As portas do inferno

John Martin, O Grande Dia de Sua Ira, 1851–3
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Por JEAN MARC VON DER WEID*

A questão que importa hoje é se este governo vai chegar até o fim e em que situação vai estar em 2026

“Ainda não abrimos as portas do paraíso, mas fechamos as do inferno”. Recebi esta mensagem poucos dias após o segundo turno, quando ainda estávamos recobrando o fôlego depois do sufoco dos menos de 2% de vantagem de Lula sobre o inominável. Gostei tanto da frase que a distribuí à rodo. Resolvi adotá-la como título deste meu último artigo do ano de 2022, aquele em que quase nos afogamos. Não sei bem se a frase está conforme eu a recebi ou se a reescrevi inconscientemente. Se for o caso, peço desculpas ao autor, que não sei quem é.

Ao refletir sobre o artigo, no qual pretende fazer um balanço deste ano e das perspectivas para o próximo governo, cheguei à conclusão de que a frase está errada, apesar de seu apelo poético e político. Ela dá a impressão de que escapamos do inferno, que nos livramos dele e que as suas portas estão fechadas. E que agora estamos batendo às portas do paraíso e nos preparando para abri-las e adentrar o mundo da bem-aventurança.

Na verdade, não há uma barreira separando o paraíso e o inferno com uma porta que se abre para os dois lados, permitindo entrar e sair conforme o momento. Dialeticamente, inferno e paraíso coincidem no mesmo espaço e no mesmo tempo e, são as circunstâncias que definem o quanto de um e de outro nos cabe, ao longo das nossas vidas.  Frequentemente, a nossa percepção de inferno e paraíso se redefine e o que parecia uma coisa, se transforma em outra. Mas, superada esta introdução de filosofia de botequim, vamos dar uma olhada neste ano e especular sobre os próximos.

As portas do inferno não se fecharam. Pudemos, metaforicamente, abri-las um pouco, evitando que os horrores vividos nos últimos quatro anos se juntassem, todos os prometidos pelo energúmeno e ainda não cumpridos. Não podemos esquecer de que um novo governo de Jair Bolsonaro, com maioria na Câmara e no Senado e a possibilidade de controlar o STF e o TSE, com uma retaguarda sólida na oficialidade golpista das FFAA, com uma base crescente de milicianos armados e com uma legião de fanáticos seguidores articulados pelas redes sociais, permitiria um nível muito maior de repressão aos movimentos sociais, de destruição da cultura e da ciência, de hecatombe ambiental, entre outros impactos.

Há quem diga que as classes dominantes, que minha mãe chamava de Dona Zelites, e o imperialismo americano não permitiriam que um tal regime se estabelecesse e se estabilizasse. Bem, o “imperialismo” do bloco europeu resmunga, mas convive com os protoditadores da Hungria, da Polônia e da Turquia. Já aquele imperialismo americano dos anos 1950 e 1960 não é mais o mesmo, embora seja um cão velho que ainda pode morder.

Evitamos o pior, mas por muito, muito pouco. E a situação herdada por Lula é um desafio até para seu carisma, habilidade política e capacidade de liderança. Bolsonaro se foi e se foi em forma desmoralizante até para seus mais ferozes apoiadores, ou melhor, sobretudo para esses. O energúmeno pode sobreviver politicamente? Poderá voltar em 2026? Acho improvável, sobretudo se a “força da lei” se abater sobre ele, sem que Augusto Aras esteja a postos para protegê-lo.

Mas sabemos como funciona a lei no Brasil, mesmo com o Supremo turbinado pelo protagonismo na resistência ao protoditador e com uma composição mais combativa com novos ministros, indicados por Lula. Mesmo esta composição depende de negociações com um Senado muito pior do que o atual (que já é terrível). Acredito mais na incapacidade de Jair Bolsonaro de atuar como um verdadeiro líder de seus bestializados seguidores, dentro e fora das FFAA. É a nossa sorte, até as páginas dois, pois novos e mais hábeis e ousados candidatos a capos da extrema direita poderão surgir.

Jair Bolsonaro deixou um país destroçado em todas as dimensões possíveis. O Estado foi desmantelado, o Tesouro pilhado, a economia está em frangalhos, dependente do agronegócio e da mineração. Deixou a população miserável, o emprego desqualificado, a fome transformada em preocupação quotidiana de dezenas de milhões. A saúde e a educação estão no seu pior estado na história da República. A “segurança” é hoje mais uma ameaça do que uma proteção dos cidadãos, sobretudo para pretos, pobres e indígenas. E as instituições saíram enfraquecidas dos embates destes quatro anos. Há quem diga que o fato de que elas sobreviveram e contiveram o energúmeno é prova de força, mas o desgaste foi enorme e pode ter sido uma vitória de Pirro. Para completar, temos uma parte gigante da população abduzida pelas redes sociais descontroladas e acreditando em coisas de que até Deus duvida.

Lula vai ter que recuperar as instituições, retomar o desenvolvimento econômico com inclusão social, controlar a destruição ambiental, desarmar o ambiente de ódio, costurar o tecido social para buscar a cooperação entre os brasileiros e brasileiras, enfrentar a profunda crise social em que vive mais da metade da população, reanimar a cultura, construir uma educação de qualidade para todos e todas, garantir a saúde para a imensa maioria que depende do SUS.

Tudo isto vai ter que ser feito com um Congresso em sua pior composição em todos os tempos. Um Congresso que se define por interesses paroquiais ou pelos interesses de lobbies empresariais. Terá que se haver com um sistema judiciário infiltrado de adeptos do energúmeno. Lula terá ainda de enfrentar uma classe dominante que nunca foi identificada com o país e capaz de colocar seus lucros acima de Deus e da Pátria, que dirá do povo. O rentismo nunca foi tão forte e o tamanho da nossa dívida (que cresceu exponencialmente no período recente) só aumenta o tamanho dos ganhos de quem vive de rendas (e a resistência a ceder parte deles).

Terá ainda de enfrentar uma imprensa que vive nos tempos de um neoliberalismo que já é renegado até por muitos dos seus teóricos fundadores. E uma comunicação em redes sociais ainda mais perigosa e com amplo domínio da ultradireita. Talvez o maior problema esteja na massa de fanáticos, armados ou não, esperando o momento de virar a mesa e mandar os “comunistas” para o inferno ou para, no dizer de Bolsonaro, para a ponta da praia (desova de cadáveres). Estamos olhando para as manifestações dos mais extremistas nas portas dos complacentes e cooperantes quartéis e assistindo os primeiros passos na direção do terrorismo.

Mas o pior da herança de Jair Bolsonaro está na ultrapolitização das FFAA. A generalada chantageou o Lula com a ameaça da insubordinação nos quartéis, onde oficiais defenderam o “direito” de manifestantes da extrema direita se instalarem de forma permanente, para apelar pela intervenção militar. Ou, sem disfarces, pela ditadura. O alto comando do Exército, literalmente, nomeou o novo ministro da Defesa, José Múcio, que se esmerou em repetir as baboseiras da milicada sobre o direito dos manifestantes. Nem o terrorismo explícito dos atos dos belicosos no dia da nomeação de Lula, nem a tentativa de um atentado contra o aeroporto de Brasília, que podia ter provocado centenas de mortos, alterou a empáfia do moço de recados dos generais. Segundo ele “as manifestações são pacíficas”.

Os generais entubaram a derrota e passaram a preservar os seus poderes irregulares, negociando ameaçadoramente com Lula. Pior ainda, os atos dos últimos dois meses mostram que a oficialidade que comanda diretamente as tropas, os coronéis, estão dispostos a revidar, assim que tiverem uma oportunidade. Por que não deram o golpe agora? Pelo que foi apurado, havia uma concordância dos comandantes da Força Aérea e da Marinha com a declarada intenção do general Augusto Heleno, aquele que defendeu “ir par o pau” depois das eleições perdidas. Ao que se sabe, foi o alto comando do exército que rachou a frente golpista e parou o processo. Medo da reação internacional? É provável. Talvez nunca venhamos a saber o que discutiram e como chegaram à decisão de ficar no muro.

