Sintomas mórbidos – o útero de Chronos

Imagem: Aditya Parikh
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Por OTÁVIO ALMEIDA FILHO*

Sempre acho divertida a melancolia romântica daqueles que dizem que “adoram papel”. Revelam o quanto ainda estão saudosistas dos papiros e das alergias provocadas pelos ácaros que proliferam nos papéis envelhecidos.

“A crise consiste precisamente no fato de que
o velho está morrendo
e o novo ainda não pode nascer.
Nesse interregno, uma grande variedade
de sintomas mórbidos aparecem. “
Antônio Gramsci

Sintomas mórbidos brotam de todos os lados. Dissonâncias cognitivas, e curtos-circuitos na linguagem, sugerem que o parto será doloroso. Fórceps e cesarianas serão necessários para forçar o nascimento desse novo tempo. Pouco nos resta fazer e mal podemos assistir, perplexos e impotentes, ao espetáculo degradante da fratura fétida e exposta que, por mais que se tapem os narizes, exala seu odor de enxofre saído das cloacas dos desencantos.

E isto, este estado desesperador, é visível por todo lado. As ciências, as artes, as relações humanas, trabalho, religiões, economia, cidades, campos, mares e toda a atmosfera que respiramos rescende a degradação e caótica desilusão. De máscaras, respiramos sufocados o tempo velho que insiste em permanecer, enquanto o parto não se realiza.

São tempos que Vargas Llosa definiu muito bem: são tempos ásperos. Tempos que exigem uma coragem e uma fibra raras para atravessá-los. São estágios de transição, de indeterminação e espanto diante do abismo do futuro que virá. Lembro a imagem que Octávio Paz constrói dos pachucos e dos adolescentes no seu livro El laberinto de la soledad. Os adolescentes, diz Paz, experimentam um momento de profunda angústia e espanto quando, inclinados sobre o rio da sua consciência, perguntam se o rosto que aflora, do fundo deformado da água, é o seu. Esse pavor diante do desconhecido futuro é terra fértil para o florescimento dos sintomas mórbidos

Assim também, afirma Paz, são os pachucos, esses bandos de jovens, geralmente mexicanos, que vivem nas cidades do sul do EEUU, e que se singularizam tanto por sua vestimenta, como por sua conduta e sua linguagem. Rebeldes instintivos, contra eles o racismo norte-americano descarregou sua crueldade repetidas vezes. Mas os pachucos, continua Paz, não reivindicam sua origem mexicana, nem tampouco desejam fundir-se à vida norte-americana, assim como fizeram os negros, também perseguidos pela intolerância racial, que de tudo fazem para ingressar na sociedade norte-americana. Um dos exemplos mais eloquentes é o do ex presidente Barack Obama que tem sua casa de praia em Martha’s Vineyard, uma ilha onde estão as casas da fina flor da alta sociedade americana.

A Arte é um desses topos em que os sintomas mórbidos podem ser vistos a olhos nus. Muitas das suas manifestações exemplificam, com dolorosa perfeição, a dor do parto que ainda não está finalizado. Devemos ter em conta que o tempo velho e o novo que dele brota são dilatados no tempo. Não são coisas que acontecem da noite para o dia. Elizabeth Eisenstein, em sua belíssima obra A Revolução da Cultura Impressa, que condensa sua obra magna A máquina impressora como agente de transformação, diz ainda não ser possível compreender a totalidade dessa revolução cultural. Assim, antes mesmo de nascer um novo tempo, parece que, do útero de Chronos, um novo rebento vem por aí. Antes mesmo de aprender a lidar com o aparecimento do livro impresso, já estamos às voltas com os livros digitais, os ebooks com seus PDFs, EPUBs e MOBIs. Sempre acho divertida a melancolia romântica daqueles que dizem que “adoram papel”. Revelam o quanto ainda estão saudosistas dos papiros e das alergias provocadas pelos ácaros que proliferam nos papéis envelhecidos. É uma espécie de rapé, aquele pozinho que faz espirrar.

Na Arte, como dizia, vemos e podemos sentir os desagradáveis odores deste parto doloroso. E, já que estamos usando figuras orgânicas para tratar dos processos de mudanças e de nascimentos de novos tempos, convém lembrar que todos nós chegamos ao mundo entre fezes e urina. É dessa matéria prima que somos feitos.

Sabemos que somos feitos de carbono e outros átomos, criando a magia das proteínas e a fábrica fabulosa da química. E, por artes que não sabemos bem, esses átomos, por sua vez, vão gerar cultura e todas as conquistas superiores e misteriosas de uma sinfonia, de uma pintura ou do gracioso movimento da bailarina, dançando a suíte do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Sabemos, inclusive, que os sub produtos indesejáveis deste processo sempre estarão presentes.

Pois bem, num livro em que lamenta feito uma carpideira, Vargas Llosa relata um caso exemplar que, de certo modo, condensa um desses sintomas mórbidos. Trata-se do intrigante La civilización del espectáculo, no qual ele narra os diversos casos de obras de arte que traduzem, com espantosos exemplos, o que aqui estou tentando dizer. Talvez o mais fétido, em sentido literal, seja o caso do artista performático colombiano, Fernando Pertuz que, em uma galeria de arte, defecou diante do público e logo, “com total solenidade” procedeu a ingerir suas fezes.

E assim procede a humanidade, ingerindo espetacularmente seus próprios dejetos. E com a solenidade que a ocasião exige. Ainda que esses “dejetos” sejam, muitas vezes, os comentários sobre alimentos funcionais que os comensais, de alguma Trattoria do bairro de Pinheiros, entre sorrisos de duvidoso gosto, frivolidade e vulgaridade, compartilham entre si. O gozo é tão grande que chegam a sentir aquilo que, com humor, Tati Bernardi chama de “emoções pélvicas”, referindo-se àquilo que senhoras progressistas sentem quando imaginam o ministro Xandão, de sunga branca, enfrentando fascistas “que se filmam cometendo crimes”. Ah! Tati, doce, linda e genial menina, como gostaria de te dar um beijo de puro e raro afeto.

Mas, sigamos o rastro fétido das dores desse parto inconcluso, que Chronos padece para trazer à luz. E, logo, devemos ficar atentos às mutações genéticas que podem ocorrer com o nascimento de criaturas indesejáveis, como visto anteriormente, na sofrida história dessa sofrida humanidade, atravessando seu vale de lágrimas. Refiro-me àquela coisa abjeta que brotou após aquele instante de luz, vivido pela Alemanha com a República de Weimar.

O professor Gilberto Bercovici, em pedagógica entrevista a Walfrido Warde e Reinaldo Azevedo, discorre sobre a Constituição da República de Weimar, que vigorou entre 1919 e 1933. Ensina como essa constituição foi um marco e continua sendo uma referência para os frutos belos e saudáveis de Chronos. Mas, como disse antes, por artes nefastas do destino, ali, naquele mesmo útero, estavam sendo gestadas mutações diabólicas que nasceriam logo em seguida, em 1933, com a ascensão trágica do nazismo hitlerista.

Assim, do mesmo modo, aqui nestes Tristes Trópicos, nestes Apocalípticos Trópicos assistimos as dores do parto que Chronos padece. Desde 2013, segundo apontam alguns, a serpente desovou seus ovos de ódio, atraso e estupidez que foi se desdobrando com o golpe contra a presidente Dilma Rousseff e que, após o hiato nefasto do vampiro golpista, Chronos vai parir um tempo da mais pura perplexidade. A coisa fétida, estúpida, burra, canalha e perversa chega ao poder. Sintoma mórbido mais eloquente que este não poderia existir.

E, assim, como podemos fazer diagnósticos a partir desses sintomas, muito embora a disciplina Semiologia Médica parece ter sido abandonada nos currículos das Faculdades de Medicina, os sinais, os indícios são eloquentes para afirmar, com Gramsci, que o novo tempo ainda não nasceu. E que, por estas e outras razões, devemos permanecer atentos e fortes, pois não temos tempo de temer a morte.

*Otavio Almeida Filho é doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

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