A hora dos desamparados

John Wells, "Perfis", 1949.
image_pdf

Por TARSO GENRO*

Estas eleições serão decididas pela massa de desamparados

“O pesar e o prazer andam tão emparelhados que tanto se desnorteia o triste que desespera quanto o alegre que confia” (Cervantes).

A violência do Estado nos momentos ou etapas de exceção, não gera somente temor ou neuroses no cotidiano das massas alienadas, mas também promove pulsões históricas. Vastas parcelas da sociedade, ora se dirigem para os supostos momentos de alegria e descontração no mercado das ilusões consumistas, ora se conectam aos espaços do crime organizado, já monopolizado como poder no Estado (autoritário) – ou conectando-se (em rede), pelas milícias digitais.

Nestas milícias paranoicas os militantes podem apoiar os campos de concentração, a terra pode ser plana e Bolsonaro pode ser revelado como o redentor de uma nação fictícia: seu fascismo em compota – sem teoria e sem projeto – não podendo elevar-se a um plano político minimamente coerente, expande-se pelo ódio que, carente para ser filosofia da ação, torna-se pura ação criminosa sem partido.

O e-book 100 anos psicologia das massas (Jaqueline de Oliveira Moreira, Ana Carolina Dias da Silva, organizadoras, Ed CRV) traz um conjunto qualificado de textos sobre a vida e a política na democracia contemporânea, de um ângulo que embora não seja inusitado, não é o usual, nem nas narrativas da luta política, nem nos debates e na crítica da emancipação democrática.

O livro é um vasto painel: psicanálise, psicologia das massas, formação e controle do “espírito” dos dominados, traços de filosofia política, nexos entre dominação e libertação das mentes, o falso direito de “todos possuir” – no enredo que a todos nivela pela mercadoria – compõe o sentido principal do livro coletivo. Nele está o excelente texto “Recordar, repetir e…repetir -as massas e os autoritarismos de ontem e hoje” (do pesquisador Domingos Barroso da Silva), no qual me apoio para as presentes considerações sobre a nossa crise democrática.

No “hiperindividualismo” reinante, combinado com “a ressurreição e o progressivo fortalecimento” de uma postura fascista – de líderes como Trump e Bolsonaro – vem o “esmagamento da dimensão pública pelas coisas privadas”, ao que sucede o desprestígio das instituições democráticas e o “ambiente fértil para desenvolvimento de novas formas de tirania”. Estas novas formas de tirania agora disseminam a cultura da “igualdade” (falsa), pelo mercado, com as reformas que seriam necessárias para que “todos um dia lá estejam felizes”.

As novas formas de tirania se expressam num novo contexto ideológico mundial integrado de forma horizontal – pela base – a partir de um conjunto de indivíduos isolados. Eles atuam sós, ou em pequenos grupos, em redes que não respondem necessariamente aos seus “instintos de classe”: seus movimentos mimetizam também um conjunto de estímulos verticais, “de fora” das suas classes originárias, que são fabricados em série pelos bandidos globais como Steve Bannon.

As dificuldades de comunicação, tanto da esquerda – que sempre é mais solidamente democrática – como da direita tradicional não fascista, que tem principalmente relações contingentes com a democracia, estão assentadas portanto neste dilema: os seus núcleos dirigentes continuam formulando seus comandos políticos compostos de narrativas longas, mas a vida cotidiana toma conta da História todos os dias, com tempos curtos, pulsões em série, moralidades provisórias, fomes rapidamente disseminadas e afetos evanescentes.

Estas dificuldades de comunicação para exercer comando político, no atual estágio da crise é enfrentada de forma diferente pelos dois principais líderes políticos nacionais: um representando os escombros do inconsciente iluminista precariamente adquirido nos nossos curtos períodos democráticos; outro representando o máximo de consciência socialdemocrata adquirida no mesmo período de democracia política.

A vida é provisória e a pulsão do mercado é permanente, como a própria crise, ora fundida na pobreza herdada da democracia social deformada, ora na frieza da república impotente. Por isso, quando Bolsonaro imita com crueldade a falta de ar dos que se preparam para morrer, Lula fala na fome endêmica que se espalha no tempo presente; quando Bolsonaro rosna que torturar é necessário, Lula fala em compaixão e celebra a luz com os coletores de resíduos que o mercado marginaliza; quando Bolsonaro celebra o presente, como se fosse garantida a perpetuação do ódio, Lula fala na coesão social do passado pelas três refeições do dia.

Na parte do artigo em que o autor aborda a “Insegurança, precariedade e medo, o sujeito reduzido a indivíduo e acolhido pelas massas”, o autor faz um destaque importante: o significado profundamente humano da “coesão partir dos medos, ódios e ressentimentos compartilhados (através dos quais) afetivamente unidos (eles) conseguem conferir alguma estabilidade à existência, que sentem se volatilizar em razão de uma liberdade que, imposta segundo a cartilha neoliberal, mais equivale a desamparo”.

Talvez quando o conjunto da esquerda entender que estas eleições serão decididas pela massa de desamparados – tratados como gado na pandemia que ainda nos espreita – possamos compor uma unidade, não só na resistência, mas para governar, respondendo às mensagens fortes e curtas de quem não respira, seja pelo vírus, seja pela fome. Lembremos que Bolsonaro, com toda a sua insanidade, vocação para a mentira e mensagens de ódio, ainda é ouvido por 40% da população. Grande parte deles “desamparados” que ele mesmo criou, ajudado pelos “gentlemans” da escolha difícil.

*Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES