O capítulo atual da luta de classes

Imagem: Eugene Liashchevskyi
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Por LEONARDO KOURY MARTINS*

Não podemos perder a dimensão de que o povo brasileiro não pretende terminar as suas ações após a posse do atual presidente

A esperança talvez seja a palavra mais significativa para descrever o que vem acontecendo nos corações de milhões de brasileiras e brasileiros nessas primeiras semanas do ano de 2023. Os corações de cada uma e cada um de nós se exaltaram entre tantas cores e necessidades de um novo amanhã. Por mais triste que seja o ato de vandalismo que aconteceu em Brasília neste janeiro, serviu para provar que estamos no caminho certo.

Nossas mentes e corações ainda estão captados nas imagens dos atos de rua que elegeram Lula. Os tons de verde, amarelo, vermelho, preto, lilás e de tantas outras cores avivadas na nossa diversidade apresentam a importância das lutas construídas pelo povo. Não por acaso, a classe trabalhadora é parte da narrativa por não desistir de construir um projeto popular para o Brasil.

Mas é necessário ressaltar, para que esse projeto que se configura como a alternativa de mudança ao passado violento, patriarcal, patrimonialista e autoritário que o país tem se encontrado desde a colonização portuguesa, a nossa luta ainda não acabou. Se apresentar contrários à opressão que atravessa os nossos séculos enquanto nação é perceber a potencialidade que os movimentos sociais, sindicais e populares carregam enquanto memória o aprendizado da resistência.

Na última década, após vivenciar um golpe de Estado, o povo brasileiro, apesar de toda ótica neoconservadora e neoliberal que norteava os governos sucessores da democracia, não deixaram de lutar contra as opressões postas. Os anos de 2016 a 2022 foram marcados pelo aumento da pobreza e da fome, pela violência policial, pela ampliação do racismo e do feminicídio. Mas os movimentos e organizações populares estavam nas ruas denunciando este cenário, sem desistir.

O atual capítulo da luta de classes, escrito dia a dia em nosso país, foi o espelho para o Fora Temer que barrou diversos retrocessos na pauta das contra-reformas trabalhista e previdenciária. Novamente estavam os movimentos no “Ele Não” e no Fora Bolsonaro denunciando a desinformação e o genocídio. A organização de comitês populares construiu alternativas para a liberdade de Lula e também para a sua vitória eleitoral.

Mas não podemos perder a dimensão de que o povo brasileiro, através dos movimentos e organizações que compõem suas frentes de luta, não pretende terminar as suas ações após a posse do atual presidente. As frentes de luta serão motor de cobrança e sustentação para garantir um governo do povo, para que seja o mais democrático e esperançoso de todos os tempos.

Como contraponto, a disputa da narrativa contra o fascismo, o ódio e as fake news ainda são uma realidade e todas as pessoas que acreditam em um projeto popular para o Brasil precisam estar atentas. O projeto popular que queremos vai além da eleição, visa organizar a sociedade em geral para criar bases de uma outra ordem de sociedade longe da opressão do sistema capitalista.

Este projeto é constituído pela legitimidade das nossas lutas desenhadas século após século, entre a escravidão, a ausência dos direitos civis, pela liberdade de expressão e contra todo autoritarismo e arbítrio como estávamos aprisionados. O capitalismo é o motor da desigualdade social e econômica e por isso se encontra na agenda das lutas populares.

O projeto de democracia compreende, em suma, a socialização da vida. Não é possível viver em um país que por uma esquina há alimentos em abundância e noutra se perpetua as periferias lotadas fome. No paralelo dos poucos bilionários que vivem na opulência do capital, se sustenta a miséria da barbárie posta.

A sociedade precisa de uma cidadania que garanta um modelo de seguridade social ampliada. É necessário fortalecer as políticas de saúde, previdência e assistência social, mas essa seguridade só será condizente com o seu papel de proteção quando desenvolvida através das potencialidades intersetoriais conjunto as políticas de educação, cultura e lazer. O país precisa de outro modelo econômico que vise fomentar novas estruturas de trabalho e renda. A liberdade, para nós, é uma meta!

E para isso, as pessoas devem estar atentas e fortes. Estar no dia a dia da construção deste projeto, nas ruas, nos atos, no diálogo com familiares e com as pessoas que mais convivemos seja no trabalho ou na vizinhança. Superar os muros da indiferença é reconhecer que ainda tem muita gente para construir conosco este projeto de Brasil, porque ele não se fará sozinho.

A esperança é enorme e o amor é o sentimento mais fácil de ser semeado do que o ódio. Nosso plantio deve ser cotidiano no campo e na cidade, nas fábricas e nos becos. Deve estar dentro do ônibus ou no almoço de domingo em família. Se reconhecer enquanto classe trabalha está no espelho do que nos unifica. É o sonho de uma sociedade justa e igualitária que nos permite esperançar pelo amanhã.

Mais uma vez o povo venceu essa queda de braço, foi às ruas, ganhou as eleições e derrubou quaisquer intenções daqueles que não pretendiam construir um país a partir das necessidades concretas. É hora de chamar mais pessoas para continuar essa construção. É hora de valorizar os movimentos e as organizações que fizeram o trabalho de base, mesmo no momento em que existia o risco da pandemia, a ameaça da violência e a realidade da fome. Todo poder ao povo! Eu, tu, eles, elas e também nós: queremos.

*Leonardo Koury Martins é assistente social, professor, conselheiro do CRESS-MG e militante da Frente Brasil Popular.

 

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