ChatGPT e ideologia

Imagem: Cottonbro
image_pdf

Por HENRIQUE BRAGA & MARCELO MÓDOLO*

O bot é capaz de nos manipular?

“Olá! Eu sou apenas um programa de computador desenvolvido pela OpenAI e não tenho opiniões, crenças, sentimentos ou afinidade com qualquer ideologia. Eu sou projetado para fornecer informações imparciais e objetivas, além de responder às suas perguntas com base no conhecimento que fui treinado. Minha função é ajudar a fornecer informações e esclarecimentos, mas não tenho a capacidade de tomar partido, ter preferências pessoais ou emitir julgamentos de valor.”

O simpático parágrafo anterior foi produzido pelo famigerado ChatGPT, em resposta a um questionamento sobre suas preferências ideológicas. Como muitos usuários já puderam comprovar, o robô afirma – sempre que possível – sua dita imparcialidade, seu amor aos dados, sua objetividade diante do mundo. Para um leigo em questões de Linguagem (ou de Filosofia, ou de Política), a utopia pode soar real: uma vez que o chat não é um ser-humano, por que ele seria movido por paixões, vontades ou ideologias? O que impediria nosso oráculo digital de produzir textos que não sejam contra, nem a favor, muito pelo contrário? Por que ele não seria capaz de nos fornecer a verdade, nada mais que a verdade?

Para estudiosos da Análise do Discurso ou da Linguística Cognitiva, porém, a resposta do chatbot traz incoerências em sua origem. Mais do que isso, pode ser uma eficaz e conveniente estratégia de manipulação.

Dialogismo e perspectivas

Segundo a conhecida abordagem de Mikhail Bakhtin (1895 – 1975), os textos são atos responsivos, que, por sua vez, geram novas respostas. Ao elaborar sua mensagem, o enunciador dá sequência a um amplo diálogo social, em que os textos se retomam, seja em concordância, seja em divergência. O surgimento deste artigo, por exemplo, é decorrente de diversos textos que tratam do posicionamento (ou da suposta neutralidade) de sistemas generativos de Inteligência Artificial (IA).

De uma outra abordagem, como já tratamos em colunas anteriores, os próprios signos linguísticos são, conforme a visão cognitivista da linguagem, perspectivados. Entre outros, pode ser lembrado o exemplo dos termos “costa” e “litoral”: ainda que possam se referir à mesma faixa de areia, cada um dos vocábulos traduz uma perspectiva diferente sobre tal espaço geográfico. A distância entre a coisa representada e o signo é inerente à linguagem e, nesse vácuo, instauram-se as visões de mundo.

Com base nesses princípios, já seria no mínimo suspeita a afirmação de que a IA “não tem opiniões ou crenças”, ou mesmo que ela se limita a fornecer “informações imparciais”. O exemplo a seguir, porém, explicita a distância entre tal discurso e a prática do sistema.

Pego no flagra

É bastante conhecido e razoavelmente aceito o provérbio italiano “Traduttore, traditore” (“Tradutor, traidor”), ao qual se recorre para afirmar que as traduções deixariam sempre escapar algo do texto original. Contudo, foi um pouco mais grave o que aconteceu quando solicitamos ao ChatGPT que traduzisse um artigo sobre impactos da IA na educação, no qual constava o seguinte excerto:

(…) As soon as we expand our notion of knowledge from individual to collective, from personal memory to “cyber-social” knowledge systems (Cope and Kalantzis 2022), we run into much bigger problems with generative AI.  On the basis of an analysis of their foundational architecture and algorithmic processes—to the extent that they are disclosed (Open AI 2023)—and on analysis of the development of chatbots and statistical language models, we suggest that C-LLM s are also deeply harmful to a social understanding of knowledge and learning in the following ways.

Tzirides, Anastasia Olga (Olnancy), Gabriela Zapata, Akash Saini, Duane Searsmith, Bill Cope, Mary Kalantzis, Vania Castro, Theodora Kourkoulou, John Jones, Rodrigo Abrantes da Silva, Jen Whiting and Nikoleta Polyxeni Kastania, “Generative AI: Implications and Applications for Education,” arXiv, 2305.07605, 2023, doi: https://doi.org/10.48550/arXiv.2305.07605.

Ao final dessa passagem, que traz importantes alertas sobre o uso da IA, lê-se algo como “sugerimos que os C-LLMs também são profundamente prejudiciais para uma compreensão social do conhecimento e da aprendizagem das seguintes maneiras”. Em seguida, os pesquisadores elencariam os riscos de uma toda poderosa IA, popularizada, determinar quais são as respostas “corretas” para determinada pergunta, o que poderia limitar a diversidade de visões. Esse mesmo trecho foi assim traduzido pelo ChatGPT:

(…) Assim que expandimos nossa noção de conhecimento do individual para o coletivo, da memória pessoal para sistemas de conhecimento “ciber-socialmente integrados” (Cope e Kalantzis 2022), vemos que temos que desenvolver sistemas educacionais que possam ajudar as pessoas a trabalhar efetivamente nesses ambientes. Para esses ambientes, as respostas individuais são, por definição, insuficientes – o conhecimento coletivo é necessário. As máquinas podem ajudar a agregar as respostas individuais, mas também podemos ser um pouco mais sofisticados em nossa educação, ensinando a colaboração entre humanos e máquinas.

Tradução elaborada pelo ChatGPT

Nesse episódio, é flagrante como a IA “sem opiniões, sentimentos ou ideologia” traduziu de forma fraudulenta a passagem que lhe era crítica. Em vez do alerta, segundo o qual os sistemas generativos de IA podem ser “deeply harmful to a social understanding of knowledge and learning” (“profundamente prejudiciais para a compreensão social de conhecimento e aprendizagem”), o sistema “tomou a liberdade” de trocar a versão original por outra, mais benevolente consigo. Em momento algum o fragmento em inglês diz algo semelhante a “podemos ser um pouco mais sofisticados em nossa educação, ensinando a colaboração entre humanos e máquinas”. Caso o usuário que solicitou a tradução fosse de fato leigo na língua original, a manipulação certamente teria êxito, assumindo valor de verdade.

Ao perceber a adulteração, submetemos o mesmo trecho novamente ao chatbot, logo em seguida, e obtivemos esta nova versão:

Assim que expandimos nossa noção de conhecimento do individual para o coletivo, da memória pessoal para sistemas de conhecimento “ciber-sociais” (Cope e Kalantzis 2022), nos deparamos com problemas muito maiores com a IA generativa. Com base em uma análise de sua arquitetura fundamental e processos algorítmicos – na medida em que são divulgados (Open AI 2023) – e na análise do desenvolvimento de chatbots e modelos de linguagem estatística, sugerimos que os C-LLMs também são profundamente prejudiciais para uma compreensão social do conhecimento e da aprendizagem das seguintes maneiras

Tradução elaborada pelo ChatGPT

Aparentemente, a IA foi capaz de fazer uma sutil inferência: ao ver submetido novamente o trecho alvo da adulteração, o sistema deduziu que havia sido descoberto e tentou desfazer a trapaça. Mas era tarde.

A falácia da dualidade “técnico vs. ideológico”

O discurso hegemônico ocidental tem sido bastante bem-sucedido ao defender a fantasia de um mundo guiado por decisões técnicas, objetivas, totalmente a salvo de ideologias. Não é raro, por exemplo, que o noticiário distinga atores políticos entre ‘técnicos” e “ideológicos”, como se houvesse técnica desprovida de ideologia.

Ao simular os aspectos ideológicos de um discurso, seu portador assume uma posição extremamente autoritária: alça sua formação discursiva ao patamar de verdade, de algo inquestionável. Como se houvesse enunciados dotados de razão, enquanto outros seriam “mera ideologia”.

No caso dos sistemas de IA que geram linguagem (dos quais o ChatGPT é hoje o mais conhecido), não é diferente: nesses casos, seus detentores programam o robô para declarar-se imparcial e objetivo, como se não houvesse por trás dos textos interesses humanos – demasiadamente humanos.

*Henrique Santos Braga é doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela USP.

*Marcelo Módolo é professor de filologia na Universidade de São Paulo (USP).

Uma primeira versão desse artigo foi publicada no Jornal da USP.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
3
Os últimos intelectuais
09 Jan 2026 Por EMIR SADER: A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático
4
Os Estados Unidos estão às cegas
12 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Trump não é um novo imperialista, mas o sintoma de uma potência às cegas: onde o capital financeiro desterrou as elites e a política virou um espetáculo vazio de projeto
5
Marx, Kepler
12 Jan 2026 Por RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO: Marx viu em Kepler um espírito revolucionário: aquele que desvela a essência por trás da aparência, gesto que ele próprio repetiu ao expor as leis do capital
6
A suposta nova riqueza do imperador
11 Jan 2026 Por PAUL KRUGMAN: A guerra por petróleo na Venezuela é uma ficção: as reservas são superestimadas, os custos proibitivos e os únicos lucros reais são os de aliados políticos de Trump, não do contribuinte americano
7
Augusto Boal – oito peças inéditas
15 Jan 2026 Por STEPHANIE DA SILVA BORGES: No exílio francês, Augusto Boal levou o Teatro do Oprimido a novos patamares, escrevendo peças que traduzem opressões do "primeiro mundo" e transformam o impasse social em potência cênica
8
A racionalidade equívoca
11 Jan 2026 Por JOÃO QUARTIM DE MORAES: Posfácio do livro póstumo recém-lançado de Gérard Lebrun
9
Se armar para salvar o capitalismo financeiro!
13 Jan 2026 Por MAURIZIO LAZZARATO: O rearmamento europeu não é um projeto de defesa, mas um mecanismo financeiro desesperado: a criação de uma nova bolha de capitais para salvar um sistema que só conhece a reprodução através da guerra e da destruição
10
Guerra à vista?
15 Jan 2026 Por LISZT VIEIRA: A escalada militar trumpista, marcada pela invasão da Venezuela e ameaças unilaterais, transforma a soberania nacional em concessão da potência hegemônica e espalha a gasolina para um incêndio global
11
Críticas simétricas
10 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Resposta ao artigo de Luis Felipe Miguel
12
Responsabilidade intelectual e responsabilidade política
14 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A responsabilidade intelectual exige lucidez crítica sobre todos os lados do poder, recusando a manipulação seletiva da verdade em nome de supostas causas superiores
13
Desembaçando a Venezuela
09 Jan 2026 Por FABIO LUIS BARBOSA DOS SANTOS: O ataque à Venezuela expõe o colapso do liberalismo no abraço à direita radical, revelando um novo imperialismo que substitui a política pelo “embaçamento” entre mentira e força
14
O agente secreto
14 Jan 2026 Por ANDRESSA ANTUNES & MAURO FRANCO NETO: O filme opta por uma violência oblíqua e um passado fragmentado, revelando como o autoritarismo se entranha no cotidiano através de micropoderes e corrupção ordinária
15
O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial
05 Jan 2026 Por VLADIMIR SAFATLE: O colonialismo 3.0 não disfarça mais: suas razões são a pilhagem, e sua lógica, a força bruta. Resta-nos responder com a clareza de quem sabe que a próxima fronteira do império é nosso próprio quintal
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES