As cidades desertas – XII

Imagem: João Nitsche

Por GILBERTO LOPES

Comentários sobre acontecimentos recentes na política internacional

Disparam-se os casos e as mortes

O número de casos e mortes no mundo voltou a disparar devido à Covid-19. A curva tinha se aproximado de 600.000 novos casos diários. Em 30 de outubro, tinha alcançado quase 573.000, até que, em 5 de novembro, deu um salto: ultrapassou 613.000. E continuou crescendo até atingir mais de 660.000, em 13 de novembro. O número de mortes diárias também cresceu. O número mais alto tinha sido 8.534 em 17 de abril, na primeira onda da pandemia. Depois a onda diminuiu, e entre maio e junho o número de mortes caiu para cerca de 5.000 diárias, para aumentar novamente para 7.312, em 22 de julho. Em seguida,  começou o verão europeu e o número de mortos caiu novamente para menos de cinco mil no início de outubro. Uma terceira onda, no início de novembro, já ultrapassou os números de abril, chegando a mais de dez mil mortes por dia.

Cinco países europeus estavam novamente entre os dez com o maior número de casos no mundo. França, Inglaterra e Itália viram aumentar para cerca de 35.000 novos casos diários na semana passada. As próximas duas semanas serão fundamentais para controlar a pandemia na Inglaterra, dizem as autoridades. O número de internações hospitalares está se aproximando rapidamente dos picos de abril. Alemanha, Espanha e Rússia tinham pouco mais de 20.000 casos diários. Segundo o centro de controle de doenças da Alemanha, na última sexta-feira, o país teve o maior número de novos contágios (23.5420), acima do recorde anterior (23.399), e se aproximava do momento para a adoção de medidas de fechamento.

Os países da Europa Central, membros do grupo de Visegrad – República Tcheca, Polônia, Hungria e Eslováquia – tiveram um bom desempenho no controle da pandemia. Mas isso mudou. Os casos aumentaram rapidamente e as autoridades temem que os serviços de saúde estejam perto do colapso. Os quatro países estão considerando alguma forma de fechamento para controlar o contágio. Mas a lista de casos e mortes continua sendo liderada, de longe, pelos Estados Unidos, que se aproximam de 190.000 casos diários, seguidos pela Índia, com mais de 45.000, e pelo Brasil, com cerca de 35.000. Os três somam quase a metade dos casos e das mortes no mundo. Na semana passada, os Estados Unidos ultrapassaram 250.000 mortes devido à pandemia, seguidos pelo Brasil, que está perto de 170.000, e pela Índia, com 130.000. No ritmo atual, quando deixar o cargo, haverá mais de 300.000 mortes na conta do governo Trump. Quanto ao número de mortes por milhão de habitantes, Peru, Brasil, Chile, Argentina e Bolívia, nessa ordem, estão entre os dez primeiros, seguidos pelos Estados Unidos e México.

A origem de todas as coisas

“Ficou claramente demonstrado que nossa capacidade de derrubar rapidamente Allende é muito limitada”, disse Henry Kissinger, então conselheiro de segurança nacional do presidente Richard Nixon, num memorando secreto enviado a ele em 18 de outubro. Apenas uma semana depois, grupos de extrema-direita assassinaram o comandante-em-chefe do exército chileno, general René Schneider. Foi a primeira tentativa de provocar uma revolta militar, que impedisse Allende de assumir o poder, em 3 de novembro de 1970.

Um ano depois do golpe militar liderado pelo general Pinochet em 11 de setembro de 1973, este ordenou o assassinato de seu  antigo amigo e predecessor no comando do exército, o general Carlos Prats. O crime foi cometido em Buenos Aires pela Diretoria de Inteligência Nacional (DINA) em 30 de setembro de 1974, onde estava exilado Prats, um militar anti-golpe. Uma bomba, colocada debaixo de seu carro, matou ele e sua esposa, Sofía Cuthbert. Os detalhes da conspiração do governo estadunidense estiveram novamente em evidência com a publicação de uma série de documentos que revelam a trama para derrubar o governo chileno liderado por Salvador Allende.

Seis dias depois da posse de Allende, Kissinger entregou aos chefes da CIA, do Departamento de Defesa e da Secretaria de Estado um memorando ultra-secreto intitulado “Política para o Chile”. O documento resumia as orientações que surgiram numa reunião do Conselho Nacional de Segurança (NSC) com Nixon sobre o assunto. O documento resumia a posição adotada pelo presidente, por sugestão do próprio Kissinger:

(1) A posição pública dos Estados Unidos será correta mas fria, a fim de evitar dar ao governo Allende uma base que lhe permita ganhar apoio nacional e internacional para consolidar o regime; mas…

(2) Os Estados Unidos procurarão maximizar a pressão sobre o governo Allende para evitar sua consolidação e limitar sua capacidade de promover políticas contrárias aos interesses dos Estados Unidos e do hemisfério.

