Luciano Huck

Pingente de pássaro, século 4 a 7.
image_pdf

Por LUIS FELIPE MIGUEL*

Figuras como Huck são mais danosas para a democracia do que o velho Centrão

Luciano Huck mentiu a Pedro Bial ao dizer que votou em branco em 2018. Todo mundo lembra do vídeo, às vésperas do segundo turno, em que ele se posiciona. No vídeo, começa dizendo, pomposamente, que fez “uma análise”. Depois se expressa torpemente, no nível de um adolescente não particularmente dotado que se informa pelo zap. É chocante pensar que esse fulano estava cogitado para concorrer à presidência.

Descarta liminarmente o voto em Haddad, sem se preocupar sequer em apresentar justificativa: “No PT eu jamais votei e nunca vou votar. Isto é fato”. Em seguida, vai ao que interessa. Huck diz que “levantou os problemas” de Bolsonaro, sem explicitá-los, mas logo emenda: “acho que as pessoas podem, sim, amadurecer”. E completa dizendo que “ele tem uma chance de ouro de ressignificar a política no Brasil. Vamos ver, vamos aguardar”.

Não há margem para dúvida. Huck só não falou “vou votar 17”, mas deixou claro. Havia apenas duas opções; uma estava vetada e a outra abria espaço para muitas esperanças. Mesmo um telespectador médio do Caldeirão saberia a qual conclusão chegar.

Não é só o vídeo. O marido de Angélica atuou fortemente a favor de Bolsonaro na fase final da campanha – ele proibiu, por exemplo, que o Agora, movimento de “renovação política” que ele patrocinava, divulgasse uma nota já aprovada em favor do #EleNão. Depois, se esforçou para que a bancada federal do RenovaBR, outro movimento de “renovação política” que ele patrocinava, se alinhasse ao governo.

Bial, que se diz tão ativo na detecção de inverdades de seus entrevistados, deixou passar batido. Mas, claro, estava apenas cumprindo seu papel de coadjuvante da mistificação.

O mais importante é que, ao mentir sobre o voto de 2018, o descobridor de Tiazinha disse: “Eu não me arrependo, eu votei em branco e votaria em branco de novo”. O que significa que, apesar de toda a mis-en-scène dos últimos meses, ele marchará ao lado do genocida nas eleições do ano que vem.

Eu não assisti à entrevista de Huck. Li a reportagem na Folha, que concedeu a ela dois terços de página ímpar, além de chamada de capa. É o esforço continuado para fazer do ex-patrão da Feiticeira uma figura relevante do cenário político nacional.

Na página ao lado, uma reportagem sobre a reunião de dirigentes do que o jornal, caracteristicamente, chama de “sete partidos de centro-direita e de centro-esquerda”, em busca da mítica terceira via. Mandetta, organizador do encontro, declarou que o que os unia era a vontade de buscar uma alternativa aos “dois extremos”.

A manutenção deste discurso, depois de dois anos e meio deste governo (ao qual o próprio Mandetta, não custa lembrar, serviu gostosamente durante tanto tempo), sinaliza a mesma coisa. Uma porta aberta para apoio envergonhado a Bolsonaro no segundo turno. Para onde, aliás, vocês acham que vai parar Doria, com calça apertada e tudo? Sobretudo com a chance, que hoje é real, de um segundo turno em São Paulo entre o PSDB e Haddad ou Boulos?

Há personalidades políticas da direita que foram capazes, ainda que tardiamente, de afirmar um compromisso mínimo com a democracia e deixar claro que, contra Bolsonaro, apoiam quem for necessário. Infelizmente, quase todas são, como FHC ou Cristovam Buarque, políticos já aposentados. As lideranças ativas dos partidos de direita não têm esta postura.

Quem diria: elas são mais danosas para a democracia do que o velho Centrão – que, afinal, está aí para se vender a quem quer que seja.

*Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
11
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
12
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
13
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
14
A figura do pai
13 Mar 2026 Por SAULO MATIAS DOURADO: Nos filmes indicados ao Oscar, a figura do pai emerge como sintoma de uma época que perdeu a direção do futuro e busca na transmissão um sentido
15
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES