O livro de receitas

Imagem: Ciro Saurius

Por FLAVIO AGUIAR*

Estamos vivendo uma situação em que, para tentar delinear o quadro político, é preciso ir muito além das molduras

Passada a tempestade eleitoral, recolhem-se as bandeiras, lambem-se as feridas, soltam-se alguns foguetes e abre-se o livro de receitas. Os primeiros comentários à esquerda vão de uma euforia algo juvenil a uma depressão um tanto crepuscular, lembrando mesmo uma oscilação bipolar.

Do lado cautelosamente alegre diz-se que, apesar dos magros resultados, colhe-se uma nova safra de lideranças emergentes, capitalizadas sobretudo com Boulos, Manuela e Marília (Edmilson venceu, mas este é dos mais veteranos), além de conquistas em outras cidades. Há alguma verdade nisto. Do lado mais melancólico, sublinha-se a série de derrotas, o encolhimento das bases esquerdistas, prega-se até mesmo a necessidade de uma penitência moral por parte de lideranças, exaltando-se valores como humildade, contenção, ascese. Também há algo de verdade nisto.

Do lado dos analistas de direita, o canto é mais uníssono: mais uma vez prega-se que o PT agoniza, e que o eleitorado, majoritariamente, preferiu o “centro”, derrotando “os extremos”, ou “o equilíbrio” ao invés das “aventuras”. São molduras que tentam enquadrar o quadro nebuloso que emerge da verdadeira pulverização que ocorreu nestas eleições.

Estamos vivendo uma situação em que, para tentar delinear o quadro, é preciso ir muito além das molduras. Do lado das esquerdas, está havendo uma remodelação muito profunda de sua base tradicional, que é o mundo do trabalho. Chame-se lá como quisermos e pudermos: uberização, precarização, fragmentação, etc. O peso político do sindicalismo urbano tradicional e dos movimentos campesinos, este sim, encolheu. Permanece de pé, mas sua capacidade de liderança perdeu a força que tinha. Esta liderança agora está em disputa pela pauta do que vem se chamando, genericamente, de “movimentos identitários”, que investem vigorosamente contra o universo dos preconceitos que estão revivendo como brasas, insufladas pelos sopros das forças de extrema-direita, de que falaremos mais adiante.

Note-se que estas mudanças no mundo do trabalho não são exclusividade brasileira. As bases trabalhistas da social-democracia europeia, por exemplo, também passam por mutações dramáticas. Exemplo, um dentre vários: na última eleição britânica, o chamado “Cinturão Vermelho”, na divisa carvoeira entre a Inglaterra e a Escócia, base tradicional do Labour, votou maciçamente com Boris Johnson e seu conservadorismo rançoso, em nome de preservar direitos diante do Brexit. Latinos na fronteira do Texas com o México, pelo que se sabe, votaram com Trump, também em nome de preservar posições em indústrias tradicionais, como a petroleira e seus derivados.

Voltando ao Brasil, o que temos pelas esquerdas são estruturas e lideranças partidárias criadas, em sua maioria, dentro de um universo trabalhista que está deixando de existir enquanto emerge com muito mais força outro universo de expectativas, por vezes carregadas de individualismos exacerbados, em que nenhum grupo social quer abrir mão do que quer que seja, forjando, entretanto, novos processos de expressão coletiva que ainda estão se definindo.

Por este lado sim, deve-se saudar a emergência daquelas e de outras novas lideranças que vem se mostrando capazes de reatar os laços das esquerdas com a juventude, laços que muitas das lideranças tradicionais perderam. Aproveito pra fazer uma observação literária: tenho recomendado com frequência a leitura ou releitura de um romance de Herman Hesse, “Narciso e Goldmund”. Publicado em 1930, ambientando-se no cenário da Germânia medieval, o romance espelha, ao mesmo tempo, a polaridade nietzschiana entre a lucidez apolínea (de Narciso, mestre professor e depois abade) e a sagacidade da entrega dionisíaca ao universo das paixões (o artista e atraente discípulo Goldmund) e a angústia de ambos os personagens centrais diante de um mundo em que a antiga moldura tradicional está naufragando e uma nova está emergindo. Sabe-se perfeitamente o que este desaparecendo, sem que se possa sequer delinear o que está nascendo, ainda que se tenha a certeza de que algo está de fato emergindo destas sombras em que tudo mergulha.

