Souza Paulo Sérgio Pinheiro Luciano Nascimento Flávio R. Kothe Francisco Fernandes Ladeira Leonardo Avritzer João Carlos Loebens Carlos Tautz Airton Paschoa Marcus Ianoni Atilio A. Boron Gilberto Lopes Manuel Domingos Neto Daniel Afonso da Silva Luis Felipe Miguel Samuel Kilsztajn Fábio Konder Comparato Bento Prado Jr. Michael Löwy Fernando Nogueira da Costa Mário Maestri Claudio Katz Henri Acselrad João Lanari Bo Renato Dagnino Eliziário Andrade Luiz Eduardo Soares Antonio Martins Luiz Marques Ricardo Antunes Otaviano Helene Alysson Leandro Mascaro Leonardo Sacramento Caio Bugiato Tadeu Valadares Gerson Almeida Dênis de Moraes Heraldo Campos Milton Pinheiro Ladislau Dowbor Walnice Nogueira Galvão José Machado Moita Neto Jean Marc Von Der Weid Ronald León Núñez Ricardo Abramovay Mariarosaria Fabris Roberto Noritomi Leda Maria Paulani José Costa Júnior Plínio de Arruda Sampaio Jr. Yuri Martins-Fontes Luís Fernando Vitagliano Paulo Martins Francisco de Oliveira Barros Júnior João Sette Whitaker Ferreira Paulo Capel Narvai Liszt Vieira Remy José Fontana Antonino Infranca João Adolfo Hansen Jorge Luiz Souto Maior Eduardo Borges Benicio Viero Schmidt Vinício Carrilho Martinez Slavoj Žižek José Luís Fiori Marilena Chauí Lincoln Secco Julian Rodrigues Marcelo Módolo Bernardo Ricupero Berenice Bento Kátia Gerab Baggio Paulo Nogueira Batista Jr André Márcio Neves Soares Elias Jabbour Sandra Bitencourt Annateresa Fabris Anselm Jappe Gabriel Cohn Thomas Piketty Ricardo Musse Dennis Oliveira Marjorie C. Marona Gilberto Maringoni Celso Favaretto Marcos Silva Everaldo de Oliveira Andrade Érico Andrade Ronald Rocha João Carlos Salles Marcos Aurélio da Silva Michael Roberts Fernão Pessoa Ramos Vanderlei Tenório Lorenzo Vitral Celso Frederico Manchetômetro Tales Ab'Sáber Osvaldo Coggiola Luiz Roberto Alves Juarez Guimarães João Paulo Ayub Fonseca Luiz Werneck Vianna Rafael R. Ioris Sergio Amadeu da Silveira Eugênio Bucci Daniel Brazil José Dirceu José Geraldo Couto Carla Teixeira Flávio Aguiar Tarso Genro Francisco Pereira de Farias Marilia Pacheco Fiorillo Paulo Fernandes Silveira Eugênio Trivinho José Raimundo Trindade Luiz Costa Lima Eleonora Albano Jean Pierre Chauvin Ricardo Fabbrini Anderson Alves Esteves Maria Rita Kehl Boaventura de Sousa Santos

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada