Os Esquecidos de Karimõ

Imagem: Erik Mclean
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Por Marcel Alentejo da Boa Morte*

Em uma sociedade onde a humanidade é medida pela lembrança, o esquecimento torna-se a sentença final — e o ritual de expiação, a única colheita possível

A antropologia deixa assim escapar, em nome de impalpáveis e pálidas certezas, um campo ao qual ela permanece cega (como o avestruz, talvez?): aquele que conceitos tais como os de espírito, alma, corpo, êxtase etc, não conseguem circunscrever, mas no centro do qual maliciosamente a Morte coloca sua questão.
(Clastres, Arqueologia da violência, p.44)

Em meio à busca por novos campos de pesquisa, encontrei um novo projeto etnográfico numa tribo ainda pouco explorada denominada Karimõ. Os Karimõ estão situados à margem do Rio Paraná, próximo às tribos Avá-Guarani e Kaingang. Pouco se conhecia sobre sua origem, mitologia e cultura, em contraste com seus vizinhos, até mesmo sua língua era pouco compreendida até então. Comecei a investigar suas práticas ritualísticas, crenças, economia doméstica etc., até que decidi que era necessário realizar uma pesquisa de campo. Foi uma longa viagem: após um longo percurso de carro, parti do aeroporto e tive que andar por mais algumas horas até chegar finalmente à cidade.

A cultura dos Karimõ é caracterizada por uma forte divisão de trabalho, politeísmo, economia de mercado e por estratos bem definidos. Dentro dos Karimõ há dois grupos denominados Narahé e Aruá que ocupam posições sociais distintas. Apesar de reconhecer rapidamente a existência dos dois grupos, uma grande dificuldade foi apresentada ao tentar entender os mecanismos de reconhecimento e diferenciação na vida pública. Inicialmente a hipótese era que se distinguiam através da ancestralidade, cultura religiosa, desigualdade da distribuição de riqueza ou mesmo que eram cativos das tribos vizinhas, mas pouco tempo durou até que cada uma dessas hipóteses fosse rechaçada.

É notável que depois de alguns dias após essa primeira descoberta, conheci um Aruá que descendia de um Narahé. A língua entre os dois grupos não era acentuadamente distinta, apesar de pequenas variações e flexões serem encontradas, em divisões de gênero, por exemplo, mulheres usavam com frequência palavras específicas, porém a fração de mulheres e homens entre os Aruá era a mesma, o que invalidou a hipótese de gênero. Diga-se de passagem que, fora do âmbito reprodutivo, a diferenciação de gênero era mínima. Impressionante era o fato de que até mesmo crianças utilizavam por vezes pronomes distintos e sua presença entre os Aruá e Narahé era aproximadamente a mesma.

A religião entre os Karimõ era variada, apesar de se concentrar numa divindade mantenedora, o Nomam. A religião nessa tribo guarda ainda um profundo vínculo com o dispêndio da riqueza social. Porém não pretendo aqui avançar nesse tema devido sua complexidade. Por ora basta que se entenda que ambos os grupos frequentavam por vezes o mesmo templo e cultuam a mesma divindade – algo parecido com o dízimo é comumente praticado.[i] Como a comunicação era dificultada, rara vezes conseguia compreender coisas do seu cotidiano, entendia ainda menos quando perguntava diretamente sobre o tema.

As moradias dos Naharé em sua maioria eram mais próximas dos alimentos e da água, porém alguns viviam também em regiões Aruá. As casas Naharé eram, por vezes, mais adornadas, numa análise comparativa entre as diversas moradias chega-se à conclusão que é uma questão estritamente privada desses indivíduos. Os materiais das casas eram frequentemente os mesmos e seu interior pouco variante. Em síntese, alguns viviam vidas luxuosas, outros nem tanto, a efemeridade e acesso aos objetos era tema importante entre karimõ e tinha bastante importância nas relações afetivas.

 Um fato atípico ocorreu num dia ensolarado, onde um Naharé foi identificado como um Aruá, vivenciava ali uma transposição social. Em meio à passagem central, onde grande parte dos Karimõ convive, um feiticeiro, dono do ervatório, e um guerreiro agiam como persecutores e acusavam um outro Karimõ de se fingir de Naharé. Seu espanto e vergonha eram claros, ele então agiu como se fosse marcado para morte – iria descobrir que esse era realmente o caso – foi, a partir de então, evitado em todos os círculos de contato. A condição de estranhamento social levava a três possíveis explicações: algum feitiço fora lançado contra o indivíduo, mudando seu status; havia cometido alguma transgressão voluntária ou involuntária; tinha contraído alguma doença. A terceira opção logo foi descartada, pois não havia ação de um agente natural, nenhuma enfermidade estava aparente entre os Aruá. Nos dias que seguiram tampouco procurou um curandeiro para curar sua possível doença.

A hipótese do feitiço me tomou mais tempo, já que essas práticas são privadas e em geral difíceis de identificar. A tradição oral não era apresentada aos forasteiros, e somente vasculhando os raros escritos de encantamento e objetos mágicos que compreendi a extensão dos feitiços. Era comum fazer magias de paixão, casamento, até mesmo doenças, mas nada no sentido que presenciei. Não havia, até onde consegui procurar, um feitiço para transformar um Naharé em Aruá. Por fim, a venalidade dos objetos do trabalho e serviços tampouco tinha potência para tal, as suas relações de produção de riquezas não se traduziam nesses estratos – haviam Aruá “ricos” tanto quanto Naharé – cheguei à conclusão que sua economia doméstica tinha pouca ou quase nenhuma relação com os estratos.

A resposta, entretanto, surgiu quando num dia uma acentuada movimentação concentrava os esforços da tribo, era sua cerimônia fúnebre. Pensava eu que um Karimõ havia morrido. Ao chegar ao local, porém, um Aruá estava posicionado no centro do santuário, era um local de sacrifício. Os Narahé eram escolhidos para execução, os guerreiros eram os celebrantes devido às suas conquistas bélicas, a liturgia era governada pelo xamã que apresentava ao público o instrumento, uma “adaga decepadora”.  O mestre da cerimônia parecia incorporar um espírito vingativo. A sequência de pancadas na cabeça, cortes e mutilações corporais era seguida por estado quase de deleite, o comportamento sádico se tratava de um fenômeno da vida cotidiana dos Karimõ. Após a morte o corpo era exposto, nas horas seguintes cantos eram realizados pelos Aruá, o corpo era enterrado e pouco se comentava sobre o ocorrido posteriormente. 

Por muito tempo acreditava tratar-se de uma prática comum. Todavia, tomei conhecimento de sua particularidade quando soube que um Naharé ancião havia morrido, a causa mais provável seria a idade avançada. O ritual de morte para os Naharé era completamente distinto, uma caça de algum animal era promovido, a família se concentrava em buscá-lo e executá-lo nas proximidades, enquanto os demais velavam o corpo. Acreditavam que os animais sabiam o caminho aos céus, ele seria então o guia, já que os humanos haviam esquecido o caminho.

O esquecimento talvez seja a característica mais determinante de um karimõ. Diria que um Aruá era esquecido, como se não tivesse história, nem tempo, nem ancestral, era como o próprio esquecimento. Disso reside a diferença entre os estratos, e ponto fundamental da diferenciação no nascimento e justiça. Os Naharé são todos aqueles que são lembrados, enquanto os Aruá tem sua alma nuclear esquecida. A crença fundamental entre os Karimõ é que os Aruá são tidos como instrumentos disponíveis da comunidade, intrusos. Um xamã disse-me uma vez que as entidades Aruá eram espíritos maléficos que tentavam retirar as almas transvestidas de Karimõ, era reconhecido somente quando a mana era baixa. Apesar disso, os Naharé não matavam com frequência os Aruá, apesar de haver desentendimentos e brigas, raramente acabava em morte. Sua execução tinha fim expiatório somente, e essa linha não podia ser atravessada, pelo menos não sem as magias de expiação do xamã que transferem os espíritos dos seus portadores para a terra. Tive oportunidade de conversar com um xamã sobre a morte dos Aruá. Disse-lhe o seguinte: “São jovens Aruá, por quê?” Ele me respondeu algo como: “Os Aruá não disfarçam muito tempo”. Devido a falta de linguística acredito que haja um desentendimento. Lexicalmente todas as palavras associadas aos Aruá guardavam o radical relativo a “afastamento”, a separação cosmogônica entre os Karimõ e esses espíritos maléficos. Consegui construir uma segunda pergunta, que poderia ser traduzida por: “Não fica sem Aruá?” atônito, o xamã respondeu algo como: “Aruá sempre excesso”.[ii]

Numa tarde, após o almoço, fui despertado numa comoção muito intensa, mais do que havia visto nas cerimônias cotidianas. Um ritual de proporções enormes estava se configurando, ao chegar ao sacro templo Karimõ, havia diversos Aruá ajoelhados, era um “mega ritual de expiação”. Todos os xamãs estavam presentes e talvez a tribo inteira aguardava. A carnificina começava, gritos eram produzidos, fogo era disperso, barulhos de trovões soavam logo antes da queda de um Aruá, crianças, mulheres, homens caiam igualmente enquanto o xamã lançava magias, seus corpos eram instrumentos de fruição, enforcados, atravessados por flechas, lanças. A morte dos Aruá era como um êxtase para os Karimõ, era uma revitalização psíquica, uma experiência hiper sensorial de alívio.

Seguia-se após a morte o festejo, onde os Aruá eram deixados sem rostos, sem cabeça, estendidos no meio do templo. O cheiro da morte ficava impregnado. Eles não velavam os corpos nem enterravam, pelo contrário, os homens arrastavam ao local mais visível e os corpos dilacerados eram cuidadosamente enfileirados, como se realizasse uma contagem.

Os Karimõ consumiam espiritualmente os mortos, em uma antropofagia contagiante, ficaram lá por horas, repetindo e rememorando o ato – atuando no ato. Diante de tamanha barbaridade não estavam abalados eticamente pela morte, pelo contrário, eram insaciáveis, como as plantas que após uma grande seca espera a chuva torrencial, era como se a morte lavasse suas almas. Um senso de urgência residia entre os Karimõ, em meio aos choros e cantos aguardavam a próxima chuva. Mesmo diante de toda a morte a comunidade permanecia inerte, era apagada de suas memórias. Era como uma Somatoparafrenia social.

*Marcel Alentejo da Boa Morte é doutorando em Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Referências

BOA MORTE, M. A da. Nomam e o corpo dividido: ontologia da expiação entre os Karimõ. São Paulo: Horizonte Cizento, 2020.

BOA MORTE, M.A da. “Somatoparafrenia e esquecimento social: notas sobre corpo e memória nas margens do Paraná.” Revista de Antropologia Patafísica, v. 11, n. 2, p. 55–79, 2021.

CLASTRES, P. 2004. Arqueologia da violência — pesquisas de antropologia política. São Paulo: Cosac & Naify.

OLIVEIRA, L. V. O corpo e o esquecimento: estudos sobre magia e identidade nas cosmologias ameríndias de Camacã. Rio de Janeiro: Editora Anêmica, 2019.

Notas


[i] O escrito sobre a religião Karimõ será discutido num próximo artigo.

[ii] Outras perguntas foram feitas nesse encontro, principalmente sobre a prática religiosa, que será desenvolvida no artigo comentado na primeira nota.

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