Carlos Néder (1953-2021)

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Por JOSÉ CLÓVIS M. LIMA*

Homenagem ao grande lutador

O falecimento de Carlos Néder é um acontecimento muito triste para a família, os amigos e todos aqueles que sabem o valor de um homem público, na assepsia clássica da palavra, e para uma coletividade tão carente de referências éticas, ainda mais nesses tempos em que vivemos. A partida de uma pessoa tão comprometida com as causas mais caras ao campo democrático, como ele, nos deixa um vazio muito grande.

No entanto, como diria Mário Schenberg, o vazio não existe. Ao aproximar as pesquisas do campo da física aos estudos das filosofias hinduístas e aos debates no campo da estética, o grande físico brasileiro desenvolveu especulações que propiciaram a descoberta dos neutrinos, uma energia que permeia o universo e que perpassa o tempo e preenche os espaços vazios. Néder, é uma dessas forças da natureza, que perpassará o tempo vivido e os espaços nos quais atuou, tal qual os neutrinos que atravessam o universo. Ele nos impactou e continuará imprimindo sua luz de alguma forma.

Carlos Néder teve papel importante na eleição de Luiza Erundina como prefeita de São Paulo, em 1988. Foi o secretário municipal de saúde nessa gestão (1990-1992), tornando-se um dos responsáveis, junto com Erundina, pela construção de uma rede primária de atenção à saúde, que teve na participação e no controle popular um de seus pilares, ponto de partida de uma série de ações visando o fortalecimento do SUS, sua bandeira maior de luta.

Néder participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. Na gestão municipal pôde colocar em prática o que estava previsto no programa do partido como o orçamento participativo e o fortalecimento dos conselhos municipais de saúde.

Ele permaneceu fiel a esse modelo implantado na gestão municipal pelo resto da vida. Em sua atuação política, destacou-se pelo combate à privatização velada da rede municipal de saúde por meio das chamadas Organizações Sociais. Posteriormente, elegeu-se para cargos no parlamento: quatro vezes vereador na cidade de São Paulo e duas vezes deputado estadual. Em seus mandatos na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa, além de combater as OS, notabilizou-se pela atuação na constituição da Frente Parlamentar em defesa e apoio às Universidades Públicas e aos Institutos de Pesquisa do Estado.

Durante seus mandatos legislativos, Néder contribui para a organização do Coletivo Cidadania Ativa. Trata-se de um agrupamento onde cidadãos – independentemente da cor de sua filiação partidária – se reúnem para discutir as questões que mais impactam a vida cotidiana como os problemas da saúde, da carestia, da falta de emprego e renda e tantas outras. Os resultados desses debates coletivos, sob a forma de proposições foram levados aos diversos fóruns onde Néder atuava, seja no Parlamento, na executiva estadual do Partido dos Trabalhadores ou junto às autoridades constituídas.

Lembro-me, com muito carinho, que quando comentei com Néder o fato da minha sogra – viúva e pensionista do INSS, que ganha salário mínimo – ter recebido uma conta exorbitante da ENEL durante à pandemia da COVID, ele prontamente acionou a presidência do órgão estadual de Defesa do Consumidor, exigido a fiscalização para todos os casos, alguns milhares.

Figura pública ímpar, Néder pertencia ao restrito número daqueles que são considerados um farol e uma referência ética para todos nós que prezamos de sua convivência e amizade, para o partido a qual era filiado e membro ativo e para a sociedade em geral.

*José Clóvis M. Lima é funcionário público e participante do coletivo Cidadania Ativa.

 

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