Round 6

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Por EUGÊNIO BUCCI*

A série da Netflix é um inventário digital do capitalismo em que sangramos e sangraremos até a morte

A série de maior sucesso na Netflix não é falada em inglês, não vem dos Estados Unidos nem da Europa. Round 6 é uma produção da Coreia do Sul e tem quase todos os diálogos em coreano, mesmo. A história gira em torno de uma olimpíada macabra, regida pela pena capital ou, mais propriamente, pela execução sumária. Cerca de 500 competidores disputam jogos diversos, mais ou menos como estes reality shows de televisão. A diferença é que, em Round 6, quem perde a rodada perde também a vida. Ao fim, um único sobrevivente levará o prêmio em dinheiro (algo em torno de R$ 200 milhões).

O grande trunfo de Round 6 está no show room de violência que ela entrega ao público. São cruezas horrendas e, ao mesmo tempo, fúteis. Os personagens se trucidam em close, nas mais variadas posições. Esqueça o que você já viu de esquartejamentos em filmes de mau gosto: Round 6 é pior, não necessariamente pelos ângulos de dissecação dos corpos, mas pelo contexto moral, em que o homicídio se cumpre em rituais frívolos.

E para quê? Para o prazer. Um grupo de bilionários, todos homens, os chamados “VIPs” (os únicos que conversam em inglês na série), paga rios de dinheiro para ver de perto os rios de sangue. Os bilionários amam. Eles são o segredo do “modelo de negócio” do morticínio espetacular: os competidores oferecem sua vida em sacrifício para deleitar os donos do dinheiro, e estes cobrem os custos e deixam lucros de gorjeta.

Round 6 teve a sua estreia mundial em 17 de setembro. Em meados de outubro, tinha sido vista em 111 milhões de lares no mundo todo. Em 94 países, alcançou o posto de a série de maior sucesso da Netflix, com 132 milhões de espectadores. O êxito não parou mais. A escalada do blockbuster do streaming segue inabalável e inimputável, como as labaredas nas florestas brasileiras.

Aí você pergunta: de onde vem o fascínio que este festival de massacres desperta nas plateias globalizadas? Que delícia existe neste tipo de atração?

Um verso de uma canção de Johnny Cash nos dá uma pista: “Eu atirei num homem em Reno só para assistir à morte dele”. Segundo o compositor, haveria uma certa concupiscência do olhar, ainda que inconfessável, em ver a vida que se extingue no corpo alheio.

Outra pista se esconde na história dos escravos que eram gladiadores na Roma Antiga. Por séculos, os imperadores e o povo se divertiram com lutadores se degolando sobre o chão de areia, ao lado de feras que devoravam gente indefesa. Contemplar corpos humanos em desgrenhamento era a maior das diversões públicas, e nisso consistia o “circo” com que Roma brindava o populacho. Seria o circo uma catarse pacificadora? A pergunta permanece.

Saltemos, agora, para a Paris de 1794, em pleno Terror da Revolução Francesa. Façamos a mesma indagação: terão sido catárticas as sessões públicas em que os nobres eram guilhotinados? As cabeças que despencavam como cocos maduros terão saciado a fome de justiça dos miseráveis?

Fiquemos ainda um pouco mais na Paris do século 18. O indecifrável Marquês de Sade, em 1786, quando estava preso na Bastilha, deu os retoques finais em seu livro Os 120 dias de Sodoma. No enredo, quatro senhores organizam um festim que se estende por meses para abusar sexualmente de garotos e garotas. As orgias incluíam homicídios. Num balanço numérico nas páginas finais, como num livro de contabilidade, Sade informa que, dos 46 participantes, 30 morreram – e morreram para gozo dos senhores.

O Marquês de Sade fez sua fama como libertino, pornógrafo, adepto de um erotismo escatológico e degradante. Mas podemos entendê-lo, também, como um pensador louco (o que não é contraditório). Em seus escritos, entrevemos o que seria da revolução burguesa se o curso da história fosse entregue às pulsões dos capitalistas – as ganâncias e as taras (que se espelham inconscientemente) dizimariam os fundamentos da civilização. Nessa perspectiva, Sade, embora delirante, teve consigo uma das razões do Iluminismo.

Isso posto, voltemos agora a Round 6 (antes que o improvável leitor comece a reclamar). Na série da Netflix, há passagens orgiásticas, claramente sádicas. Numa delas, um dos VIPs tenta abusar sexualmente de um garçom, tratando-o como escravo. Ambos usam máscaras – e mais não se vai contar aqui.

Aliás, com exceção dos competidores, todos os personagens de Round 6 usam máscaras. Nessas máscaras, temos outra alusão a tradições libertinas, como a que se vê num filme de Kubrick, De olhos bem fechados, de 1999 (que, por sua vez, se baseia num romance de Arthur Schnitzler, amigo de Sigmund Freud). A máscara tapa a identidade do sujeito para lhe destapar a libido. Mascarado, Sade triunfa de novo.

Enfim, por que as massas adoram Round 6? Em parte, talvez, pelo gosto de contemplar, com lascívia mascarada, o padecimento que não sabe ser o seu. A massa se identifica com os senhores babosos, sem se saber idêntica aos que morrem e matam por dinheiro. Round 6 é um inventário digital do capitalismo em que sangramos e sangraremos, até a morte.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de A superindústria do imaginário (Autêntica).

Publicado originalmente no jornal O Estado de S.Paulo.

 

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