“Eu definitivamente acho que esta política é importante considerando seus efeitos sobre outras pessoas no mundo”, disse Nixon, ecoando os argumentos que Kissinger lhe apresentou quatro dias antes sobre os possíveis efeitos do “modelo Allende”. “O efeito do ‘modelo Allende’ pode ser insidioso, pode ter efeitos em outros lugares, especialmente na Itália; se for reproduzido, poderia ter um efeito significativo no balanço mundial e em nossa posição no mundo”, disse Kissinger. “Se Allende mostrar que pode implementar uma política marxista antiamericana, outros pensarão que também podem”. Essa foi sua avaliação.

A diretiva autorizava as autoridades norte-americanas a colaborarem com outros governos da região, especialmente as ditaduras militares que governavam o Brasil e a Argentina, para coordenar esforços contra Allende; para bloquear discretamente os empréstimos bancários multilaterais ao Chile e acabar com os créditos de exportação e empréstimos dos Estados Unidos; para estimular as corporações americanas a deixarem o Chile, e manipular os preços no mercado internacional do principal produto de exportação chileno, o cobre, para causar o maior dano possível à economia chilena. A CIA foi autorizada a preparar os planos a este respeito, para sua implementação futura. “Helms (o diretor da CIA, Richard Helms) tem que acabar com essas pessoas”, disse Nixon a Kissinger, referindo-se às operações encobertas que estavam sendo planejadas. “Deixamos isso muito claro”, respondeu Kissinger.

As consequências desse golpe de Estado são evidentes hoje em dia. Os efeitos da iniciativa de Washington são bem conhecidos e foram lembrados no 50º aniversário da eleição de Allende, em setembro passado. Ela fortaleceu os regimes militares, deu origem à “Operação Condor”, uma coordenação entre as ditaduras do Cone Sul para o sequestro, desaparecimento ou assassinato de opositores em toda a região e, sobretudo, abriu a avenida para um modelo neoliberal da economia, cujos efeitos estão hoje sob crítica em todo o mundo. Efeitos evidenciados, ademais, pela tragédia da Covid-19. É mais difícil saber se o eventual governo bem sucedido de Allende poderia transforma-se num “modelo” com influência mundial, como temia Kissinger.

No Chile, abriu-se um processo para a convocação de uma Assembléia Constituinte, aprovada num plebiscito no mês passado, para substituir a que deixou Pinochet. Seus membros serão eleitos em abril próximo, em meio a protestos públicos que irromperam no país em outubro do ano passado e não cessaram. Mas a política promovida por Washington naquele momento acabou tendo um efeito também nos Estados Unidos, como era inevitável. Finalmente, também lá o governo questionou a vontade popular expressa nas urnas, fazendo com que a experiência habitual de intervir em eleições na América Latina fosse revertida e instalada em seu próprio país.

Sobre facas e pistolas

Nesta guerra, os republicanos não cedem em nada. Lutam com tiros uma guerra que os democratas querem vencer com facas, disse David Sirota, colunista do The Guardian nos Estados Unidos, redator dos discursos de Bernie Sanders na disputa pela candidatura democrata. Sirota lembra a campanha de 2000, quando o candidato democrata, Al Gore, aceitou uma decisão judicial que impediu a contagem total dos votos na Flórida, dando a vitória, por um punhado de votos, a seu rival republicano George W. Bush. Seu artigo foi publicado na quinta-feira, 12 de novembro, quando Trump recorria aos tribunais para impugnar os resultados das eleições em vários estados. “Os democratas se recusam a ver o assalto em câmara lenta com que os republicanos pretendem levar as eleições”, disse ele. Trump não está apenas fazendo birras infantis, “é parte de um plano criminoso”, afirmou. Em sua visão, Trump e seus apoiadores realizam uma campanha para criar um ambiente que convença uma parcela significativa da opinião pública de que houve fraude, de modo que possa recorrer aos tribunais e contestar os resultados. De qualquer forma, as tentativas de processos judiciais contra as eleições têm perdido força à medida que as autoridades eleitorais de cada estado têm confirmado a lisura do processo.

Sirota lembra, entretanto, que a Suprema Corte dos EUA tem agora três juízes, indicados pelos republicanos, que estavam diretamente envolvidos no “caso Bush x Al Gore que roubou a eleição em 2000 em favor dos republicanos”. Também em 12 de novembro, Maggie Haberman, correspondente na Casa Branca, escreveu no The New York Times que o presidente tinha se reunido na véspera com um grupo de assessores para discutir suas chances de reverter o resultado eleitoral. Para Haberman, contudo, é simplesmente uma estratégia para manter seus partidários no limite, para então começar a brigar, na esperança de “conservar seus milhões de partidários entusiasmados e comprometidos com o que vier na sequência, seja lá o que isso for”. Ele lembrou que Trump já anunciou sua intenção de concorrer novamente ao cargo em 2024. Quer ele o faça ou não, acrescentou, “isso manterá congelado um campo já lotado de possíveis candidatos republicanos”.

Talvez. Para Zeynep Tufekci, no entanto, a liderança republicana está otimista. Eles sabem que Trump “está pronto” e se alegram. Por que não?, pergunta ela, num artigo no The Atlantic. Os republicanos não têm do que se queixar: eles controlam firmemente a Suprema Corte; provavelmente controlarão o Senado, em relação ao qual haverá um segundo turno para eleger os dois senadores da Geórgia em 5 de janeiro. Os democratas têm que ganhar as duas vagas se quiserem conquistar a maioria no Senado, o que parece improvável. “Se não controlarem o Senado, disse ele, Biden seria o primeiro presidente desde 1989 a tomar posse sem controlar ambas as casas do Congresso”. Na câmara baixa, embora sigam na minoria, os republicanos conquistaram mais assentos do que esperavam; mantiveram suas posições nos estados; e “diversificaram sua própria coalizão, ganhando com mais candidatas mulheres e maior apoio de eleitores não brancos”. Está tudo pronto, disse Tufekci, para que um político mais talentoso assuma o legado do trumpismo em 2024.

Armadilha republicana?

Biden, por sua vez, acha que pode trabalhar com seus rivais para atingir seus objetivos. Mas ele está errado. “A era do bipartidarismo acabou”, disse o correspondente do The Guardian em Washington, David Smith. Senador por 37 anos (de 1973 a 2009), Biden sonha com seus “bons velhos tempos no Senado”, disse Smith. “Isto é mais do que ingênuo, é uma ilusão. Ele está vivendo num passado que foi destruído há muito tempo e cujos restos acabaram sendo incinerados por Donald Trump”, afirmou. Uma ingenuidade que também é lamentada por George Mombiot, outro colunista do The Guardian. “Uma lágrima saiu dos meus olhos, coloquei uma mão no coração. Em seu discurso de aceitação da vitória, Biden apelou à unidade e à reconciliação. Espero estar errado”, disse Mombiot.

“Os Estados Unidos estão fundamentalmente divididos. Dividido entre exploradores e explorados, opressores e oprimidos. Nenhuma unidade é possível entre cleptocratas e oligarcas”. Mombiot é implacável com o legado deixado pelo antecessor de Trump, Barack Obama, que, em sua opinião, abriu as portas da presidência para o atual presidente. Em sua tentativa de conciliar forças irreconciliáveis, Obama preferiu não enfrentar a ganância dos bancos. Ele permitiu que seu secretário do tesouro, Timothy Geithner, abrisse o caminho para que dez milhões de famílias perdessem suas casas após a crise financeira de 2008; seu Departamento de Justiça bloqueou os esforços para investigar supostas fraudes financeiras; promoveu acordos comerciais que deterioraram os direitos dos trabalhadores e o meio ambiente; governou em meio à crescente desigualdade e concentração da riqueza, da precarização do trabalho e um recorde de fusões e aquisições. “Em outras palavras, não conseguiu quebrar o consenso que havia crescido em torno da ideologia dominante de nosso tempo: o neoliberalismo”. Se Biden também renunciar a quebrar esse consenso, ele poderia abrir as portas das eleições de 2024 a um autocrata competente, concluiu Mombiot, tal como Tufekci já havia advertido em seu artigo.

Crise global

Biden encontrará um mundo com uma crise que não é apenas conjuntural, um mundo onde outras potências – como China, Rússia, Índia, Irã ou Turquia – disputam o poder em nível global ou regional com os Estados Unidos, disse José Dirceu, ministro da casa civil durante o primeiro governo de Lula no Brasil. “Como no resto do mundo, tenho muito medo dos neoconservadores que cercam Biden e que voltarão ao Pentágono e ao Departamento de Estado”, disse, por sua vez, o ex-ministro da economia da Grécia, Yanis Varoufakis, que hoje integra, com o senador Bernie Sanders, uma Internacional Progressista. Varoufakis também não tem ilusões. Eu lamentaria se Trump tivesse ganhado as eleições”, disse ele, “mas nós ajudamos a colocar um presidente na Casa Branca que atuará em nome dos grandes interesses”. “Só espero que ele não comprometa a única coisa boa que Trump fez internacionalmente, que foi não começar qualquer nova guerra”. “Se Biden se cercar de pessoas que, contra todas as evidências de décadas passadas, ainda acreditam na ameaça ilegal e no uso da força militar como base da política externa americana, então a cooperação internacional de que o mundo tanto necessita será sabotada por mais quatro anos de guerras, hostilidades e tensões internacionais, sem que nossos problemas mais graves sejam resolvidos”, concluem Medea Benjamin, ativista política americana e fundadora da ONG Code Pink , e o jornalista britânico Nicholas Davies.

*Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR).

Tradução: Fernando Lima das Neves.