O discurso do presidente

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Por Luciano Nascimento*

É imprescindível olhar as coisas como elas são: para uma parcela significativa da população, o presidente diz a verdade

Parte de imensa produção intelectual de Michel Foucault está centrada na reflexão sobre a verdade, suas condições de produção e de reconhecimento. Foucault busca nos textos clássicos gregos ocasiões em que o discurso verdadeiro está em cena e, a partir de então, sempre se valendo do procedimento arqueogenealógico de análise, mostra como algumas dessas cenas acompanharam a passagem do tempo e determinaram o modo como o ocidente lida, ainda hoje, com a verdade. A leitura foucautiana de Édipo-rei é exemplar disso.

De acordo com o filósofo-historiador francês, são três as condições necessárias para a emergência do discurso verdadeiro: a perfeita sintonia entre palavra e gesto, a assimetria entre os interlocutores – que implica risco para quem fala – e a coragem de quem, a despeito da assimetria desfavorável, fala o que pensa. Observando-se atentamente, de um lado, essas três condições e, de outro lado, o comportamento do atual presidente da República, surge uma possível explicação para suas atitudes e para o apoio que elas ainda recebem de perto de trinta por cento da população, segundo pesquisas recentes. A explicação possível é: para essas pessoas, o presidente diz a verdade.

A primeira condição para que um discurso seja reconhecido como verdadeiro é a perfeita sintonia entre palavra e gesto. É preciso tomar cuidado: não cabe, neste momento, pensar em evidência empírica, científica; fala-se apenas na superposição entre o dito e o feito. Assim, a verdade acerca da crença na salvação ou na purificação da raça por meio do sacrifício de vidas humanas só se estabelece de fato quando alguém, um homem ou um Estado nacional, pega em armas e mata pessoas. O homem-bomba e o governante genocida têm em comum isto: a morte das vítimas é a prova cabal da verdade das palavras tornadas fatos.

Sob esse aspecto, é inegável que o atual residente do Palácio da Alvorada diz a verdade. Em campanha deixou claro que não reconhecia o direito dos indígenas à terra; uma vez no poder, foi no mínimo indelicado com o cacique Raoni, e parece não se esforçar muito para não ser tomado por indiferente à escalada da violência contra os líderes das nações indígenas. Também em campanha, e mesmo antes dela, o presidente sempre demonstrou especial apreço por armas de fogo e pela indústria do armamento; eleito, toma diversas atitudes que buscam armar a população e restringir o controle do Estado a dados sobre compradores de armas e munições. Ao longo de sua vida pública, o líder do executivo mostrou-se afeito a aproximações entre a coisa pública e a privada, seja se esforçando para tornar políticos seus próprios filhos, seja distribuindo cargos comissionados entre amigos e parentes; sentado na principal cadeira da República, sente-se à vontade para nomear amigos para altos cargos, a despeito de manifestações de desaprovação de adversários e até de aliados. Ele acredita que, por ser presidente, pode fazer o que quiser. E tem feito. Logo, para muita gente, a verdade está com ele.

A segunda condição para que se reconheça um discurso verdadeiro é a assimetria de forças: quem fala é, a princípio, visto como fraco, como menos poderoso do que seu interlocutor. Diante dessa diferença de poder, quem, mesmo em desvantagem, se expõe ao risco de desagradar, é visto como verdadeiro, autêntico. A convivência mais próxima com adolescentes basta para revelar o quanto essa tal “autenticidade” pode ser enganosa… Pouco importa: em muitas circunstâncias, para muitas pessoas, a verdade está com quem, mesmo se arriscando, diz o que pensa, heroicamente. Ou, se preferirem, miticamente.

De novo, o mandatário brasileiro, com sua caneta Bic em mãos e sua fala às vezes errática e titubeante, mostra-se humilde e frágil, quase um Daniel na cova dos leões – estes, os homens bem vestidos e de fala fluente, de difícil compreensão para boa parte dos brasileiros. Alguém que assume não ler o que assina – porque “não consegue interpretar” – facilmente gera identificação com boa parte do povo, que também tem dificuldades de interpretação e muitas vezes é lesado por isso. Esse processo de identificação potencializa o reconhecimento da verdade nas palavras do presidente. Afinal, quem nunca se sentiu impotente diante de alguma incapacidade? Lembrar que não se está falando de qualquer um, mas do chefe do executivo nacional, de quem se espera ótima capacidade de leitura e interpretação de textos, é um requinte intelectual ainda inacessível para muita gente, num país recém-saído da escravidão e ainda ameaçado pela “Escola sem partido”.

A última característica do discurso verdadeiro é a coragem de quem fala. Essa coragem está diretamente relacionada, claro, à assimetria de forças de que já falamos. Acontece que, em determinados cenários, a percepção dessa coragem (de dizer a verdade) pode ser hipertrofiada. O enfrentamento a um monstro assassino, por exemplo, confere ao indivíduo que leva a termo essa batalha grande prestígio social. Édipo enfrentou e venceu a Esfinge, e se tornou rei de Tebas; Jair Messias enfrentou Adélio Bispo, sobreviveu ao atentado a faca e virou presidente da República – sem comparecer a nenhum debate de ideias com os demais candidatos. É um evidente sinal de coragem sobreviver a um atentado e continuar exercendo a mesma atividade que supostamente o motivou, exercício este alegadamente fundado na oposição à “velha política”, ao establishment. Não esmorecer mesmo diante do risco de morte, em defesa de um ideal, é sinal de se estar falando a verdade. Boa parte da população brasileira acredita que o presidente fez isso.

De novo é preciso lembrar que, de acordo com Michel Foucault, a comprovação empírica de um fato é só mais uma maneira de se produzir e reconhecer um discurso verdadeiro, mas não é condição necessária para que qualquer discurso seja tido, a priori, como verdadeiro. Assim não fosse, não haveria tantas pessoas descrentes do formato esférico da Terra. Assim não fosse, mais gente reconheceria o absurdo e a incongruência patentes em um chefe de Estado desprezar dados científicos acerca de uma pandemia em curso, contrariar orientações médicas da Organização Mundial da Saúde, e incentivar o povo a lutar contra a única medida comprovadamente eficaz na diminuição do contágio e das mortes, o distanciamento social.

Hoje o Brasil já tem mais mortes por COVID-19 que a China, origem da pandemia. Confrontado com a realidade matemática da tragédia incontestável, o presidente da República Federativa do Brasil respondeu: “E daí? Lamento, que que você quer que eu faça? Sou Messias, mas não faço milagre”.

Não restam dúvidas: ele diz a verdade, atendendo a cada uma das condições que Foucault elencou. De fato, pelo falar e pelo agir, ele não se importa com o elevado número mortes (questiona a autoridade da OMS e sabota o isolamento social). Defendendo o retorno à normalidade, ele realmente acredita ser um homem lidando com um inimigo muito mais poderoso, a pandemia, da maneira mais adequada: com objetividade e “sem histeria” (defendendo os interesses do capital? sim, também sem dúvida, mas, sobretudo, naturalizando a morte, conforme a formação de militar combatente). Publicando, em redes sociais, em meio à maior crise sanitária do planeta em décadas, fotos de prática de tiro, num momento em que centenas de seus conterrâneos estão sendo enterrados diariamente em valas comuns, ele ostenta a coragem de enunciar a verdade óbvia: a vida continua. Para ele.

Por mais duro que seja lidar com isso, é imprescindível olhar as coisas como elas são: para uma parcela significativa da população, o presidente diz a verdade. Contra tudo e contra todos. Para essas pessoas, ele realmente é um mito e muito provavelmente não vai deixar de ser, aconteça o que acontecer.

*Luciano Nascimento é doutor em Literaturas pela UFSC e professor do Colégio Pedro II

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