Movimentações no Congresso

Carlos Zilio, VIDA VIVIDA, 1970, caneta hidrográfica sobre papel, 47x32,5
image_pdf

Por ANDRÉ SINGER*

A saída do DEM e do MDB do bloco de apoio ao governo irá afetar a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados

As bancadas do MDB e do DEM, somando 63 deputados, decidiram se afastar do grupo – conhecido como “blocão” – que tem apoiado sistematicamente o governo federal. O afastamento dessas bancadas não inviabiliza a atuação do governo na Câmara dos Deputados, pois ele continua contando com o apoio potencial de cerca de 200 deputados que permanecem na assim chamada “base governista”.

Esta decisão, no entanto, acarreta uma consequência de médio prazo importante, pois irá afetar a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, a ser realizada em fevereiro de 2021; na qual se decidirá a sucessão do atual presidente Rodrigo Maia (deputado do DEM). A presidência da Câmara dos Deputados é uma peça chave, pois o seu presidente é o único que pode autorizar um pedido de impeachment para ser encaminhado ao plenário do Congresso.

No contexto de polarização em que vivemos – mais intensa antes, no mês de junho quando a prisão do ex-PM Fabrício Queiroz fez o Presidente da República deter a ofensiva que vinha encenando desde o começo da pandemia – a eleição da presidência da Câmara será muito importante.

Essa movimentação influencia o quadro político nacional na medida em que coloca uma espécie de incerteza sobre o futuro do governo Bolsonaro. Neste momento, o governo Bolsonaro, com a aliança que fez com o Centrão conseguiu bloquear temporariamente as propostas de impeachment encaminhadas por setores democráticos da sociedade. Estes setores entendem que está em curso no Brasil uma escalada autoritária que precisa ser interrompida.

No entanto, como haverá uma disputa em fevereiro do ano que vem para a presidência da Câmara dos Deputados e pode ser eleito alguém que tenha certo grau de independência, essa questão pode se recolocar. Não é que ela vá se recolar automaticamente, porque esses dois partidos, o MDB e o DEM, tem tido uma posição bastante ambígua em relação ao governo. Mas, de todo modo tem mantido uma posição diferenciada em relação aos partidos que estão fielmente com Bolsonaro, pelo menos enquanto durar esse acordo estabelecido com o Centrão, a negociação que ofereceu cargos no governo em troca de apoio no Congresso Nacional.

*André Singer é professor titular de ciência política na USP. Autor, entre outros livros, de O lulismo em Crise (Companhia das Letras).

Texto estabelecido a partir de entrevista concedida a Gustavo Xavier, na rádio USP.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES