O agente laranja agora envenena o mundo

Imagem: Beth Fitzpatrick
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Por TARSO GENRO*

Enquanto o agente laranja do passado ainda envenena rios e memórias, o novo fascismo alastra-se como um câncer político, corroendo democracias. Mas na resistência de Lula, ecoa Drummond: mesmo na esquina sombria do tempo, há quem insista em semear esperança 

“Na década de 60, o Agente Laranja foi um herbicida e desfolhante químico usado pelos militares dos EUA durante a Guerra do Vietnã, como parte da Operação Ranch Hand, por mais de 10 anos. Até hoje, esse veneno ainda chega aos humanos a partir de sedimentos de rios e lagos”.

1.

Um agente laranja presidencial jamais poderia ser previsto, há mais de sessenta anos, como mais tóxico do que os milhões de litros do agente químico derramado sobre as florestas e os verdes arrozais do Vietnã, numa humanidade à beira do desastre e sobre um mundo assediado pelas guerras e pela fome. Gaza que o diga pelo testemunho das suas crianças mortas sem piedade na guerra genocida, que tem pela frente e por trás, os mesmos bandidos e as mesmas ideias de antigamente.

Os raios “trompistas” caem sobre o os Brics como uma tempestade de granizo alaranjado e bicudo. Lula devolve-os, ao novo esteta alaranjado do fascismo, com a categoria suprema de um Chefe de Estado. Pode doer, nos que dizem que Lula é um populista, mas – se assim for – o populismo será glorificado pela vida eterna, por redimir a dignidade de uma nação brutalizada pelo delírio do elitismo, ao mesmo tempo golpista e odioso, que repõe na cena em andamento os vira-latas do complexo de menoridade nacional.

É visível que o governo federal melhorou na maneira de informar a sociedade para propagar os seus feitos na área social e para conferir importância aos seus investimentos em obras e serviços. E agora, quando passa a modernizar a sua linguagem aos novos tempos – nos quais a formação da subjetividade coletiva não se dá principalmente através de sinais quantitativos – Lula pode de novo falar de esperança e grandeza nacional.

As esperanças abertas pelas longas narrativas, como dizia Carlos Drummond de Andrade, não são mais repartidas entre o povo quando os homens deixam de pedir somente “carne, fogo, sapatos”. Quando o fazem, as leis não bastam” – pedem mais – acrescidas as esperanças – pelos impactos das necessidades não respondidas, que mudam o cotidiano sem a virtude de mudar os rumos da história.

Penso que a comunicação do governo Lula deve ser mais do que uma prestação de contas dos seus “feitos”, para passar a interferir no sentido da vida comum, ajudando as pessoas a conceberem um modo de vida conscientemente orientado, para buscar também as suas realizações individuais integradas numa ideia especial de nação solidária.

A força do mercado petrificou os corações das pessoas no altar do mercado perfeito e subtraiu delas o mínimo senso do que é a solidariedade, como essência da utopia democrática e social. Esta, hoje, está subjugada pelo minimalismo das reformas “realistas”, aliás – mesmo mínimas – sempre rejeitadas pelos muitos ricos donos perfeitos do “mercado”.

2.

Um primeiro fator a ser considerado nessa mudança de rumo: toda a política de comunicação e agregação de Donald Trump busca acomodar os EUA num caminho que vai no sentido inverso da democracia, enquanto o nosso sentido reformista-democrático (ainda que mínimo) se choca com a maré montante do mercado universal, que gera tanto desorientação no consumo, como obstrui uma ideia de nação integrada voltada para a paz e a democracia.

O discurso de comunicação do governo Lula, portanto, começa a orientar o senso comum sobre as alternativas ao modelo global de exploração capitalista selvagem, com uma compreensão que começa dentro do governo, para então enfrentar um segundo fator complicador: o equilíbrio das nossas relações com os Estados Unidos.

Elas desnudam as contradições que expressam os interesses econômicos e políticos diversos, pelos quais podemos afirmar a nossa liderança democrática. Esta questão será sempre negociada e, ao mesmo tempo, disputada com os Estados Unidos, pois ambos países almejam “sentidos” opostos para o futuro do continente. O Brasil almeja paz, democracia, integração e os Estados Unidos almejam dominação, pelos mercados ou pela guerra.

O arcabouço fiscal é a iniciativa estrutural inovadora do atual governo, proposto como mediação entre o neoliberalismo decadente – nacional-fascista dos EUA – e o reformismo possível, liberal-democrático do país, que visa uma desconcentração parcial da renda na pirâmide social do país. O “arcabouço” é uma travessia, todavia, que está em perigo de “congelamento”, pois a direita golpista coloca sua aprovação como moeda de troca, para comprar a inconstitucional anistia ao golpismo.

O terceiro fator a ser enfrentado é o desafio, tanto no terreno da segurança nacional, como na questão objetiva da segurança pública: buscar novos contornos democráticos negociados para a sensação de segurança nacional, bem como protocolos concretos para a questão da sensação de segurança pública continental.

As democracias – em geral – estão inseguras, face aos assédios universais do fascismo, tanto no plano da segurança do Estado, para o cumprimento das suas funções públicas nas questões gerais de segurança na vida comum, porque os grupos operacionais do fascismo estão ligados ao sistema miliciano de poder territorial, e não raro no terreno da ação política do extremismo de direita.

Esta situação se reflete especialmente no mundo político do Rio de Janeiro, que é um dos palcos decisivos das eleições de 2026. “Conheço bem esta casa”, prossegue Carlos Drummond, no mesmo poema e conclui: “Na esquina do tempo de cinco sentidos (…) o espião janta conosco.”

Permanentemente traído pela sua frágil base parlamentar, o governo Lula é bombardeado por raios de ódio e navega em direção à reeleição, processo no qual seu talento de negociador pode ser bloqueado pelos próprios parceiros, que “jantam conosco”?

*Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios). [https://amzn.to/3DfPdhF]


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