A PUC-São Paulo e a liberdade acadêmica

Imagem: Ömer Faruk Yıldız
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Por MARIA RITA LOUREIRO & BERNARDO RICUPERO*

Ao atacar Reginaldo Nasser e Bruno Huberman, a universidade que resistiu à ditadura agora capitula ao autoritarismo sionista, e golpeia a liberdade acadêmica no Brasil

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – uma das instituições acadêmicos mais importantes do país – sempre foi um espaço do livre debate de ideias. Inclusive durante os piores momentos da ditadura, pautando-se pela conduta corajosa de seus dirigentes em defesa da democracia. Todavia, nos tempos sombrios em que vivemos e mesmo antecipando o pesadelo atual experimentado pelas universidades dos Estados Unidos sob Donald Trump, vivenciamos recentemente episódio de perigoso e inadmissível constrangimento intelectual no seio desta universidade brasileira.

Eis aos fatos: Desde meados do ano passado, os professores de Relações Internacionais, Reginaldo Nasser e Bruno Huberman, tentavam a renovação do Programa Santiago Dantas junto à Fundação São Paulo, mantenedora da PUC (já que as duas outras universidades participantes do convênio que mantinha este Programa, UNICAMP e UNESP, já o haviam assinado). Embora a Reitoria anterior tivesse manifestado parecer favorável à renovação, a Fundação só se manifestou em novembro, quando seu secretário executivo avisou aos pesquisadores que a autorização não iria ser feita por razões de ordem financeira e que a participação da PUC neste convênio estava em “extrema unção”.

Todavia, algo pior ainda estava por vir. No dia 19 daquele mês, os professores Reginaldo e Bruno foram comunicados pelo setor e Integridade da Fundação São Paulo de que havia uma denúncia anônima contra eles de prática de antissemitismo. E por esta razão eles estavam chamados a comparecer diante deste setor para prestar depoimentos.

Assim, no dia 25, os dois professores foram inquiridos separadamente, durante uma hora ou mais, com perguntas específicas a respeito de suas atividades de ensino e pesquisa sobre o conflito Israel-Palestina, sendo que a primeira pergunta feita a eles era: “O Sr. é a favor do grupo Hamas”?

Para melhor contextualizar a situação, é necessário destacar que o professor Reginaldo Nasser é professor livre-docente na área de Relações Internacionais da PUC SP, Coordenador do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais e pesquisador do INEU (Instituto de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos).

O professor Reginaldo e o professor Bruno Huberman são respectivamente líder e vice-líder do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (cadastrado no CNPQ desde 2015 e responsável pela produção de várias dissertações de Mestrado e teses de Doutorado na PUC-SP, algumas inclusive premiadas pela Associação Brasileira de Relações Internacionais).

Voltando aos fatos: Só em fevereiro deste ano, isto é, três meses depois de terem inquirido os dois professores, a Fundação São Paulo publicou nota afirmando que não houve constatação de antissemitismo. Todavia, neste mesmo comunicado, criou um protocolo sobre questões raciais na universidade, com destaque para o conceito de antissemitismo elaborado pela organização sionista de direita Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).

Amplamente criticado por organizações judaicas de esquerda, o conceito adotado pelo protocolo da PUC-SP foi, como esperado, saudado efusivamente por outras organizações sionistas de direita no Brasil que explicaram a adoção deste conceito como resultado de meses de negociação realizada por elas junto ao secretário executivo da Fundação São Paulo. Não por acaso, este conceito de antissionismo tem sido também adotado em São Paulo pelas atuais administrações de direita da Prefeitura da capital e pelo governo do Estado de São Paulo.

Bastante significativo deste clima de partidarização e disputa ideológica dentro da PUC-SP, à semelhança do que ocorre mundo afora, é o aparecimento de pichações de cunho racista, exatamente neste período, nos muros desta universidade, pedindo para “limpar” a área de Relações Internacionais de árabes. Também é significativo o fato de que até agora, lamentavelmente, não houve autorização para a continuidade do Programa Santiago Dantas pela PUC-SP, o que certamente representa uma perda para as pesquisas e publicações nesta área.

Diante deste quadro de constrangimento acadêmico inadmissível, os dirigentes do Centro de Cultura Contemporânea(CEDEC), instituição de estudos e reflexão crítica, criado em São Paulo no final dos anos 1970, no seio do processo de luta pela redemocratização do país, viemos manifestar nosso apoio ao professor judeu Bruno Huberman e ao professor Reginaldo Nasser, este último, também membro associado e diretor vice-presidente do CEDEC.

Se rejeitamos a utilização de um pretenso antissemitismo como pretexto para justificar o genocídio da população palestina por parte do governo de Israel, consideramos preocupante também o modo como uma falsa imputação de antissemitismo vem sendo utilizado por organizações sionistas para golpear a liberdade acadêmica.

*Maria Rita Loureiro, socióloga, é professora titular aposentada da FGV-SP e da FEA-USP.

*Bernardo Ricupero é professor no departamento de ciência política da USP. Autor, entre outros livros, de Romantismo e a ideia de nação no Brasil (WMF Martins Fontes) [https://amzn.to/4gVZizw]


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