A pós-verdade na Rede Globo

Imagem: Annika Elisabeth von Hausswolff
image_pdf

Por LUIZ MARQUES*

O ciclo farsesco está chegando ao fim. O povo aprendeu a distinguir as mentiras da verdade

A mentira na esfera pública brasileira atingiu seu ápice pelas mãos do ex-juiz Sérgio Moro e do ex-procurador Deltan Dallagnol. O Jornal Nacional reverberou falsidades da Lava Jato durante anos a fio, ao invés de cumprir o dever do jornalismo crítico. Figuras medíocres foram transformadas em heróis da pátria, paladinos da moralidade frente a corrupção. Mas eram embusteiros, convertendo quinze minutos de glória em muitos cifrões, através de palestras a peso de ouro e da “farra de diárias”, denunciada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Com o que o boquirroto do PowerPoint do Ministério Público Federal (MPF/PR) está obrigado a ressarcir o erário em R$ 2,8 milhões.

O chefe do desgoverno atual, Jair Bolsonaro, deu continuidade à prática das mentiras enquanto método de intervenção política. Foi possível porque o mesmo se colocou fora das regras, como personagem antissistêmica, no confronto de ideias nas instituições tradicionais de sustentação da República. Sem o compromisso de respeitar os fatos, aferidos pelos critérios convencionais do regime democrático, o bom senso deu lugar à insensatez. Uma palavra então foi adicionada ao dicionário: “pós-verdade”. O negacionismo tratou a doença pandêmica como uma “gripezinha”, submeteu as vacinas ao escrutínio da ignorância e demonstrou falta de empatia com os doentes.

400 mil vidas foram desperdiçadas, em nome da irresponsável “imunidade de rebanho”. Até a charlatanesca cloroquina “para prevenir os corpos do ataque do coronavírus”, apesar de desautorizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), invadiu os postos de saúde e os quartéis na pandemia. Aliás, receitada ainda hoje pelo genocida.

O conceito de “narrativa” passou a justificar o recurso às fake news nas disputas políticas, como se viu na campanha eleitoral de 2018 e no exercício do poder pelo inquilino, que pretende se apropriar do Palácio do Planalto, com a ameaça de um “golpe” se perder as eleições. Um despautério. A violência das milícias ganhou as ruas, dividiu famílias, separou amigos. O Brasil perdeu a credibilidade internacional que havia conquistado na primeira década do século XX. Nosso cartão postal, que era a alegria e a afetividade, de repente, virou o desmatamento criminoso da Amazônia. Quem deveria preservar as florestas, “passou a boiada” na legislação de proteção ambiental.

O debate na Rede Globo iniciou com acusações sem fundamento na Justiça contra o candidato Lula da Silva, que ganhou direito de resposta em sequência. O inominável não ficou sozinho no papel de Pinóquio. Ciro Gomes e um tal Padre o escudaram. Pobre trabalhismo brizolista que se tornou linha auxiliar de um neofascista, que enxovalha a imagem do Brasil no exterior e sacrifica o povo, devolvido ao mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU). A lição que fica é que a dinâmica do evento televisivo favoreceu, no formato, uma pantomima. A falta de decoro daquela famosa reunião ministerial instalou-se no estúdio. O nervosismo cirista ao encarar Lula falou por si. Quiçá o último suspiro de dignidade do candidato que achou tempo para atacar Caetano Veloso.

Guy Debord, autor do livro A sociedade do espetáculo que influenciou a eclosão do emblemático Maio de 1968 francês, abre a obra dizendo que a sociedade moderna “se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos”. O debate foi mais um dos espetáculos em busca de imagens para suprir o desejo de visibilidade, em troca da racionalidade, sobretudo por parte do plantel de direita.

Na história, a tática diversionista que levou Getúlio Vargas à morte (acusado pelo fantasioso “mar de lama”), reproduzida contra Juscelino Kubitschek (acusado de um apartamento fictício “fruto de propina”) e Dilma Rousseff (destituída sem “crime de responsabilidade”), foi disparada contra Lula (condenado pela figura jurídica obscurantista “por crimes indeterminados”). As “elites” e os políticos sem compostura temem perder os atávicos privilégios decorrentes das desigualdades sociais e regionais do país, desde séculos. No entanto, o ciclo farsesco está chegando ao fim. O povo aprendeu a distinguir, as mentiras, da verdade. Nunca foram tão atuais os versos cheios de carinho e energia do poeta Thiago de Mello: “Cantando juntos, ergamos / a arma do amor em ação”.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
10
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
11
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
12
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
13
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
14
A honra de Donald Trump e a de Cuba
19 Mar 2026 Por GABRIEL COHN: O desafio atual para o Brasil consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus possíveis competidores
15
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES