Capitalismo 4.0

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Por PAULO GHIRALDELLI*

A infosfera do Capitalismo 4.0 não apenas redefine a produção e o consumo, mas também molda formas de subjetividade, onde o indivíduo se torna um “divíduo”, fragmentado e constantemente reconfigurado pelos fluxos de dados e algoritmos

1.

Capitalismo 4.0 é o regime da hegemonia da lógica do capitalismo financeiro em simbiose com a infosfera dominada pela Internet em associação com a Inteligência Artificial. Trata-se de um nome mais amplo para aquilo que já chegamos a chamar de semiocapitalismo. Este, por sua vez, é o regime de conexões em detrimento de conjugações. É o regime em que semântica perde espaço para a semiótica. A infosfera é o campo no qual esse desiderato se realiza.

Em termos de periodização, podemos estabelecer as seguintes etapas. Uma primeira forma de capitalismo é aquela da época da manufatura, predominante nos séculos XVI, XVII e XVIII. Uma segunda forma é a do regime industrial-fabril, do século XIX até o final dos anos 1970. A terceira etapa é caracterizada pela transição do regime pós-fordista, dos anos1980 até o início do século XXI.

A época em que vivemos, em pleno pós-fordismo, é a do trabalho que secundariza a fábrica e, em contrapartida, se espraia por todo o tecido social. Ou seja, enquanto a fábrica tradicional se robotizou a cidade se digitalizou, nela se instaurou algo como uma “fábrica social”, um mundo de empresas, de trabalhadores avulsos, cuja jornada de trabalho se confunde com o que seria o lazer e vice-versa, dando margem para falarmos em um novo regime biopolítico.

Falamos hoje menos em classe operária talvez por conta de todos compormos, agora, um grande operariado. Uma vez que todos se transformaram, na cidade, em suas casas e escritórios – inclusive alugados por hora para parecerem empresa –, como um grande número dos que se pensam “autônomos”, “empresários e si mesmos”, quando na verdade estão compondo uma totalidade de operários.

Olhando agora para o passado recente, é fácil dizer que a simbiose apontada acima não tinha como não ocorrer. O capitalismo submetido à lógica financeira, em que o dinheiro gera dinheiro sem passar pela mercadoria, iria precisar de supercomputadores em rede, e estes, ao surgirem do útero dessa reformulação o modo de produção, inicialmente deram a impressão de estarem gerando “novas mídias”, “mídias eletrônicas”, “milagres de um novo espaço público interativo” etc.

Havia algo de verdade nisso, mas só parcialmente. O que foi gerado foi uma maquinaria de “automação da automação”, um capitalismo de mineração de dados, de venda de pesquisas que apontam quadros psicométricos de todos nós, além de facilitar a tarefa da própria maquinaria no seu destino de fazer as aplicações nas bolsas financeiras ao redor do planeta.

Além disso, no âmbito do cotidiano, nos coloca sob a ideologia de uma pseudoliberdade, uma desoneração completa, e nos ludibria ao nos obrigar a trabalhar nas plataformas que não nos pagam pelo nosso fornecimento a elas de tempo, conhecimento e de possibilidade de aperfeiçoamento dessa mesma maquinaria. Karl Marx diria: é o regime ideal de vigência do General Intellect apropriado pelo capital.

2.

No capitalismo 4.0 a diferença entre estar on e off desapareceu. Todos estão dependentes das plataformas virtuais, que se tornaram monopólios. A geração Z nem mesmo lembra dos vários livros de Pierre Levy, que glorificaram a internet livre. A inserção de todos nós na infosfera vem gerando novas formas de subjetividade.

Gilles Deleuze traçou o quadro das condições objetivas e subjetivas, em uma fantástica antevisão do que agora ocorre. Ele disse que iríamos viver sob regime de fluxos e de modelações de uma sociedade do controle. Um controle sem controlador principal. O fim das disciplinas para que pudesse emergir a continuidade de todos controlando todos.

O homem não seria mais indivíduo, mas divíduo: várias facetas para cada pessoa, ao se mirar na própria rede infosféria que, na época em que Gilles Deleuze escreveu, ainda não estava vigente. Cinco anos depois, a WWW se tornou um acontecimento. A principal feição dessa subjetividade do homem-divíduo de vDeleuze aparece em rostos que se reatualizam continuamente na condição da Rainha má diante do seu espelho mágico, no conto Branca de Neve. Como é isso?

Cada pessoa que se insere na infosfera – e não há mais algum momento que fiquemos fora dela – deixa um rastro. Esse rastro é devolvido para a própria pessoa como se fosse o seu único e totalizante perfil. Mas não é. É um perfil parcial, quase uma caricatura, mas apresentado com argúcia e tirocínio a ponto de muitas pessoas dizerem que a Internet conhece a psicologia delas, que elas podem abandonar estudos sobre si mesmos e aposentar a psicanálise.

Todavia, o que cada um recebe de volta são inúmeras caricaturas, com cifras de usuários – senhas – para serem acessadas. Nessas caricaturas predomina o senso comum, tudo que é maniqueísmo, preconceitos, conservadorismo, cristalização de hieraquias sociais e sensacionalismo. O pacote em que isso é apresentado se chama: consumidor.

Às vezes, se chama prosumidor, a figura do produtor e consumidor ao mesmo tempo. Não à toa, o pensamento de direita tem uma facilidade maior em surfar na infosfera. Ele é mais concentrado, menos interessado em assuntos diversos. E a infosfera devolve sempre mais do mesmo enquanto for efetivamente mais.

A cada pergunta para o espelho mágico, mais a Rainha má se torna narcísica, até que um dia seu narcisismo sofre um abalo: sua juventude se mostra superada pela de Branca de Neve. Sua reação é a de tentar a destruição da garota. A infosfera faz isso com cada um de nós.

3.

A infosfera não é um regime de produção de deprimidos, mas de histerismo contínuo. A ordem dela é a geração da gritaria. O modo pelo qual ela cria o narcisismo é curioso, pois é um narcisismo sem Narciso. A pessoas se esvaziam na infosfera e assumem condições de consumidores e produtores de simulacros.

Jamais conseguem se ver inteiros, como no espelho real, mas se fazem segundo as modulações do grande fluxo de caricaturas de si mesmos que lhe são devolvidas com o seguinte recado: “eis o seu retrato fiel, seus gostos, inclusive o seu inconsciente”.

Tudo isso com a seguinte implicação: absorva tudo que está aí na profusão de uma inflação semiótica e uma deflação semântica. Mais símbolos sem significados. Mais fala do corpo sem o corpo sensível. Mais insensibilidade a partir de um enorme eco sobre a necessidade de sensibilidade. Mais não-pensamento e até mesmo antipensamento em torno do pseudopensamento maquinal.

Os homens são acoplados ao maquinário da infosfera e a subjetividade do capitalismo 4.0 é a subjetividade maquínica. Cada pessoa é um pedaço dos pontos da rede imensa de algoritmos.

O operador de tudo isso não é nenhum ricaço ou uma instituição, empresa ou país. Não é a intenção humana que se põe a fazer funcionar todo esse aparato de simbiose entre finanças e infosfera. O operador semiótico é o capital. A simbiose que falamos acima está em função do capital, cuja determinação, sendo dinheiro em movimento, é sua acumulação infinita. Ele diz então o que é para ser reproduzido.

O que é para ser reproduzido é o que é “viral”, e este é o senso comum que se casa bem com essa subjetividade que faz abolição em si mesma da hermenêutica. A interpretação não é necessária se todos os comandos estão já dados, indicados e obedecidos. A infosfera é um regime de facilitação. Ela faz tudo ficar fácil. E quando tudo é fácil ao extremo, a curiosidade cessa e a facilidade ganha credulidade, embora seja, de fato, uma pseudofacilidade.

Cada criança que perdeu seu paninho, seu ursinho, seu substituto da mãe pelo celular, já aprende mais palavras na infosfera que com sua mãe. Portanto, não aprende uma semântica humana, mas uma semântica probabilística, descorporificada, com tonalidades e afeições falsas, desconjuntadas.

Não à toa o diagnóstico de autismo – corretos ou não – cresceram assustadoramente nos últimos anos. Há filósofos que garantem que esse crescimento não é pelo esgarçamento de critérios de diagnósticos.

*Paulo Ghiraldelli é filósofo, youtuber e escritor. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH]


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