O regresso de Ubirajara

Imagem: Alejandro Quintanar
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Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO*

De importância científica incalculável, trata-se do primeiro fóssil de dinossauro emplumado das Américas

Ubirajara jubatus, cearense do período Cretáceo, levou trinta anos para ser repatriado da Alemanha. De importância científica incalculável, trata-se do primeiro fóssil de dinossauro emplumado das Américas, a desmentir que fossem exclusivos de outros continentes. Os dinossauros estão extintos há milhões de anos, mas alguns deles são ancestrais dos pássaros.

O comércio ilegal de fósseis brasileiros é intenso, antigo e próspero, embora seja raro o flagrante e ainda mais a devolução. Ubirajara repousa agora em casa, no Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri. A Chapada do Araripe é conhecida como um dos mais ricos sítios do país em fósseis e pinturas rupestres: sua pilhagem é imemorial. Os paleontólogos brasileiros que lideraram a cobrança contaram com o apoio de colegas do mundo inteiro, o que foi decisivo.

Quem pôs em voga o onomástico foi José de Alencar, oriundo do Ceará, dos mais reputados escritores do Brasil. Autor do romance Ubirajara, contrapartida masculina a Iracema, a virgem dos lábios de mel, foi inspirado pelo Indianismo que era apanágio do Romantismo. Fora isso, quase todos nós temos um primo com esse nome, advindo do período em que era moda dar nomes indígenas aos filhos, ou trocar o seu.

Quem se divertiu com isso foi Gilberto Freyre, que em Casa Grande & Senzala examinou o primeiro surto da moda,provocado pela Independência de 1822. Era sinal de patriotismo. Nesses arroubos antilusitanos, a família de senhores de engenho Fonseca Galvão deixou cair seu sobrenome castiço e o substituiu pelo indígena de Carapeba, horrível, segundo ele.

Mas são boas novas e estão indicando uma auspiciosa mudança nos ventos da descolonização. Depois de longas escaramuças, vimos a França devolver alguns itens para nações da África. Quem deu o exemplo de boa-vontade foi o presidente Emmanuel Macron, o que é supreendente, mas louvável. Só de fósseis, consta que aFrança tem 998 dos nossos, com repatriação solicitada. Os Estados Unidos já restituíram um, em 2021. Ubirajara tornou-se bandeira de um movimento muito mais amplo e sustentado por cientistas de todo o mundo.

Agora, o Egito requereu oficialmente e de novo a Pedra de Roseta, já reivindicada em 2003. Países e museus desconversam, pretextando que são guardiães desses tesouros para toda a humanidade, como reza recente manifesto dos 30 principais museus do mundo: bom exemplo de mentalidade colonialista. O Museu Britânico até já fez uma réplica da Pedra em fibra de vidro e a presenteou aos egípcios, que estão inaugurando o gigantesco museu de Gizé, perto das pirâmides.

Ali se erige moderníssima e ostentatória versão do Museu do Cairo, acanhado e antiquado, mas que ainda detém o recorde de melhor do mundo em egiptologia. Os outros no topo da hierarquia – o de Turim, o de Berlim, o Louvre, o Metropolitan – mesmo somados não lhe chegam aos pés. Pois é nele que estão os despojos de Tutancâmon, o único faraó cuja tumba chegou-nos intacta, todas as outras já submetidas à ação de saqueadores por milênios. Que ingenuidade, pensar que uma cópia pode ser portadora da aura de objeto único…

A disputa pela Pedra de Roseta deriva da invasão do Egito por Napoleão, que foi um fiasco militar e um triunfo científico. Os franceses foram derrotados pelos ingleses, que sequestraram a Pedra e a levaram para Londres. Mas da invasão resultaria a Description de l´Egypte em 10 volumes de texto em grande formato mais 13 de pranchas com ilustrações, concebida no melhor modelo da Encyclopédie.

Napoleão recrutou um “exército de sábios” bem no espírito das Luzes do século XVIII: centenas de naturalistas, zoólogos, botânicos, desenhistas e gravadores, pintores, geógrafos, arquitetos, historiadores, linguistas…

A edição pela Comissão das Ciências e das Artes da expedição, justamente chamada de monumental, levou décadas para ser preparada, em consonância com as toneladas de material que demandaram processamento e organização. Mas hoje pode ser consultada on-line, ou, para quem prefere livros, em edição popular atual, minimalista até no preço, num único volume e tamanho pequeno, com mil páginas.

*Walnice Nogueira Galvão é professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Lendo e relendo (Sesc\Ouro sobre Azul).


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