Internacionalismo democrático

Imagem: Sedanur Kunuk
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Por TARSO GENRO*

Na Europa, na conjuntura global atual, o mais importante é bloquear o avanço da extrema direita

No livro Rua de mão única Walter Benjamim (1892-1940) busca nos “cacos da História”, objetos, locais, leituras de romances, alegorias, novas linguagens narrativas para novas “experiencias” de compreensão do mundo. O sentido da sua busca, contudo, não está presente em cada objeto concreto – em separado – mas nas suas conexões com a sociedade que os consome e os estiliza, numa sociedade que ele quer entender e mudar, por fora dos cânones tradicionais da filosofia acadêmica.

Escrevi, em 10 de março de 2021 no jornal Le Monde Diplomatique Brasil, que a campanha unitária da mídia (global) e a rápida internalização em nossos países latino-americanos da crise mundial: “favoreceram a formação de uma ampla coalização de forças para unir o que tem de pior na política nacional, os defensores de um anticomunismo fantasma, com grupos dotados de um reacionarismo medieval nos costumes, que ensejou aflorar um ódio escravista contra o suposto excesso dos direitos dos trabalhadores”. Hoje, acrescento: que alimentou o espírito golpista presente em 8 de janeiro.

O Jornal Extra Classe edição de set-out de 2023, mostra na reportagem “O mundo de olho no lítio boliviano”, a decadência política e econômica da Argentina e o reerguimento político e econômico no Brasil. Conjugados com a atual desordem na geopolítica mundial abrem vários canais de comunicação do Brasil com a instabilidade política e militar do mundo. Esta é estimulada pela beligerância da OTAN, abrigada no tripé EUA decadente (que ameaça ter Trump de novo como Presidente), Reino Unido em crise (que aposta no trabalhismo social-liberal como sucessor da incompetência conservadora), se respalda na Alemanha, onde floresce novamente o nazismo e na confusa França, sem liderança que a unifique.

O BRICS, como mostra Flávio Aguiar no seu artigo O G7, os Brics – a guerra e a paz (julho 2024) é de outra parte o contraponto do multilateralismo. “Vetor de equilíbrio, paz segurança e cooperação entre as nações no exercício da sua soberania”, refere o autor, no tabuleiro de um mundo pautado pelas guerras de conquista, pela indústria armamentista, pelas conquistas de espaços vitais, como repetia Adolf Hitler ao seu tempo.

Estes fatos históricos macro, entrelaçados tecem um conceito sobre o mundo atual e teimam em mostrar que as estratégias da esquerda para a recuperação das utopias passam pela luta sem tréguas pela paz. Isso porque as políticas de guerra unificam centro, direita e extrema direita; passam também pelo reforçamento dos mecanismos participativos na democracia liberal, porque esta é quase uma casca vazia de direitos efetivos. Passam ainda pelas políticas de combate ao desemprego, à fome, à deserção social, como etapas incontornáveis para a recuperação do prestígio da esquerda, pois a miséria e o abandono alimentam, no seio da própria classe operária e dos trabalhadores em geral, o vírus da violência e do fascismo.

Cada objeto buscado ou ofuscado pelo espírito, não é só um ser abstrato para verificação, mas é um fato naquele sentido que está no romance policial sobre a transição política na Espanha, Assassinato no Comitê Central, de Vázquez Montalban. É uma complexa interrelação sobre a qual um investigador diz: “Aranda, não seja irracional. Estou tentado a pensar a mesma coisa que você. Mas os fatos são fatos. Os fatos são mais cabeçudos que as ideias”.

Um martelo solitário numa construção abandonada é um objeto descartado, este é um fato sem historicidade, mas um martelo nas mãos de um psicopata pode ser um fato preparatório para um assassinato. Assim como os votos exercidos, ou não exercidos, numa eleição em situações diversas podem ser fatos com distintas consequências na vida de milhões. Ou ainda, como uma entrevista que diz algo para muitos, assim como um poema que é lido e chega ao seu destino.

Em algum lugar no remoto ano de 1972, é republicado um texto crítico da história da Cultura, do escritor argentino Leopoldo Lugones (1874-1938), que escrevera sobre o Martín Fierro, o célebre poema de José Hernández. Disse Lugones, sobre aquele poema: “como todo o poema épico (ele) expressou a vida heroica da raça, sua luta pela liberdade contra as adversidades e a injustiça.” (Cuadernos de Marcha, outubro 72)

Guardemos este pequeno fragmento da crítica literária e passemos a outro registro da história, desta feita pela crítica da política, já nos tempos mais presentes (Cuadernos de Marcha, março, 88) quando Raul Sendic, já liberto do cárcere, concedeu uma entrevista a Jorge Barreiro, cuja primeira pergunta foi: “Como vivem os Tupamaros em 1988 o seu passado político? A pergunta está muito próxima da situação dramática da transição no Uruguai e a resposta só poderia ser (e foi) uma resposta épica: “temos que manter a tocha acesa (….) pois hoje somos um movimento com ganas de nos somar a uma grande corrente popular ampla, e dentro dela buscarmos ser um polo ideológico, para que a Frente (Ampla) não se dilua e tenha propostas cada vez mais audazes”.

Lugones e Sendic, em épocas distintas, respondem à esfinge alimentada pelos fatos da História – o primeiro relacionado à elite ilustrada do latifúndio, o segundo relacionado aos revolucionários saídos do cárcere – ambos sabendo que a vida real é sempre nova e sempre outra, em cada fragmento do presente com que se relacionam. Os fatos “cabeçudos”!

Estes fatos históricos fragmentados, todavia, não podem ser confundidos com a suposta realidade engendrada nas redes, pois esta, como diz Juan Luiz Monedero (jornal Público, julho de 2024), é espaço de narcisismo e ego, onde só existem brechas para as identidades e não para a discussão política. Tanto na fala de Lugones, como na de Sendic, os fatos são históricos e nos desafiam a pensar. Pelas redes passam fluxos que não formam raciocínios, mas expandem sensações que não perduram, nem se firmam como conceitos, mas se expandem como afetos, ódios e indiferenças, programadas para o espírito de rebanho e caros em todo o planeta aos movimentos da extrema direita doentia.

Uma recente avaliação lida por Serge Halimi (Rádio NL 144, Condition of France, Julho de 2024) presente no seu texto Vitória Adiada, transforma a vitória épica da esquerda contra a extrema-direita francesa em um fragmento de segunda linha desconectado do seu objeto. A vitória, diz o autor, “pode ter desafiado as previsões de uma vitória da extrema direita (…) mas não triunfou”. Para ele, a derrota imposta pela Nova Frente Popular foi obtida nas grandes cidades onde a população é desproporcionalmente burguesa e altamente escolarizada.

O fundamento da avaliação é que nos antigos redutos comunistas e de esquerda da velha Frente Popular, a Nova Frente saiu muito mal, o que não ocorreu em Paris que é “a cidade (burguesa) mais cara da França”. A luta real que se travava na França, democracia liberal no Estado social em crise x extrema direita fascista e protofascista perdeu, na análise Halimi, todo o seu significado político e o seu significado histórico.

Trata-se de uma análise formalmente correta, mas problemática, pois seu argumento central escora-se no seguinte fato: as esquerdas perderam o seu sujeito político revolucionário – os proletários – e não o recuperaram no processo eleitoral. E já que ganharam as eleições no reduto “mais caro” da França, sua a vitória se desmerece.

Sem considerar que isso mesmo – a carestia – pode ter sido o motivo econômico imediato e de base para a derrota do fascismo no país, cabem duas perguntas: derrotar eleitoralmente o fascismo com os votos dos ricos não é positivo para a esquerda reerguer-se? Os votos do velho proletariado da segunda revolução industrial, em processo de translação para a extrema direita há mais de 30 anos, ainda podem ser recuperados?

Um texto de Ken Loach, “O trabalhismo venceu, mas não é um Partido de esquerda”, postado em A Terra é Redonda) vai na mesma linha de Halimi. O artigo parece supor que “esquerda” e “direita” são condições ontológicas das formações políticas, não posições relativas perante condições concretas na luta das classes em torno dos seus interesses imediatos ou históricos. Ken Loach parte da convicção de que mesmo com a vitória trabalhista “os ricos continuarão ricos, não haverá propriedade pública, nem políticas radicais”.

O que parece ser mais importante, todavia, na conjuntura global atual fica de lado: se a vitória trabalhista ajuda a bloquear o avanço da extrema direita na Europa e se as políticas sociais do novo Governo vão diminuir um pouco – pelo menos – as desigualdades. Se são condições novas que dificultariam, num período histórico amplamente desfavorável a qualquer ideia revolucionária, o avanço do fascismo. E mais: se a vitória, mesmo adocicada pelo trabalhismo centrista reconstitui o apreço à democracia política e pode colaborar para afastar a Inglaterra das políticas de Guerra.

Desculpe-me Ken Loach, um dos grandes cineastas contemporâneos: isso é tão importante para nós, na América do Sul, em particular, como é a vitória da Frente Ampla no Uruguai, em termos universais, para todas as nossas lutas em defesa da democracia e por um projeto alternativo ao neoliberalismo galopante.

*Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios).[https://amzn.to/3ReRb6I]


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