Em destaque – VI

Imagem_Oto Vale
image_pdf

Por BENÍCIO VIERO SCHMIDT*

Comentários sobre acontecimentos recentes

Um dos destaques da semana passada – e que deve permanecer como uma questão saliente nesta semana e nas próximas – foi a operação contra o senador José Serra, que teve seus escritórios e suas residências visitados pela Polícia Federal, em busca de provas da aludida ajuda que foi dada pela Odebrecht às suas campanhas eleitorais, perfazendo um total de 27 milhões de reais. Trata-se, sem dúvida, de uma questão polêmica que irá suscitar muitas controvérsias, porque Serra é um dos últimos tucanos históricos, faz parte do grupo dos fundadores do PSDB e é considerado como reserva política e moral do partido. Um partido que modificou tanto o seu perfil nos últimos anos a ponto de ser liderado em São Paulo por João Dória.

A segunda questão que permanece surpreendentemente em suspenso é a nomeação do ministro da Educação. Feder, o secretário paranaense, talvez prevendo um desenlace igual ao de seu contemporâneo Sérgio Moro, resolveu não aceitar a parada. O que traz outro problema para o governo, que fica assim mergulhado na polêmica entre os olavistas históricos e suas alas mais tecnocráticas etc. Curiosamente, uma das pessoas cogitadas, a professora Ilona Becskeházy, foi participante ativa da campanha de Ciro Gomes na última eleição. Portanto, deve ter pouca chance de ser ministra da Educação.

Enquanto isso, professores de cem universidades, entre membros de conselho e coordenadores de curso de pós-graduação, assinaram uma carta se posicionando contra duas diretrizes do atual diretor presidente de um dos órgãos do MEC, a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). A carta contesta a nova política de destinação das bolsas de estudos, especialmente das novas, e a intenção de reduzir a nove as atuais 47 áreas do conhecimento avaliadas pelas comissões da CAPES. Os coordenadores destas cem universidades alegam que tradicionalmente medidas deste teor só foram adotadas após amplas deliberações em conselhos e em reuniões entre os representantes acadêmicos e a direção da CAPES. Eles se opõem, portanto, a essa mudança de rumo, pela qual a direção se arroga o direito de tomar decisões centralizadas e uninominais.

Persiste ainda a pressão internacional contra o desmatamento da Amazônia e os produtos originários das áreas ali desmatadas. Isso é mais sério do que se imagina, pois está associado à perda de posições do Brasil no Banco Interamericano e no Banco Mundial. Uma questão que irá permanecer e que tende a se agravar.

Chamou a atenção nos últimos dias a busca por protagonismo do ex-ministro Sérgio Moro. Ele concedeu inúmeras entrevistas na televisão, nas rádios e na imprensa escrita, arrependendo-se, piamente, da famosa reunião de 22 de abril, reconhecendo que deveria ter reagido de outra forma na ocasião e também em relação às posições que adotou acerca da política armamentista do presidente Bolsonaro e no combate à corrupção. É recomendável prestar atenção nessas eventualidades, porque dependendo das circunstâncias, da repercussão dos seus pronunciamentos, Moro tem condições de voltar ao campo da disputa presidencial ou a algo equivalente.

Não há como deixar de ressaltar a necrofilia de Bolsonaro no veto presidencial à obrigação de uso de máscaras em templos religiosos, em conglomerações humanas e nos presídios. Essa medida não faz o menor sentido, antes sinaliza um cultivo da morte, pois seus resultados já são conhecidos.

Por último, uma observação a respeito do curto-circuito entre a política preconizada pelo ministro Paulo Guedes e o que está efetivamente sendo feito, capitaneado pela Presidência da República. O programa de Paulo Guedes prevê políticas amplamente liberais e de desencargo dos direitos sociais dos trabalhadores. Na carteira verde-amarela, por exemplo, o trabalhador não contará com fundo de garantia, nem com cobertura do INSS, podendo ser contratado por horas independentemente de quem seja o contratante, até mesmo no mesmo dia. Isso reforçará a precarização do trabalho e das condições de reprodução da mão de obra.

Se, por um lado, se coloca em prática uma política que, respondendo às urgências impostas pela pandemia, é uma tentativa de proteger os desempregados e os trabalhadores informais com o auxílio emergencial; de outro lado, incentiva-se uma política de precarização da mão de obra e se despreza o diálogo com as entidades sindicais e suas centrais.

*Benicio Viero Schmidt é professor aposentado de sociologia na UnB. Autor, entre outros livros, de O Estado e a política urbana no Brasil (LP&M).

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES