Anistia ou democracia?

Imagem: Jan van der Wolf
image_pdf

Por LUIS FELIPE MIGUEL*

O artigo de Joel Pinheiro da Fonseca na Folha de São Paulo é de uma má-fé que seria surpreendente, se não soubéssemos quem o assina. O ultraliberal é incapaz de operar a distinção entre questões de foro pessoal e as de interesse público

1.

No jornal Folha de S. Paulo, Joel Pinheiro da Fonseca elogiou a nova proposta de anistia aos golpistas – ou melhor, redução das penas – com base em uma peculiar teoria da democracia.

Com a desenvoltura de quem passou de defensor de radical ensandecido a direitista quase progressista, afirma que o que caracteriza a democracia é a obtenção de consensos e que, portanto, o meio termo entre punição rigorosa e liberou geral seria a solução democrática para a questão.

“Democracia é saber negociar e chegar a soluções de meio do caminho”, pontifica o colunista do jornal paulistano, como base naquela célebre bibliografia: CABEÇA, Vozes da Minha (2025).

Fica claro que Joel Pinheiro da Fonseca ainda não conseguiu se livrar da forma de pensar – ou do “mindset”, para usar uma palavra que certamente seria mais seu agrado – do ultraliberalismo mais primário.

Uma das características desta corrente de pensamento e a incapacidade de levar em conta a complexidade do mundo, julgando que é necessário estabelecer um único critério e se aferrar a ele em todas as circunstâncias.

Assim, se julgamos que as pessoas devem ser envolvidas na tomada de decisões que vão afetá-las, até a escolha de com quem você vai se casar teria que ser tomada assembleia, já que que serão afetados todos os outros pretendentes, os pretendentes dos pretendentes e assim por diante. (Este era o exemplo que Robert Nozick usava para justificar sua ojeriza ao método democrático)

Quer dizer: o ultraliberal é incapaz de operar uma distinção entre questões de foro pessoal e questões de interesse público.

Ou, então, se julgamos que o indivíduo deve ter autonomia sobre seu próprio corpo, devemos permitir que ele venda a si mesmo como escravo, como queria também Robert Nozick – ou que venda seus rins e córneas, como pregava o Joel Pinheiro da Fonseca mais jovem.

No caso, opera uma incapacidade de entender a relação entre escolhas e circunstâncias, que, no entanto, é crucial para avaliar as formas de opressão e desigualdade que imperam no mundo social.

Da mesma maneira, é claro que a democracia, cujo gesto inaugural, como disse Claude Lefort, é o reconhecimento da legitimidade do conflito na sociedade, precisa incorporar mecanismos de negociação entre partes divergentes.

Isso não justifica, porém, a conclusão de que alcançar soluções de compromisso é a essência da democracia. Ela inclui também muitos outros valores, como, por exemplo, a igualdade, o respeito aos pactos instituídos, a oposição às formas de dominação vigentes.

2.

Se fosse como Joel Pinheiro da Fonseca pensa, poderíamos imaginar que a forma democrática de lidar com um nazista é encontrar uma “solução de meio de caminho”. Quem sabe, pactuar que será assassinada só metade dos judeus. Ou, negociando com o sionista, chegaríamos à solução “democrática” de eliminar apenas metade do povo palestino.

O que está em jogo na proposta de anistia aos golpistas é o direito que a democracia tem de defender a si mesma. Buscar um meio-termo para este direito é incentivar novas tentativas de virar a mesa, por parte da extrema direita.

Que fique claro: desde que Aécio foi condenado (não o Neves, que continua leve, livre e solto, apesar de tudo que existe contra ele, mas Aécio Lúcio Costa Pereira, o primeiro dos julgados pelo 8 de janeiro), eu me manifestei dizendo que as penas aplicadas à massa de manobra eram excessivas.

São inocentes? Não, claro que não. Mas existe uma diferença entre planejar, financiar e incentivar um golpe de Estado e apenas integrar a multidão de teleguiados, com a atenuante da imbecilidade profunda.

O que eu temia se realizou – e era óbvio. A direita escolheu um dos réus, no caso uma ré, para usar como exemplo da crueldade do Judiciário brasileiro.

De um lado, a pobre cabeleireira, mãe de família, armada apenas de um batom. Do outro, a figura lexluthoriana de Alexandre de Moraes, controlando todos os recursos do aparelho repressivo do Estado brasileiro. Vamos reconhecer: é uma narrativa bem-preparada.

Penas mais modestas para os bagrinhos, assim, responderiam tanto ao sentido de justiça quanto à conveniência política. Mas Xandão, movido por maus conselheiros ou talvez por sua própria prepotência, preferiu esticar a corda.

Um erro que alimenta a agitação em favor da impunidade, por parte do núcleo pensante (contém ironia) do golpismo bolsonarista. Só que agora não dá para recuar. O projeto de semi-anistia que está sendo urdido por Davi Alcolumbre e Hugo Motta, com a simpatia de parte do Supremo e mesmo do governo Lula, legitima a pressão da extrema direita.

Creio que qualquer redução das penas aplicadas aos bolsonaristas que invadiram a Praça dos Três Poderes só pode ser discutida depois que os cabeças estiverem na cadeia. Para não confundir clemência com impunidade.

3.

Joel Pinheiro da Fonseca justifica seu apoio à proposta tramada pelos presidentes das duas casas do Congresso em nome também da superação da “polarização”. “Dois polos se odeiam e arrastam consigo o resto do país”, lamenta o colunista.

E, como de costume nessa retórica, fica implícito que os polos são simétricos. Como se as ameaças à democracia e aos direitos viessem de ambos os lados. Como se, a uma direita radicalizada ao ponto da hidrofobia, não se contrapusesse uma esquerda completamente abaunilhada.

Como se fosse uma escolha muito difícil, em suma.

Líder do governo no Congresso, o agora petista Randolfe Rodrigues vai em linha similar – com muito maior gravidade, dadas as suas responsabilidades. Enaltece a ideia da redução das penas, vendo nela “a mão estendida para a conciliação nacional”.

O preço da conciliação é manter a democracia sob ameaça. E isto é aceito, naturalizado, festejado pelo governo que nós elegemos tendo como tarefa principal recompor e fortalecer a nossa combalida democracia.

Tá osso.

Em outra edição da Folha de S. Paulo, os argumentos de Joel Pinheiro da Fonseca são reforçados pelo Elio Gaspari.

Talvez pela cancha que a idade lhe dá, com uma larga experiência nas artes da patifaria jornalística, o devoto-mor de São Golbery chega ao ponto de equivaler Débora Rodrigues dos Santos, a cabeleireira que vandalizou a estátua da Justiça na Praça dos Três Poderes, a Caio Prado Júnior, o historiador e editor que foi preso na última ditadura militar.

E ainda teve o desplante de equiparar Luiz Fux – sim, Fux! – a Sobral Pinto, o heroico advogado que levantou sua voz em defesa dos direitos humanos durante o Estado Novo e a ditadura de 1964.

É um texto de uma má-fé que seria surpreendente, se não soubéssemos quem o assina.

*Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica). [https://amzn.to/45NRwS2].

Publicado originalmente nas redes sociais do autor.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES