Colômbia – traumas e tabus

Imagem: Jeff Titterington
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Por JOSÉ BENTO CAMASSA*

O ressurgimento de traumas históricos e o peso de massacres mal resolvidos colocam à prova a democracia colombiana, em um cenário onde a memória política é tão conflagrada quanto o próprio território

1.

A Colômbia esteve em evidência no noticiário de 2025. Em fim de mandato, o presidente Gustavo Petro neste ano promoveu uma reformulação quase completa de seu gabinete ministerial; persuadiu o Congresso a aprovar uma reforma trabalhista após ameaçar realizar uma consulta popular em nome da proposta; e, mais recentemente, vem encabeçando a controversa pauta de convocação de uma Assembleia Constituinte.

No plano internacional, o mandatário tem sido um mais incisivos líderes latino-americano a criticar o autoritarismo do governo de Donald J. Trump. Recebeu, em troca, sanções estadunidenses.

Entretanto, a notícia que mais abalou a Colômbia neste ano foi a do homicídio do senador e pré-candidato presidencial Miguel Uribe Turbay. O atentado que sofreu em junho e seu longo suplício hospitalar até a morte, em agosto, geraram enorme comoção, especialmente de setores mais à direita, dos quais Uribe Turbay era representante. O assombro não se deu apenas pela gravidade do crime.

A árvore genealógica do político reforçou as tintas trágicas da situação. Ele era neto do presidente colombiano Julio César Turbay Ayala (1978-1982), da época da explosão do conflito armado interno, e filho de Diana Turbay, jornalista sequestrada pela organização narcotraficante de Pablo Escobar e morta durante uma tentativa de resgate em 1991.

O falecimento de Uribe Turbay, portanto, aflorou traumas enraizados na política colombiana. Entre fins da década de 1980 e meados dos anos 1990, foram ceifadas as vidas de lideranças como Luis Carlos Galán Sarmiento e Héctor Abad Gómez, do Partido Liberal, e Álvaro Gómez Hurtado, conservador do Movimiento de Salvación Nacional, bem como os esquerdistas Jaime Pardo Leal, Bernardo Jaramillo Ossa, Carlos Pizarro Leongómez e Manuel Cepeda Vargas.

Essa onda de magnicídios foi produto de um confronto multifacetado e atroz, que envolveu guerrilhas, forças militares e policiais, grupos paramilitares de direita e cartéis do narcotráfico. Daqueles tempos, muitas chagas ficaram abertas.

2.

Uma das maiores dessas feridas chegou a quatro décadas neste fim de ano: o massacre do Palacio de Justicia. Em 6 de novembro de 1985, a guerrilha nacionalista e de esquerda M-19 (Movimiento 19 de Abril) tomou a Corte Suprema de Justicia, no coração de Bogotá, perto das sedes do Legislativo e do Executivo nacionais. Causando terror, o grupo fez como reféns juízes, funcionários, advogados e outros civis que transitavam pelo tribunal.

Os guerrilheiros do M-19 tentaram uma pactuação pela vida dos sequestrados com o chefe de Estado colombiano, Belisario Betancur (1982-1986), que não quis negociar, a despeito das súplicas feitas em ligação telefônica por Alfonso Reyes Echandía, presidente da Suprema Corte do país.

O Exército, com tanques (de fabricação brasileira) na rua, iniciou a desocupação do palácio. Nesse processo, que terminou em 7 de novembro, foram assassinados guerrilheiros, soldados, policiais, seguranças e civis, como os juízes do tribunal. Naqueles dois dias, o edifício da corte teve três ocorrências de incêndio, uma das quais ocorreu por negligência da operação militar.

Em meio às labaredas, o chocante evento ficou conhecido como holocausto del Palacio de Justicia. Além de se referir à Shoá, o genocídio judeu perpetrado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, o termo holocausto alude, em grego clássico, ao sacrifício pela completa queima no fogo.

Muita fumaça ainda encobre os acontecimentos naquele palácio em ruínas. A começar pela quantidade de óbitos dentro do prédio. O Instituto Médico-Legal colombiano apontou 94 cadáveres, número que tende a ser maior, segundo a Comissão da Verdade sobre o caso do Palacio de Justicia, considerando a dificuldade de identificação de restos mortais calcinados nas chamas. Ainda mais nebulosos são os eventos ocorridos após a conclusão da retomada militar do tribunal.

Entre os sobreviventes, 12 pessoas (a maioria, empregadas da cafeteria) saíram do palácio e, em seguida, sob custódia dos militares, foram vítimas de desaparecimento forçado. Sob o pretexto de serem alegadas colaboradoras do M-19, foram levadas, em cárcere privado, a paradeiro desconhecido (provavelmente a Escola de Cavalaria), interrogadas, torturadas, assassinadas e tiveram seus cadáveres ocultados.

Também contribuiu para esse desfecho o provável objetivo de eliminação de vítimas e testemunhas que pudessem depor sobre os ilícitos cometidos pelos fardados (“queima de arquivo”). De acordo com a Comissão da Verdade, a detenção ilegal acompanhada de tortura também aconteceu com outras vítimas sobreviventes, que só foram liberadas pelos militares após autoridades que as conheciam intercederem.

Desde que as chamas se apagaram, o debate sobre as responsabilidades pela tragédia do Palacio de Justicia é um elemento importante da política colombiana. Alguns militares foram denunciados e julgados pelos desaparecimentos forçados, ações típicas de um terror de Estado antiesquerdista presente na Colômbia, mesmo que o país não fosse propriamente uma ditadura. O general Arias Cabrales foi condenado definitivamente em 2019, ao passo que o coronel Plazas Vega foi declarado culpado em instâncias inferiores, mas acabou absolvido em um recurso analisado pela Corte Suprema de Justicia em 2015.

Os processos em face de ambos causaram revolta na direita comandada pelo ex-presidente Álvaro Uribe Vélez (2002-2010), sendo até compartilhada, na época, por articulistas brasileiros desse campo ideológico, como Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho. Com espaço na grande mídia colombiana, Plazas Vega segue defendendo todas as ações praticadas pelo Exército sob a justificativa de “defesa da democracia” e transferindo ao M-19 a culpa integral pelos fatos.

3.

Por sua vez, em razão das gravíssimas responsabilidades da guerrilha, o Palacio de Justicia também é um tema delicado na memória da esquerda colombiana. O M-19 cometeu muitas violações do Direito Internacional Humanitário ao invadir a corte, sequestrar civis, fazê-los de escudos humanos e assassinar parte deles.

Mediante um acordo de paz com o Estado (1990), o grupo recebeu um indulto, pôde criar um partido – que foi decisivo na Assembleia Constituinte de 1991 – e alçou ex-combatentes ao proscênio da política. Entre eles, Gustavo Petro, que, então preso, não participou do ataque ao tribunal em 1985 e supostamente não teria conhecido seu plano.

Apesar de ter pedido perdão em algumas oportunidades pela tomada, junto de outros ex-colegas de armas, o atual presidente relativiza a culpa do M-19 por algumas das mortes no episódio, como a do juiz Manuel Gaona Cruz. Em conversas reservadas com magistrados da atual Suprema Corte, o governante teria pretensamente chamado os atos da guerrilha de “insurreição” ou “genialidade”, dando conotação heroica à ação armada desastrosa.

Esse posicionamento deve ter contribuído, nos bastidores, para que Gustavo Petro (autor de várias gafes machistas) não fosse convidado para a cerimônia do Judiciário colombiano em memória dos 40 anos da tragédia – na data, o chefe de Estado participou da cúpula de líderes da COP 30, na capital paraense.

Outro ponto de controvérsia está nos motivos por trás do assalto do M-19 ao palácio. Em seu discurso oficial, a guerrilha disse que pretendia fazer com que os magistrados julgassem o presidente Belisario Betancur por ter descumprido uma trégua estabelecida com o grupo. O objetivo, com isso, teria sido reiniciar o processo de paz e não propriamente atacar os juízes, chamados pelos insurgentes de “reserva moral da República”.

Porém, uma versão alternativa sustenta que os guerrilheiros teriam sido financiados por Pablo Escobar para (i) destruir os autos de processos em face de sua organização criminosa; e (ii) coagir a corte a declarar inconstitucional um tratado de extradição de traficantes colombianos para os Estados Unidos. A hipótese ganhou as telas com a série Narcos, da Netflix.

Gustavo Petro e outros nomes da esquerda contestam essa interpretação sobre o propósito da invasão do tribunal. Trata-se de questão sensível para a imagem do M-19. Como o paramilitarismo para a direita, a relação das antigas guerrilhas com a produção de entorpecentes ilícitos é um tabu entre políticos progressistas colombianos que participaram desses grupos revolucionários ou são parentes de seus ex-integrantes.

Muito antes de Donald Trump, segmentos da direita já associavam o atual mandatário colombiano ao narcotráfico – se bem que suspeitas semelhantes recaiam sobre atores de todo o espectro político do país e que Gustavo Petro tenha mantido, em seu governo, a repressão aos produtores de narcóticos.

4.

Em resposta, na sua autobiografia, o presidente acusa o Exército não apenas de haver sido deliberadamente omisso, permitindo a tomada do palácio pelo M-19, como também de tê-lo feito em aliança com Escobar. Teria sido uma emboscada para prejudicar a guerrilha. De modo análogo, Gustavo Petro imputa às Forças Armadas a desídia com a vida dos magistrados e com o acervo judicial da corte na reocupação do palácio como forma de vingança pelos processos que investigavam militares por tortura.

Malgrado ainda estejam no campo da especulação, fato é que as ilações de Gustavo Petro partem de um dado incontornável: houve uma tremenda falha de segurança que possibilitou o início da ação do M-19. Mesmo que a imprensa já noticiasse havia meses o risco de uma ofensiva armada à Corte Suprema de Justicia, o reforço policial no edifício foi estranhamente desmobilizado um dia antes do atentado.

A Comissão da Verdade do caso do Palacio de Justicia se alinhou à hipótese de que tal retirada tenha sido deliberada para atrair e executar componentes do M-19. Ignorou-se o custo humano incomensurável dessa tática ilegal. O governo, na figura do presidente Betancur, também fracassou ao recusar o diálogo, impedindo a sobrevivência de dezenas de reféns, o que fora possível no sequestro cometido pelo M-19 na embaixada dominicana em 1980. Betancur tampouco exerceu controle efetivo sobre a ação dos militares ou impediu a letalidade extrajudicial por eles perpetrada.

Obra de mil incendiários, a hecatombe do Palacio de Justicia é um símbolo do complexo, persistente e gigantesco conflito armado colombiano. Conflito que, embora mitigado, ainda está longe de um fim. Somente em 2025, centenas de milhares pessoas foram afetadas pelo confronto, seja por deslocamentos ou confinamentos forçados, homicídios ou desaparecimentos. Ano de eleições presidenciais e do décimo aniversário dos acordos com as FARC, 2026 colocará a Colômbia à prova, com candidatos que rejeitam terminantemente a busca pela paz, como o advogado Abelardo de la Espriella, em ascensão nas fileiras da direita radical. Para evocar García Márquez, o tempo dirá se, como na Bogotá de 1985, estamos em meio a mais uma “crônica de uma morte anunciada”.

*José Bento Camassa é doutorando em História Social na USP.

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