Navalny

Patrick Caulfield, Alto-falante, 1968
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Por JOÃO LANARI BO*

Comentário sobre o filme dirigido por Daniel Roher

Navalny, o documentário que o cineasta norte-americano Daniel Roher lançou na última edição do Festival de Sundance, em janeiro de 2022, caiu como uma bomba que insiste em seus efeitos devastadores – a metáfora armamentista não é a mais adequada, à luz da guerra que se trava na Ucrânia, mas pode ser útil para potencializar a metodologia de governança em uso no Kremlin.

As revelações são estarrecedoras: Alexei Navalny, líder oposicionista russo, armado de um forte discurso populista alavancado pelo Youtube, foi vítima de uma tentativa explícita de envenenamento, no estilo que se fazia na corte de Ivã, o Terrível, nos anos gloriosos da unificação czarista, reproduzidos no século XX de vigência comunista.

A FSB, herdeira da KGB e outras alcunhas, teria sido capaz de perpretar uma tentativa de assassinato na base do Novichoc, agentes químicos que a União Soviética (e na sequência a Rússia) desenvolveu entre 1971 e 1993, considerados altamente letais. Em agosto de 2020, Alexei Navalny viajava de avião, no interior da Rússia, quando alguém que o seguia conseguiu espalhar o veneno em suas roupas: a vítima começou a gritar no fundo da aeronave, houve um detour emergencial em um aeroporto fora da rota e o ativista se salvou.

Passados alguns dias, foi para Alemanha, com o beneplácito da então primeira-ministra Angela Merkel – e é nesse lapso de tempo, nas semanas de recuperação, que foi feita a maior parte das entrevistas do filme, com familiares, assistentes, o próprio Alexei Navalny e … um personagem que provavelmente fez Vladimir Putin perder o sono, um jornalista investigativo búlgaro, ágil e experimentado. O método: hackear meia dúzia de agendas telefônicas estratégicas, comparar com tickets aéreos e hospedagens. A conclusão: três funcionários de um obscuro Instituto de Química em Moscou pegaram o mesmo avião, dormiram nos mesmos hotéis, em suma, colaram no alvo dia e noite até soltarem o pó assassino.

O leitor deve estar se perguntando: afinal, isto é um documentário, ou um thriller? Alexei Navalny em certo momento pede ao realizador para não fazer um “filme de memórias, maçante”, como se ele já estivesse morto. Pelo contrário, quer um suspense político de tirar o fôlego, entretenimento-pipoca em que o público espera a sobrevivência do herói e nunca tenha motivos para vê-lo como mártir. Um thriller com um vilão a altura, ninguém outro que o presidente Vladimir Putin. Sim, o mesmo que cometeu a façanha linguística de designar como “operação especial” a guerra deflagrada na Ucrânia, punindo com prisão os que ousassem contrariar a norma.

Em Navalny, assistimos o mesmo dispositivo em ação: o presidente recusa-se a pronunciar a palavra “Navalny” nas coletivas de imprensa, utilizando estratagemas caricaturais para evitar o nome e responder às perguntas, do tipo “essa pessoa que você citou”. Alexei Navalny acreditou que sua popularidade o salvaria de ser assassinado: a verdade, entretanto, parece ser que sua desaparição foi decidida no momento mesmo que seu nome se tornou impronunciável. Vladimir Putin se tornou tão poderoso que imaginou ser possível matar Alexei Navalny – talvez porque ninguém jamais suporia que ele seria tão destemido a ponto de tentar. Questões como essa permeiam o doc-thriller, opacas e impenetráveis como a personalidade do líder russo.

“Tomei uma decisão. Pensei por um longo tempo e com muita dor. Hoje, no último dia do século que termina, renuncio. (…) Entendi que eu precisava fazer isso. A Rússia deve entrar no novo milênio com novos políticos, com novos rostos”, disse, em 31 de dezembro de 1999, o primeiro presidente eleito da Rússia, Boris Iéltsin. Na ocasião indicou como sucessor o então primeiro-ministro Vladimir Putin, burocrata oriundo da KGB, nomeado em agosto de 1999 e desconhecido da maioria do público.

O grande feito de Vladimir Putin tinha sido encarar, no mês seguinte à sua nomeação, em setembro de 1999, a terrível onda de ataques terroristas que explodiu prédios residenciais em três cidades, inclusive Moscou, matando mais de 300 pessoas, ferindo outras mil e espalhando uma onda de medo pelo país. Putin afirmou que os terroristas na Chechênia eram os culpados, ordenou uma campanha aérea maciça na região do norte do Cáucaso, e bradou: “Desculpem-me por dizer isso: vamos pegá-los no banheiro. Vamos eliminá-los na latrina da casinha”.

Há quem afirme, no entanto, que esses “ataques” foram plantados por agentes da FSB – não teriam sido, portanto, obra dos chechenos. A névoa que ronda esta e outras ações, como a tentativa de assassinar Alexei Navalny, paira como obscuridade latente no núcleo decisório da Rússia moderna, país que dispõe do maior arsenal de artefatos nucleares do planeta.

Navalny termina com a volta de Alexei para a Rússia, em janeiro de 2021 – e sua posterior condenação a nove anos de prisão, no último dia 22 de março, só potencializa essa obscuridade. Alexei Navalny chegou a ter seu status de “prisioneiro da consciência” revogado pela Anistia Internacional, em razão de suas declarações discriminatórias contra muçulmanos, em 2007 e 2008: em maio de 2021, porém, a organização restaurou o referido status, à luz do seu pleito pelo “direito de participação igualitária na vida pública para si e seus partidários, e por exigir um governo livre de corrupção”.

*João Lanari Bo é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB).

 

Referência


Navalny
EUA, 2022, 98 minutos
Documentário
Direção: Daniel Roher.

 

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