Uma pesquisa meia-boca

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Grande parte da imprensa procura calar e tornar invisível a oposição de esquerda. Impede-se assim a sociedade brasileira de ter acesso a outras posições políticas a não ser as duas dominantes

Por Simão Pedro*

Num primeiro momento, fiquei, como muitos, intrigado com a pesquisa meia boca do DataFolha – com entrevistas feitas por telefone, nos dias 1o a 3 de abril – publicada em diversos órgãos da imprensa. Não só em relação ao resultado dela que poderia sugerir um banho de água fria naqueles setores que trabalham na oposição ao governo neofacista de Bolsonaro, mas também em relação ao seu método contrário aos próprios métodos de pesquisa tradicionais que utiliza.

O que teria levado o DataFolha a realizá-la? O resultado principal reforça todo o negacionismo do genocida que ocupa a presidência justamente nos dias de atos contra as medidas de contenção aos vírus, e colaborando para jogar lenha contra o isolamento definido por governadores e prefeito. Quem bancou a pesquisa foi o banqueiro dono do jornal, Luis Frias, dono de uma instituição financeira de pagamento online, que dá mais lucro que o jornal?

Na pesquisa, o ministro Paulo Guedes, representante do deus Mercado, também se sai muito bem. Não será surpresa, se o Doido, com o respaldo da pesquisa que mostra que 59% da população não quer seu afastamento, contra 37% que assim deseja, der uma “canetada” como prometeu, para abrir comércio e serviços e liberar a volta às aulas imediatamente.

Mas a pesquisa, com toda a sua precariedade, acaba mostrando as contradições no bloco de poder que sustenta e disputa as decisões e os rumos do governo. Apesar de mostrar certo derretimento da aprovação de Bolsonaro, a pesquisa acaba fortalecendo os que continuam defendendo a sua permanência porque é ele que tem popularidade para manter em funcionamento esse esquema extremista que vigora sob s tutela dos militares.

O desenho do governo militarizado já vem antes do vírus. Vem com o vice, Mourão. Ele e colegas são generais chegados a questões fisiológicas, com disputa de cargos e de ministérios dentro do governo e de tendência de extrema-direita e entreguista. Esse Heleno é um típico militar linha dura extremista. Tanto que Paulo Guedes age criminosamente contra os direitos e os trabalhadores, vai vendendo estatais, torrando as reservas, governando para os banqueiros em primeiro lugar e nenhum deles faz a mínima objeção. Eles precisam do Bozo.

Pra mim é estratégia militar e de Steve Bannon as ações cotidianas que o fascista faz para manter o seu núcleo duro de apoio, formado pelos evangélicos fundamentalistas, hoje predominante entre os pobres, e extremistas brancos, de classe média e os ricos, como vistos nas carreatas e atos, que visam manter essa base neofascista no apoio ao governo. Atacar os “inimigos” do “mito”, como o Congresso, o STF e a China, falar mal da Oposição que cumpre seu papel de fiscalizar e denunciar os erros e más intenções do governo e que chamam de “comunistas” e atacar a imprensa e os jornalistas cotidianamente são itens que compõe o caldo autoritário almejado pelo presidente e para alimentar sua base de 20 a 30% do eleitorado. Essa base fascista existe e está estruturada com recursos, estratégia de redes sociais e de comunicação, com auxilio de logística de inteligência militar e tem se consolidado fortemente, como apontamos ao longo de 2019.

Mas também é importante entender o papel que joga boa parte da imprensa, calando e invisibilizando a oposição de esquerda, além de elencar outros presidenciáveis de plantão, como agora faz com Mandetta, contribuindo muito para manutenção desse núcleo duro do neofascismo. Tudo para ir garantindo Paulo Guedes, player dos banqueiros, que têm sócios ou credores em muitas redações. A sociedade brasileira, pela grande imprensa, está sem o direito de ter acesso a outras posições políticas a não ser as duas dominantes. Assim, a pesquisa da Folha desnuda essa contradição presente no seio do bloco de poder que sustenta o governo neofacista, uma reforçando a outra.

Nesse cenário, a esquerda terá um longo e penoso caminho. Vejam a nova tentativa de extinguir o PT em ação dos procuradores partidarizados da famigerada Lava Jato. Com certeza a mando de Moro e como resposta imediata à Carta dos líderes da Oposição pedindo a renuncia do facista, protocolada nessa mesma semana.

Os líderes dos partidos de oposição, dos movimentos sociais e das entidades democráticas precisam fortalecer e intensificar sua estratégica de comunicação, essencialmente através das redes sociais, manter a serenidade e a firmeza na denúncia das insuficiências das ações do governo federal para enfrentar a crise do coronavírus, das malandragens de Guedes e Maia para manter a agenda de reformas ultraneoliberais, propor o caminho de fortalecimento do papel do Estado na gestão da economia e apresentando e batalhando para aprovar políticas públicas que protejam o emprego e a renda da população trabalhadora e mais pobre, para que esta não pague a conta sozinha, além de estimulando as melhores práticas de solidariedade na nossa sociedade.

Conforme a pandemia evoluir, o quadro pode estourar a bolha neofascista e ajudar num plano de enfraquecimento e afastamento do presidente, mas também pode aprofundar o caos social e sanitário, criando justificativa para se adiar as eleições municipais de 2020 e implantar um regime mais endurecido, sonho de Bolsonaro e de sua facção. Em qualquer dessas situações, as Esquerdas precisam estar unidas, firmes e serenas para impor a derrota política ao bolsonarismo e ganhar pontos para voltar ao governo ou para continuar seu importante e fundamental papel de resistência ativa em defesa do Estado Democrático de Direito, da Democracia e da Justiça Social.

*Simão Pedro foi deputado estadual (2003-2015) e secretário municipal de serviços na gestão Haddad.