Da democracia ateniense à socialista

Imagem: Denis Zagorodniuc
image_pdf

Por LUIZ MARQUES*

A primeira eleição de Lula da Silva potencializou as Conferências Nacionais responsáveis por políticas públicas adotadas pelo Estado. No atual mandato, o presidente radicaliza

A Antiguidade costuma ser apresentada como um capítulo da história do escravismo, que leva à estagnação tecnológica. O bloqueio ao desenvolvimento das forças produtivas e a redução da oferta de escravos teria provocado o declínio do império romano. A ligação do trabalho e a escravatura gerou opreconceito contra os trabalhadores e o desprezo do labor. Nasciam as “classes parasitas”.

Ainda que a produção dos camponeses e artesãos livres superasse a dos produtores agrícolas e a dos industriais escravizados, as sociedades de antanho são catalogadas com a etiqueta-pecha “modo de produção escravagista”, dado o proveito de lides forçadas para a extração do excedente. Assim, mantém-se a desconfiança sobre outras modalidades de produção, dominantes, mas não marcantes nos campos e nas cidades clássicas. A chaga do racismo, porém, converteu-se em grande fiadora da escravidão apenas nas economias ocidentais. O longo convívio com o mal aperfeiçoou a maldade.

“Se Atenas corresponde à descrição de uma sociedade escravagista, ao mesmo tempo, é a polis mais democrática e, na qual, a maioria dos cidadãos tinha de trabalhar para viver”, aponta a professora de ciência política na Universidade York, de Toronto, Ellen Meiksins Wood, em Democracia contra capitalismo (Boitempo). Fugindo à regra tácita que, à época, separa a esfera política governamental do circuito produtivo, os trabalhadores livres tornaram-se os legítimos dirigentes da cidade-Estado. Da aliança dos camponeses-cidadãos e artesãos surge o que se denomina demo (povo) – a porta de entrada da democracia, no século V a.C. O alinhamento de classes numa unidade cívica e militar singularizou Atenas, entre as sociedades pré-capitalistas. Sua organização sociopolítica equivaleu à invenção da roda. Despertou a utopia, apesar da vergonha extra-econômica que fere nossos sentimentos, hoje.

O valor do trabalho

A inovação ateniense permitiu aos trabalhadores livres deliberar sobre o seu destino, apoiados no mito de Prometeu para quem as “artes práticas” fundamentam a civilização. Explica-se o magnífico templo a Hefestos, o deus da forja. Não à toa, a divindade de Atenas, a deusa Atena, é “a padroeira das artes e ofícios”. Os prestadores de bens e serviços receberam o estatuto de cidadãos. A isonomia evocou a igualdade, quebrou a régua da divisão social do trabalho que estigmatizava os produtores.

Nas ágoras, os gregos postulavam em assuntos atinentes a um saber específico – a construção de um navio ou de um prédio – que projetistas navais e arquitetos se manifestassem. A razão é que tais afazeres têm por pressuposto o ensino-aprendizagem. Mas se o tema implicasse o ato de governar: “O homem que se levanta para dar conselhos pode ser um construtor, ou mesmo um ferreiro ou um sapateiro, mercador ou armador, rico ou pobre, nascido ou não de boa família; afinal, a assembleia não considera que os assuntos políticos possam ser ensinados”, sublinha Protágoras (apud Platão). A tradição filosófica ocidental e a práxis libertadora assentam-se no reconhecimento ético-político do trabalho, que o capitalismo reduz ao sequestro da mais-valia para a gananciosa acumulação.

Percebe-se a importância da autonomia coletiva e a revolucionária inserção nas estruturas de poder, da memorável urbe. Para projetar o futuro, há que historicizar o habitus dos antigos e seu apego à liberdade pública, sem cair em armadilhas conceituais. “O eclipse do cidadão trabalhador na Atenas democrática tem menos a ver com as realidades da democracia ateniense do que com a política da Europa moderna”, observa Ellen Meiksins Wood. A assombração dos grilhões alimenta o discurso de medo, com o propósito de perpetuar a ideia de que a divisão do trabalho é parte orgânica da vida social, e se precaver das revoluções. O espantalho ideológico pasteurizou o conservadorismo reaça.

Participação cidadã

A ingerência plebeia na política é o problema que sempre assustou os inimigos da democracia. A condenação das limitações morais não pode jogar fora a criança com a água suja, da bacia. É falsa a equiparação com o regime de plantation (latifúndios, serviço escravo, monocultura, exportação), implantado pelas nações europeias nas Américas, África e Ásia. Este passado triste não pertence a outrem; é nosso. A trilogia escrita por Laurentino Gomes, Escravidão, resolve qualquer dúvida.

Cornelius Castoriadis repudia objeções anacrônicas à segregação de escravizados e mulheres. Ora, foi preciso 2.400 anos para acabar com a instituição excludente encerrada em fins do século XIX. Não obstante, casos à mancheia de trabalho escravo são denunciados todos os dias. A extensão dos direitos políticos às mulheres só chegou a Nova Zelândia, em 1893; na Finlândia, em 1906; na Grã-Bretanha, após a I Guerra Mundial; no Brasil, na Constituição de 1934; na França, em 1945; na África do Sul, em 1993; na Arábia Saudita, em 2011. Não se deve, por presunção, atirar pedras na alvissareira governabilidade conquistada em priscas eras, que segue inspirando sonhos e lutas.

Detratores agem como o quero-quero, gorjeiam longe do ninho para ocultar que, no feudalismo, a igualitarização jurídica e a equissonância de prerrogativas mudaria a condição dos servos. Mas, no capitalismo, a universalização dos predicados políticos e civis deixou intocadas as relações de propriedade entre capital e trabalho. Os direitos formais não mexeram nas desigualdades sociais, esgarçadas na fase neoliberal. As elites econômicas temem perder o poder de expropriação com o empoderamento do povo. Eis a diferença entre a democracia ateniense e a democracia capitalista.

Contribuição de Lula

Em consequência das 30 mil cabeças guilhotinadas na Revolução Francesa, cujos protagonistas cultuavam a Antiguidade, a Europa responsabilizou as assembleias em praça pública pelo período de Terror. Não existe uma estação de metrô em homenagem ao jacobino Robespierre, em Paris. Os referendos populistas à la De Gaulle (1958, 1969) aumentaram a ojeriza às formas democráticas não representativas, no velho continente. Circunstância atenuada com a propagação internacional do Orçamento Participativo (OP), de Porto Alegre, sede primordial do Fórum Social Mundial (FSM).

Após a vitória liderada por Clístenes contra uma tirania, Atenas transforma-se no leitmotiv da busca pela supressão das iniquidades nas metrópoles, em favor da distribuição de equipamentos urbanos nas periferias – mais do que os levantes insurrecionais de Petrogrado (1905) ou Budapeste (1919). A sociedade civil responde com mobilizações fragmentárias sobre “a cidade que queremos” (cultura, educação, mobilidade, meio ambiente, etc). Com o selo do PT, a experiência do Orçamento Participativo expandiu-se por ambos os hemisférios.

A primeira eleição de Lula da Silva potencializou as Conferências Nacionais responsáveis por políticas públicas adotadas pelo Estado brasileiro. No atual mandato, o presidente radicaliza. O Plano Plurianual Participativo, com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), orienta a Lei de Orçamento Anual (LOA). Uma proeza diante da retranca formada no Congresso Nacional.

Em 2023, o PPA Participativo organiza-se em instâncias: (i) Fórum Interconselhos, que articula as setoriais nacionais e o Conselho de Participação Social (CPS); (ii) Plenárias Estaduais presenciais, que têm reuniões preparatórias e; (iii) Plataforma Digital, para apresentação e votação de propostas. Nas plenárias, 309 movimentos e organizações fizeram uso da palavra, no total de 34 mil partícipes. A internet somou 8 mil propostas, 1,5 milhão de cadastros e 4 milhões de internautas com acesso à plataforma. O projeto de bem-estar social fincou raízes. Comuns familiarizam-se com a máquina estatal. A engrenagem cumpre um papel estratégico para a transição até outro modelo civilizacional.  A igualdade de gênero e raça distingue a democracia socialista da ateniense, contemporaneamente.

Thiago de Mello saúda a notícia: “E de repente a manhã – manhã é céu derramado, é claridão, claridão – foi transformando a cidade / numa praça imensa praça / e dentro da praça o povo. / Dentro desta manhã / vou caminhando. E me vou / vou no rumo da manhã. / A beleza mensageira / desta manhã / sobrepairando a cidade / se deu ao povo”. A cidade tem nome e título de eleitor – Brasil.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
6
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
7
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
11
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
12
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
13
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
14
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
15
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES