Relato de uma filha sem pai

Imagem: Suzy Hazelwood
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Por LETICIA O. FERNANDES*

A gravidade e a violência caminham juntas, de mãos dadas

Quarta feira, cinco de maio de dois mil e vinte e um. Onze horas e quinze minutos. Eis o dia e horário que cravam a morte do meu pai na certidão de óbito.

Assinando os papéis da funerária e do seguro, sou orientada a preencher “morte natural”, em detrimento de “violência” ou mesmo “doença grave”. Ouvindo isso, olho para minha irmã, que me olha de volta igualmente indignada.

A gravidade esteve escancarada na despedida silenciosa por videochamada logo antes de ele ser entubado, em que só ouvíamos do lado dele o som das máquinas que o rodeavam.

A gravidade esteve escancarada na quantidade de procedimentos invasivos aos quais ele precisou ser submetido, e que nós, com o coração na mão, tivemos que autorizar. Esteve na fragilização de uma pessoa sempre tão forte e resistente.

A gravidade esteve escancarada no exercício de paciência que nós, durante mais de quarenta dias de internação, fomos forçadas a realizar. No impasse de tomar, a cada dia, a decisão de ir ou não visitá-lo (por algum motivo, o hospital em que ele estava permitia visitas, o que nos assustou mas inevitavelmente nos acalentou). No esforço da minha mãe em gravar áudios todos os dias comunicando aos amigos e familiares sobre o estado de saúde dele. No aprendizado sobre os medicamentos, procedimentos, terapias e dinâmicas de trabalho da equipe multidisciplinar (que diferença faz um profissional valorizado!).

A gravidade esteve escancarada nos momentos em que ele brevemente acordou e não tinha voz para falar. Nem forças para escrever com uma caneta – e na dor que eu sinto e vou sentir para o resto da minha vida de não ter estado presente naquele momento. Na dor que eu senti em passar a visitá-lo e vê-lo cada dia mais irreconhecível. Em fazer uma cerimônia de caixão fechado e não poder abraçar os pouquíssimos amigos e familiares que puderam estar presentes, e os que não puderam.

A gravidade diz respeito à doença. Aos efeitos macabros e imprevisíveis que ela tem sobre o corpo de alguém, seja ele jovem, seja ele idoso. Às medidas que são necessárias para que a equipe médica tente salvar alguém em estado crítico, ou às medidas de distanciamento para que nós não disseminemos ainda mais o vírus.

A violência esteve escancarada na madrugada em que o plantonista nos ligou para dizer que não havia disponível um leito de UTI, pois no pico da segunda onda mesmo um dos melhores hospitais privados de São Paulo operava acima da capacidade máxima.

A violência esteve escancarada nos horários de visita em que víamos irmãos se dividindo, um para visitar a mãe, outro, o pai.

A violência esteve escancarada quando finalmente chegou o dia em que meu pai seria vacinado, mas ele não pôde ir, porque já estava doente, entubado, inconsciente. No fato de que ele morreu de uma doença para a qual já existe vacina.

A violência está em ouvir conhecidos insinuando que ele deveria ter feito tratamento precoce e se envenenado, como fizeram tantas pessoas que agora estão no InCor lutando não só contra o COVID, mas também contra a insuficiência renal.

A violência está na aposentadoria que tinha acabado de começar a cair na conta dele.

A violência está no fato de que ele passou o aniversário no hospital, sozinho.

Na quantidade de planos interrompidos de alguém tão cheio de vida e de desejos. Meu pai estava aprendendo a cantar. Meu pai ia criar um blog para contar as histórias que tinha vivido e ouvido o pai dele contar, e pra compartilhar o extenso conhecimento de música que ele tinha. Meu pai mal podia esperar para visitar a mãe dele no Mato Grosso do Sul.

A violência está no fato de que a dor da minha família, ainda que muito grande, não se compara à dor de alguém que perdeu alguém para a falta de oxigênio, para a falta de remédios, de alguém que foi forçado a ser entubado sem sedativo – cenas muito, muito comuns de um Estado perverso, que deixa cada um à própria sorte, com o aval de uma burguesia oportunista que segue lucrando com isso. Que sucateia e sobrecarrega o SUS – cuja força é a única razão pela qual não morreu muito mais gente, ainda.

A gravidade e a violência caminham juntas, de mãos dadas, já que quanto menos se legisla, quanto menos se fiscaliza, quanto menos se planeja e quanto mais se demora a distribuir a vacina, mais o vírus sofre mutações e mais transmissível e perigoso pode ficar.

Meu pai só teve acesso a todos os cuidados porque nós tínhamos dinheiro o suficiente.

Cena comum no cúmulo do neoliberalismo, em que cada um faz a sua própria saúde, em que cada um inventa os seus próprios protocolos de distanciamento, cada um se torna seu próprio juiz de segurança sanitária. Ou mesmo abandona o cuidado de vez, uns por autoengano, alguns por cansaço, outros por ver o seu próprio negócio ir à falência sem nenhum amparo do Estado, outros muitos por faltar o básico – água encanada, comida na mesa, uma casa (de preferência uma em que a polícia não entre matando).

Minha família não teve que escolher entre comer e se isolar. Nós pudemos ficar em casa. Mas sem um combate coordenado, qualquer esforço individual é simplesmente adiar o inevitável. E assim, qualquer deslize, pequeno ou grande, vira letal. E foi.

Leticia O. Fernandes

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