Crise do sionismo

Imagem: Haley Black
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Por SAMUEL KILSZTAJN*

Acossados pelos europeus, em seu instinto de sobrevivência, os judeus aportaram e ocuparam a Palestina; e os palestinos muçulmanos, em seu instinto de sobrevivência, lutam contra o Estado de Israel

No início dos anos 1950, um grande contingente de judeus sobreviventes do Holocausto que havia imigrado para o recém-criado Estado de Israel abandonou o país. Esse êxodo, que na ocasião motivou manifestações de protesto no Parlamento Israelense, foi recentemente analisado por Ori Yehudai, em Leaving Zion: Jewish emigration from Palestine and Israel after World War II.

Em 2022 publiquei um livro pela Amazon, Returnees, sobre a saga de milhares de israelenses que, neste período e por obra do destino, acabaram ancorando nas terras do Brasil sem nunca terem ouvido falar que existisse um país com esse nome. Returnees porque eram europeus que estavam voltando para a Europa, palco do Holocausto. Os returnees que desembarcaram no Brasil eram judeus do Centro e Leste Europeu, em sua grande maioria poloneses, que sobreviveram ao Holocausto em campos de concentração nazistas ou na Sibéria e em outros confins da União Soviética. Em cada cidade e shtetl polonês, em cada uma das famílias, nove a cada dez judeus haviam sido exterminados durante a Segunda Guerra Mundial. Os sobreviventes perderam seus pais, casas, pertences, cidades, pátrias e referências e, no pós-guerra, ficaram alojados em campos de refugiados na Alemanha, Áustria e Itália.

Emigraram para Israel para construir o lar judeu e, desgraçadamente, viram-se envolvidos em conflitos com os palestinos muçulmanos, guerras e privações. Depois de alguns anos, sem perspectivas de sair dessa situação, munidos de passaportes israelenses, abandonaram Israel para imigrar para a América, o que constituía uma desconfortável postura antissionista, uma traição, uma aliyah às avessas.

Ancorados pela Lei para a Imigração de Refugiados de 1948, 150 mil sobreviventes judeus imigraram para os Estados Unidos entre 1948 e 1952 (esse número inclui judeus que emigraram diretamente da Europa e judeus que emigraram de Israel). A rota dos israelenses a caminho da América passava por Viena ou por Paris e desembocava em Munich, mais precisamente no último Campo de Refugiados judeus em operação em território alemão, Foehrenwald.

Mas, em 7 de agosto de 1953, o Presidente Eisenhower assinou a nova lei para a imigração de refugiados, que favoreceu a imigração de italianos, gregos e residentes em países comunistas; e restringiu a entrada de judeus nos Estados Unidos. Com isso, os returnees acabaram ficando encalhados na Europa e, depois de um escândalo internacional articulado pelos Estados Unidos, Alemanha e Israel, puderam desembarcar em terras brasileiras. O desembarque dos israelenses, na época, causou protestos da coletividade judaica brasileira, que solicitou esclarecimentos ao governo israelense sobre sua política contraditória.

A imigração dos israelenses no Brasil, assim como a imigração dos demais sobreviventes do Holocausto no pós-guerra, não encontra registro pelos historiadores e instituições judaicas no Brasil. E este apagamento segue até os nossos dias, porque quem controla o presente controla o passado. A Confederação Israelita do Brasil – CONIB, em seu site sobre a história da imigração judia no país, passa direto de “1933-1939: Cerca de 17.500 judeus entraram no país” para a “Década de 1950: Em finais dos anos 1950, chegaram os judeus húngaros e os egípcios, que se instalaram, sobretudo, no Rio de Janeiro e em São Paulo”.

O apagamento empreendido pelos historiadores e instituições judaicas no Brasil sobre a chegada de milhares de israelenses nos anos 1950, traidores do sionismo, constitui uma política de silenciamento dessa imigração tão desconfortável para a coletividade judaica marcadamente sionista do pós-guerra. Além dessa imigração não ser registrada pelos historiadores, biografias (e autobiografias) de pessoas eminentes omitem sua “passagem” por Israel. Poder-se-ia perguntar a esses historiadores e instituições judaicas, o que esses traidores dos anos 1950 poderiam nos contar sobre a vida no Estado de Israel em sua formação. O que esse povo do livro poderia aprender com eles para os guiar nesse momento de crise do sionismo?

Em maio de 2023, fui procurado por um escritor israelense, Shmuel Yored, que pediu para eu avaliar um livro seu com o título de Jaffa. Quando li seu manuscrito, fiquei estarrecido, completamente pasmo, porque ele simplesmente havia se apropriado de toda a minha produção bibliográfica e história de vida. Fiquei paralisado, sem ação, não sabia o que deveria fazer e, por fim, resolvi não fazer nada.

Passado um mês, o autor entrou em contato comigo por telefone e perguntou se eu havia gostado do texto. Demorei para responder e, sem fazer nenhum comentário sobre o fato de ele ter se apossado de minha história de vida, disse que havia gostado do texto. Shmuel Yored perguntou então se eu estaria disposto a editar e publicar o seu livro na Amazon; e eu respondi que sim, porque, citando o autor, a humanidade é uma aventura.

O texto de Shmuel Yored, poderíamos dizer, é radical. O livro esclarece que o Estado Judeu, no pós-guerra, foi criado de forma a estancar o antissemitismo milenar disseminado nas sociedades cristãs, mas, como resultado, desencadeou o antissemitismo entre os muçulmanos, que até então conviviam pacificamente com os judeus. Acossados pelos europeus, em seu instinto de sobrevivência, os judeus aportaram e ocuparam a Palestina; e os palestinos muçulmanos, em seu instinto de sobrevivência, lutam contra o Estado de Israel. São, portanto, dois povos lutando pela sobrevivência e pela preservação de sua autoestima. Shmuel Yored pergunta “É lícito utilizar a opressão que os judeus europeus sofreram durante o Holocausto para justificar a opressão ao povo palestino muçulmano?”

A criação do Estado de Israel em 14 de maio de 1948 é comemorada anualmente pelos palestinos em 15 de maio como o Dia da Catástrofe, al-Nakba. O sonho dos judeus se transformou no pesadelo dos palestinos. Enquanto os judeus deixavam os Campos de Refugiados da Europa, os palestinos deixavam suas casas e suas cidades para se aglomerarem nos Campos de Refugiados ao longo das fronteiras de Israel com os países árabes vizinhos. Isaac Deutscher escreveu que os árabes tiveram que pagar o preço pelos crimes que a civilização europeia cometeu contra os judeus em Auschwitz.

O banimento dos árabes por ocasião da criação do Estado de Israel em 1948, a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza em 1967 e os primeiros assentamentos de povoados judeus na Cisjordânia e em Gaza, em meio a rodovias patrulhadas pelo exército israelense, foram obras da “esquerda”; e o atual avanço da direita no Estado de Israel é o coroamento do projeto sionista.

Os israelenses quiseram acreditar que a “muito infelizmente necessária” e imperiosa violência empreendida contra os nativos palestinos, que feria a formação humanista e pacifista dos judeus da diáspora, seria um ato tópico prontamente esquecido tanto pelos palestinos como pelos judeus. Queriam acreditar que os palestinos expulsos de sua terra natal seriam recebidos de braços abertos e imediatamente absorvidos pelos seus primos árabes dos países vizinhos e que, portanto, pronto, tudo seria rapidamente esquecido, definitivamente resolvido e apagado da memória. E, até hoje, tanto os israelenses como a grande maioria dos judeus da diáspora tentam em vão abstrair a questão palestina de seu plano de visão.

De acordo com Nir Evron, da Universidade de Tel-Aviv, quando um movimento pelos direitos civis palestinos apoiado internacionalmente começar a sério, como certamente o fará, as coisas neste país ficarão muito difíceis durante algum tempo. Os resultados exatos são difíceis de prever, mas qualquer que seja a esperança de longo prazo para este país, não há como evitar esse caminho.

A Rede Internacional Judia Antissionista – IJAN, foi formada em 2008 e se declara comprometida com a libertação do povo palestino, o direito de regresso dos refugiados e o fim da colonização israelense da Palestina histórica. A IJAN apoia a plena autodeterminação palestina e o direito de resistir à ocupação. Em 2014, por ocasião do massacre de palestinos em Gaza, Hajo Meyer, sobrevivente de Auschwitz e membro da IJAN, e outros 32 sobreviventes do Holocausto, ao lado de duas centenas de descendentes de sobreviventes, assinaram um documento condenando o racismo israelense e a desumanização do povo palestino. O documento termina com, Holocausto “Nunca mais para ninguém.”

*Samuel Kilsztajn é Samuel Kilsztajn é professor titular da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de Shulem, Returnees e Yiddish (https://amzn.to/3ZkegH7).


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