Por outro lado, apesar da evidente quebra da disciplina constatada, cada dia em que os comandos de tropa permitiram que os manifestantes invadissem o perímetro de segurança dos quartéis, os altos mandos não ousaram dar a ordem para limpar a bagunça. Medo de não serem obedecidos? Cumplicidade oportunista para poder pressionar o novo governo? O que fica para Lula enfrentar é uma Força Armada eivada de golpismo em todos os níveis de comando. Uma espada de Dámocles sobre a cabeça de Lula.

Todos estes desafios são ainda mais ameaçadores quando se verifica que Lula chega ao governo sem um plano A ou B. Ele se elegeu prometendo uma volta ao passado, totalmente impossível nas circunstâncias atuais, mesmo se levarmos em conta o fato de que o passado não foi tão bom como apresentado na narrativa de Lula e do PT.

O “plano de governo” de Lula foi montado agora, durante a transição, com os GTs temáticos formulando propostas sem um norte mais geral, um diagnóstico de fundo dos problemas que vivemos e uma orientação estabelecendo objetivos e prioridades. As dezenas de propostas formuladas em separado terão que ser articuladas e submetidas ao “critério da verdade”, ou seja, quanto dinheiro estará disponível para cada uma delas. O risco de termos um “pega para capar” na decisão da alocação de recursos vai ser enorme. Sem uma visão de conjunto, o que deverá prevalecer é o poder de fogo de cada proponente.

Neste quadro, dificilmente vão ser as verdadeiras prioridades as contempladas com os parcos recursos. Por exemplo, com a total insegurança em relação à atitude dos militares, como Lula vai poder priorizar o que quer que seja contra as reivindicações dos militares? Como vai ser possível orientar os recursos para favorecer a produção nacional de alimentos contra as abusivas exigências do agronegócio exportador em termos de subsídios e outras vantagens econômicas? Como vai ser possível domar o setor mais predatório deste agronegócio que devasta todos os biomas, em particular a Amazônia?

Não podemos esperar muito deste governo, mas a população (e a esquerda) criou enormes expectativas em relação às políticas sociais. Se elas não tiverem o impacto desejado e esperado, a decepção vai engrossar o campo da oposição e encurralar o governo. Mas com os minguados recursos disponíveis, o governo vai ter que lidar com o chamado cobertor de pobre; quando cobre a cabeça descobre os pés. A tentação de aumentar o endividamento para financiar as ações do governo é evidente. Mesmo que Lula consiga outras autorizações para gastar, tal como fez agora na PEC recém aprovada, sem uma retomada da economia o círculo vicioso vai ser inevitável e a pressão inflacionária vai corroer os ganhos dos programas sociais, como aliás já está acontecendo mesmo antes de Lula assumir.

O que o Lula tem a seu favor neste quadro que está mais para fechar do que para abrir as portas do inferno? Ou mais para nos afundarmos no inferno do que sairmos dele?

Quando Lula ganhou as eleições em 2002 ele tinha três elementos a seu favor: (i) uma forte confiança da população, do eleitorado, que se refletiu na avaliação no final do seu governo, 80% de ótimo ou bom!; (ii) o apoio de fortes movimentos sociais em todos os setores. E, (iii) um partido respeitado que o apoiava sem restrições e que chegou a ser o maior do Congresso. Temos também de lembrar que Lula herdou uma economia bem azeitada, um Estado bem-organizado e uma conjuntura internacional fortemente favorável, pelo menos até a crise de 2008. E não tinha uma sociedade ferozmente polarizada.

Apesar de todas estas vantagens, Lula teve que conviver com um Congresso conservador e já recheado de fisiologistas, muito embora eles não dominassem as Casas, como acontece hoje. Os meios de ganhar governança foram diversas formas de “comprar” os fisiológicos e que acabaram no escândalo do mensalão. Nada de novo no funcionamento dos governos brasileiros da nova república, de Sarney a Fernando Henrique, mas o PT era o partido da “ética na política” e a decepção de uma parte importante do eleitorado foi grande.

Lula sobreviveu a isto durante o seu governo e foi até reeleito com sobras, mas Dilma Rousseff se afundou na combinação do escândalo do petrolão com a crise econômica. O PT sofreu muito neste processo e perdeu a aura de novidade política, a de um partido ético. Foi água no moinho do discurso antipolítica da direita e do bolsonarismo.

Mas o pior impacto do período foi a impressionante desmobilização dos movimentos sociais, combinada com a burocratização dos partidos de esquerda, a começar pelo PT. O sindicalismo murchou, os movimentos associativos idem. Mesmo o muito independente MST perdeu espaços na sua base. Parece que todo mundo, governo e movimentos, adotaram uma postura do tipo: “deixe que o governo faz”. Quando o caldo entornou em 2016 a esquerda, PT à frente, descobriu que estava sem retaguarda social organizada e combativa. No vácuo dos movimentos políticos entre os mais pobres entrou a militância evangélica, combinando vantagens sociais e espirituais (com um ou outro milagre de lambuja) e uma doutrinação conservadora feroz.

Hoje Lula tem um partido mais fraco (e uma esquerda que ficou mais ou menos igual, com o PSOL ganhando os espaços que o PCdoB perdeu). Os movimentos sociais que cresceram no período foram os identitários e, com esses, os partidos de esquerda não se criam, com exceção do PSOL, em parte. O sindicalismo estagnou, até porque a base do operariado industrial minguou, além da reforma trabalhista ter enfraquecido o poder sindical. Hoje em dia, todos os movimentos e partidos progressistas juntos apenas dão conta de empatar com a base bolsonarista, nos seus momentos mais triunfantes como as manifestações dos dias da Independência de 2021 e 2022. Não vamos confundir as imensas manifestações pró Lula na campanha eleitoral com apoio ou capacidade de mobilização da esquerda. A diferença entre Lula e a esquerda em termos de apoio não é só eleitoral. Temos que constatar que a penetração progressista nas bases populares é pequena e superficial, além de ter uma enorme dificuldade de travar o combate nas mídias sociais, tomadas pelo bolsonarismo.

Neste quadro, a opção do Lula de fazer um governo de frente democrática é um gesto de sabedoria. Entretanto, a engenharia da construção desta frente me parece precária. O passado volta a assombrar o presente como um cacoete que não consegue ser abandonado. O PT trata o governo como se ele tivesse ganho a eleição e, em consequência, tivesse o poder e o direito de definir a distribuição de cargos e a orientação das políticas. A ficha parece que não caiu e a confusão entre a vitória do Lula e a “vitória” do PT é enorme. Lula é muito maior do que o PT, sempre foi, mas agora é preciso lembrar que o PT teve pouco mais de 20% dos votos do Lula, a esquerda e o centro esquerda somados fizeram pouco menos de 20%, e os outros 60% dos votos que elegeram o Lula, vieram do lulismo sem partidos e do antibolsonarismo democrata, que mostrou sua penetração nos manifestos do 2 de agosto. Destes últimos, um número reduzido, pouco mais de 2 milhões de votos, vieram do apoio de Tebet no segundo turno. Mais ou menos 1,7% do eleitorado, ou seja, quase a totalidade da diferença que Lula garantiu sobre Bolsonaro no segundo turno.

O tratamento dado pelo PT a Simone Tebet é significativo da falta de compreensão da natureza da vitória (que deveria se refletir na natureza do governo). Simone Tebet queria o ministério do desenvolvimento social, por óbvias razões políticas e eleitorais legítimas. Ninguém duvidou que ela tivesse capacidade de tocar os programas sociais deste ministério de forma correta. Talvez temessem que ela tocasse bem demais e se cacifasse para as eleições de 2026. Isto foi o suficiente para uma operação de desconstrução do personagem. O cálculo do PT não é o sucesso deste governo, mas quem vai tomar o lugar de Lula e contra qual possível candidato ele (PT) vai ter que terçar armas nas próximas eleições.

A questão que importa hoje é se este governo vai chegar até o fim e em que situação vai estar em 2026. E não tenho dúvidas de que vai ser necessário juntar todos os democratas, até a direita não bolsonarista, para conseguir segurar o rojão daqui até a próxima eleição. E a composição do governo não garante isso. Para começar, com o predomínio do fisiologismo entre os congressistas e a falta de identidade política e programática dos partidos, nomear ministros e outros cargos não garante que deputados e senadores desta base ampliada tenham qualquer fidelidade ao governo e aos seus próprios participantes no governo.

Cada voto na Câmara e no Senado vai ser negociado e “comprado” com alguma benesse específica. Uma emenda parlamentar aqui, outra ali. Podemos esperar uma versão mais palatável do orçamento secreto, com o governo compartilhando o poder de liberação com os capos do Senado e da Câmara. Vai ser inevitável para evitar pautas bomba como a Dilma teve que enfrentar. Mas isso torna o executivo refém dos gastos extra da governabilidade e diminui o recurso para a execução de um orçamento racional. Sinuca de bico.

A esquerda está eufórica com a vitória do Lula e parece que esqueceu quão perto estivemos do desastre neste ano e desconsidera os riscos enormes que ficaram para os próximos quatro anos. As cobranças à Lula pelas nomeações que fez já levaram à ruptura precoce do União Brasil. A esquerda também está apelando para Lula cercar os representantes da direita em seus ministérios com uma tropa de “comissários do povo”. Se for levado à prática não vai demorar para que estes partidos da direita decidam que é melhor partir para o enfrentamento. Outra sinuca de bico.

Com quem Lula pode contar para defendê-lo? Nestes anos de resistência, criaram-se inúmeros movimentos da sociedade civil que não podem se desmobilizar ou simplesmente aderir ao governo. Nos anos “paradisíacos” entre 2003 e 2016, os movimentos sociais se envolveram nos inúmeros conselhos criados para abrir o governo para a sociedade, mas a sociedade deixou de se mobilizar, com seus líderes imersos nas intermináveis discussões em conselhos e conferências temáticas, onde disputavam-se palavras em relatórios que eram rapidamente esquecidos.

Não podemos repetir esta experiência. Acho que devem ser reabertos os canais de comunicação entre o Estado e a sociedade, mas a mobilização social vai ser o instrumento real da política e não o debate intramuros. É preciso lembrar que as cobranças maiores não podem ser dirigidas para o governo, sabendo-se das limitações que tem. O alvo deve ser o Congresso, pois ele sai empoderado deste horrendo episódio bolsonarista e muito pouco disposto a apoiar propostas realmente transformadoras. A esquerda vai ter que se reciclar e voltar a suas origens históricas. Ela terá que ser menos aparelhista e mais educadora e mobilizadora. E vai ter que chegar nas bases e disputar com a ideologia direitista que ganhou tanto espaço no vácuo de militância destas últimas décadas.

Escrevo antes da posse de Lula e lamentando que os partidos que elegeram o nosso presidente não tenham adotado uma proposta de mobilização nacional para o dia da posse. Vai ser apoteótico em Brasília, mas e o resto do país? Imaginem as milhões de pessoas que poderiam se reunir em cada praça para ver a posse em telões. Estes milhões vão ficar assistindo a Globo ou outro canal qualquer em suas casas, no máximo reunindo amigos e parentes. Isolados uns dos outros, sem agir politicamente para mostrar para os golpistas e para a direita que o povo está disposto a lutar pelo seu presidente e pelo seu governo.

Espero que não tenhamos uma tragédia no ato da posse. Não creio que o golpismo seja capaz de produzir o sonho dos alucinados e impedir que “Lula suba a rampa do palácio do Planalto”. Mas o terrorismo golpista pode arruinar a beleza do ato popular em Brasília e mostrar as garras, animando o seu time para o enfrentamento dos próximos quatro anos.

Como já disse antes, as portas do inferno podem se abrir ou se fechar e muito depende da habilidade do Lula, mas mais ainda depende de não perdermos a perspectiva de que o poder político se conquista com as massas em movimento e não em contemplação e torcida para o governo dar certo.

*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-71). Fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA)

 

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