Sentimento da dialética

Imagem: ColeraAlegria

Por BENTO PRADO JR.*

Comentário sobre o livro de Paulo Eduardo Arantes

“Arrabal, arrabal amargo / que me has clavado en la cruz” (Le Pera e Gardel)

Não se engane, caro leitor: com Sentimento da Dialética, de Paulo Arantes, não ganhamos apenas um grande acerto na reflexão sobre a historiografia literária no Brasil. Muito mais do que isso (que não é pouco) é a própria filosofia brasileira que sai dos limites estreitos de seus seminários mais ou menos “técnicos” (pois ignora-se, normalmente, que a essência das “técnicas” filosóficas jamais é, ela própria, técnica), para mergulhar na “experiência” e no próprio Brasil.

Empirismo? Historicismo? Os hábitos mentais dominantes empurram naturalmente o leitor para uma prudente atitude de suspeita. Filósofos e teóricos da literatura franzem os sobrolhos (podemos imaginá-los, enfarruscados em seus ascéticos gabinetes) diante dessa confusão de gêneros: – onde ficou a autonomia da forma literária ou dos problemas “especificamente” filosóficos? É compreensível que esse belo livro, publicado em 1992, não tenha tido a repercussão, na imprensa, que esperávamos.

Será, portanto, para começar, necessário explicar, mesmo que muito esquematicamente, o que significa a expressão “experiência” intelectual brasileira ou o alcance filosófico do livro de Paulo Arantes, indissociável de seus efeitos para a compreensão da cultura e da sociedade brasileiras.

Procedamos, portanto, com paciência. A idéia de “experiência” remete à grande tradição da filosofia hegeliana: é ela que está na base da Fenomenologia do Espírito. Para explicar, de maneira suficiente, o alcance do texto de Paulo Arantes, seria necessário passar pelas centenas de páginas (publicadas ou inéditas) que consagrou à gênese do estilo da dialética no pensamento alemão (séculos 18 e 19) e à sua recepção pelo pensamento francês no século 20 (por exemplo, os textos de Paulo Arantes, publicados na Revista IDE, sobre a interpretação de Hegel por A. Kojeve e J. Lacan) [1]. Só o contraponto da análise das ideologias alemã e francesa permite a plena compreensão de mais este ensaio sobre a ideologia brasileira.

De alguma maneira, o pressuposto de Paulo Arantes é de que a filosofia hegeliana construiu, na passagem do século 18 ao século 19, um ponto de vista (uma espécie de mirante elevado) que lhe permitiu a compreensão retrospectiva de todo o movimento da sociedade e da cultura européia e que torna ainda possível decifrar a experiência contemporânea, tanto nos países do centro como nos da periferia – sobretudo porque só esse ponto de vista poderia revelar o fio vermelho que une (não só na economia) o Primeiro aos demais mundos que recobrem o planeta.

Mas, o que tem a ver a literatura brasileira com as especulações hegelianas sobre o caráter dialético da “experiência da consciência”? Paulo Arantes não “hegelianiza” arbitrária ou dogmaticamente a história da literatura no Brasil. Seu ponto de partida é justamente a obra historiográfica e crítica de Antonio Candido. Bom ponto de partida, por várias razões: a par de ser reconhecidamente nosso melhor crítico e historiador, Antonio Candido mantém sem hostilizá-la, pelo contrário, alguma reserva em relação à tradição da dialética (declara-se, cum grano salis 50% marxista em períodos normais, e 90% em períodos negros de repressão e anti-marxismo vulgar ou obscurantista).

Adepto de uma “dialética negativa”, não importa a Paulo Arantes que Antonio Candido seja reticente em face das versões doutrinárias da dialética. A reticência de Antonio Candido facilita a empresa de Paulo Arantes, que nele vai buscar o exemplo de uma dialética implícita e viva, obedecendo a recomendação de Merleau-Ponty: praticar a dialética sem falar dela, quase sugerindo que a dialética só pode ter vida clandestina.

O que, aliás, permite compreender o título do livro, que de outra maneira permaneceria misterioso: sentimento da dialética, quase um faro, que não decorre de uma teoria pronta e acabada, mas que não se funda, também, na volubilidade da subjetividade ou na falta de fundamento do juízo de gosto; algo como um faro que localiza a realidade através das contradições do espírito, embrulhado na matéria social em que se debate, tanto na sua dimensão subjetiva (consciência), como na sua dimensão objetiva (cultura). Um faro, diria Paulo Arantes, guiado pela natureza do “objeto” que está sendo “farejado”, que se abandona, em suas oscilações, às “contradições do objeto”.

Mas por que a literatura brasileira seria um “objeto contraditório”? Com muita finura, Paulo Arantes faz um verdadeiro recenseamento das contradições que funcionam como instrumento analítico na obra de Antonio Candido: análise do localismo e do cosmopolitismo, do universal e do particular na Formação da literatura brasileira, dialética do espontâneo e do dirigido no estudo de o O cortiço [O discurso e a cidade, Editora Ouro sobre Azul] etc. Mas não é apenas, é claro, o uso freqüente de oposições, como as enumeradas, que permite a Paulo Arantes diagnosticar o estilo dialético dos ensaios de Antonio Candido. É o fato que tais oposições formais gravitam em torno de uma intuição básica ou de uma interpretação da originalidade da cultura brasileira.

Todas as dualidades remetem a algo como uma “sensação de dualidade que impregnaria a vida mental numa nação periférica” (pág. 14). Na verdade, a idéia do Brasil dúplice não é nova – data do nascimento do interesse pela famosa “realidade brasileira” e são inúmeros os textos que insistem na ambigüidade da condição periférica (transoceanismo, “bovarismo” etc…) do brasileiro. A grande vantagem ou a originalidade de Antonio Candido consiste em fornecer a chave desse dinamismo específico da experiência cultural em país periférico, dando o horizonte conceitual da formação do sistema literário brasileiro.

No início da formação desse sistema, a lógica seria a da disparidade entre o padrão civilizatório importado e a “inculta paisagem”: contraste entre dois mundos vinculados pela colonização. Isto iria dos Árcades ao Romantismo. Com Machado de Assis, estaria completo o sistema, coincidindo com o momento em que o capitalismo brasileiro, para se constituir, passa a combinar duas ordens numa só: sociedade burguesa e sociedade tradicional. Noutras palavras, o tema central de Antonio Candido seria a conceitualização do dualismo, não como expressão de uma experiência vaga, mas como sintoma de uma experiência cultural coletiva.

A formação da literatura e a gênese do capitalismo se cruzam, sem que se possa falar em “sociologismo”. É uma noção ampliada e sofisticada de forma que permite a passagem de uma dimensão à outra: só no cruzamento entre forma literária e forma social pode-se encontrar o fundamento do caráter mimético da obra literária (algo como seu “valor de veracidade”), ou sua capacidade de re-encontrar uma forma implícita na matriz prática do Lebenswelt. Em resumo: de um lado, uma dialética forma literária/forma social; de outro, a análise dessa forma ubíqua – a dualidade estrutural. Antonio Candido pôs em prática esse programa, ao desvelar a dualidade que imperava nas obras literárias (ordem/desordem, espontâneo/dirigido, modernismo/atraso, universalismo/particularismo, etc.) e avançou na direção de encontrar na sociedade essa mesma forma.

Mas se Antonio Candido esboçou um esquema sociológico dos traços da “experiência brasileira” em que essa forma se reproduzia, coube a Roberto Schwarz, segundo Paulo Arantes, dar o fundamento social final desse esquema interpretativo. Com a Teoria da Dependência, “sabemos que não se trata de uma simples simetria estrutural, mas de uma mediação ancorada num dinamismo social” (pág. 44). Qual, para resumir, o rosto do país que as obras literárias descreviam? “Um lento predomínio de um hemisfério sobre o outro evoluindo sob o horizonte de um país alegorizado, porém igualmente dual, de um lado cálculo burguês, de outra sociabilidade encharcada de natureza” (pág. 45).

Ao passarmos dos escritos de Antonio Candido aos de Roberto Schwarz, não passamos apenas do mestre ao discípulo: a obra de Roberto não continua, apenas, a de seu mestre, ela a completa. Que não se acuse precipitadamente Paulo Arantes de ler retrospectivamente a obra de Antonio Candido. Tal é a lei da dialética: toda compreensão é retrospectiva e, para retomar literalmente Hegel, “a verdade é o resultado”. De resto, o Antonio Candido de Paulo Arantes é o mesmo reconstruído pelo próprio Roberto Schwarz em seu ensaio “Pressupostos, Salvo Engano, de Dialética da Malandragem” (in Que Horas São?, Ed. Cia. das Letras).

Toda a segunda parte do livro é consagrada aos escritos de Roberto Schwarz. Obra-prima de hermenêutica, além de descrever o itinerário de Roberto Schwarz, desde suas primeiras publicações, esta segunda parte o situa nas tensões que o opõem a vários críticos e colegas, ou na cumplicidade teórica que o liga a autores como Fernando Novaes que fornece, com a teoria da economia colonial, a idéia de que dualidade não implica dualismo. Limitemo-nos a sublinhar um ponto central da crítica schwarziana, explicada por Paulo Arantes: a famosa tese das “idéias fora do lugar”.

Só no Machado da maturidade a ambivalência da experiência brasileira passa para o nível da forma, o conteúdo (que predominava em Alencar) ficando com temas prosaicos e até banais. Donde o caráter autobiográfico dos primeiros romances de Machado, onde sempre se contaria a estória de um pretenso self made man, frustrado nas suas pretensões pela persistência de uma sociedade onde a mobilidade social dependia da patronagem da elite.

O drama das heroínas do primeiro Machado é sempre o drama da cooptação, exprimindo “o desejo machadiano de polir e civilizar o paternalismo”, na idéia de que “só a chave do favor poderia abrir as carreiras ao talento” – tentativa de conciliar “ambição e nobreza de caráter” (pág. 77). E daí, de imediato, o tema das idéias fora do lugar: “a marcha singular da carreira dependente do favor deve ter sido o sinal precursor de que a nossa vida tinha um centro diverso do europeu” (pág. 78).

Ao contrário do movimento reflexivo do “sociologismo”, aqui, é a análise da forma literária (por exemplo, a “volubilidade” do narrador nos romances de Machado) que lança luz sobre a forma social e permite uma “teoria do Brasil”. E o resultado da análise literária será a descoberta de uma “dialética sem síntese” que articula os “dois Brasis”. “Se chamarmos de dialética negativa, como já o fizemos, estaremos dando um nome que consta no repertório clássico, mas traduz o timbre específico do segundo Machado, especializado, como se sabe no capítulo das negativas” (pág. 193).

Donde toda sorte de “dinamismos frustrados”. “Dialética inconclusiva”, “ponto final sem ponto de crise no horizonte” – para Paulo Arantes já éramos adornianos antes de Adorno. A Aufklarung no Brasil mostrava assim o que realmente era no momento em que se dava sua apropriação propriamente conservadora. Suspensa no ar, a Aufklarung transforma-se “no seu contrário e passa a funcionar como peça-chave da apologética oligárquica” (pág. 83).

Ao fim e ao cabo, o leitor malevolente sempre poderia argüir que o ponto de partida do ensaio é falso – ou que, pelo menos, a obra de Antonio Candido é suscetível de outras leituras (Davi Arriguci, por exemplo) e que pode resistir a essa espécie de anexação retrospectiva e talvez violenta. A ele responderíamos, sem qualquer compromisso com a Coruja de Minerva (somos insuspeitos), lembrando Merleau-Ponty. Uma grande obra não se esgota em si mesma, ela é também, todas as leituras que torna possível.

De seu próprio lado, na sua imanência secreta, ela abre espaço para muitas tradições. Com este belo livro de Paulo Arantes, os escritos de Antonio Candido e de Roberto Schwarz (bem como os do próprio Paulo) articulam-se em linha ou sucessão cumulativa, permitindo-nos descortinar o movimento da formação de uma tradição crítica no Brasil, onde a palavra crítica reassume toda a sua riquíssima carga semântica (não só crítica literária, mas crítica da sociedade, da cultura e da Razão). Evento que corações brasileiros, perdidos nesta periferia ou neste amargo arrabalde do mundo contemporâneo, só podem receber com alegria.

*Bento Prado Jr. (1937-2007) foi professor titular de filosofia na Universidade Federal de São Carlos. Autor, entre outros livros, de Alguns ensaios (Paz e Terra).

Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, 9 de maio de 1993.

Notas

[1] Nota do editor: Bento Prado Jr. refere-se ao material posteriormente reunido por Paulo Eduardo Arantes no livro Ressentimento da dialética: dialética e experiência intelectual em Hegel. São Paulo, Paz e Terra, 1996.