Mas o mundo das direitas também está em transformação. O que vimos nestas eleições foi uma forte rearticulação de alguns de seus campos tradicionais, como o PSDB, o MDB e o DEM, diante da emergência de seus aliados em 2018, e hoje rivais, os milicianos e os militares de farda ou de pijama aglutinados em torno  da quadrilha bolsonarista, junto com os tão grotescos (o que não os faz inofensivos, pelo contrário) quanto trapalhões (idem) olavistas, pastores, economistas de fancaria, anti-ambientalistas, etc.

Aqueles campos tradicionais submergiram na eleição de 2018, e em seu lugar ou em seus espaços emergiu uma direita sem qualquer sombra de escrúpulo ou civilidade. Exemplo desta nova falta de caráter político: a Lava Jato e seu cortejo de impropriedades jurídicas que instalaram um clima de vale-tudo contra seus alvos preferidos: o PT e Lula.

Dizer que os seis mil militares, por exemplo, que ocupam cargos no governo de Bolsonaro representam as Forças Armadas é menos do que meia verdade. São muito mais os “amigos da boquinha” melhorando seu quinhão salarial, muitos aprendizes de feiticeiros sem o menor preparo para  os cargos que ocupam. E o despreparo do conjunto de invasores do governo federal se torna dramático com as trapalhadas na economia, as impropriedades no meio-ambiente e nos direitos humanos, além dos absurdos em matéria de política externa do fritador de hambúrgueres na Comissão de Relações Exteriores da Câmara Federal e do discípulo de astrólogo no Itamaraty.

Mas esta nova coleção de estupidez conseguiu impor às direitas tradicionais o seu estilo: mentir sem pejo, insultar, rebaixar a retórica ao calão e por aí adiante, mobilizando uma gama enorme de preconceitos, como misoginia, homofobia, racismo, desprezo pela vida dos outros, etc..

Um exemplo também dramático da imposição deste estilo foi a campanha de Sebastião Melo, em Porto Alegre, nesta eleição de 2020. O candidato proclamava-se como um quadro “emergente do velho MDB”; no entanto, sua campanha foi engolfada completamente (desconheço sua participação nisto, mas ele pode ser acusado, no mínimo, de omissão) pelo estilo completamente sujo de fake news e insultos sórdidos contra a candidata adversária, Manuel D’Ávila, do PCdoB. Alguns analistas veem no resultado do pleito de 2020 um recuo dos bolsonaristas diante das direitas tradicionais. Pode ser, mas isto os torna ainda mais perigosos, pois certamente não vão querer largar as bocas e proteções legais que a atual situação lhes traz.

À moda de Trump, o ocupante do Palácio do Planalto já investe contra a suposta “falta de lisura” do processo eleitoral, pré-anunciando uma das faces mais encardidas da batalha de 2022. Uma coisa é certa: pelo andar da carruagem, as direitas estão renunciando a qualquer princípio de civilidade nos futuros embates eleitorais ou outros, o que prenuncia também dias mais difíceis para as esquerdas. Novamente, recorro a uma sugestão literária: a leitura, ou releitura do romance “Crônica dos pobres amantes”, do italiano Vasco Pratolini, publicado em 1947. Ambientado em 1925 e 1926, o romance focaliza a história dos moradores de uma rua de Florença, a Via del Corno, e suas vicissitudes durante a consolidação do Fascismo na Itália e de como tudo o que era sólida tradição no conservadorismo até aquele momento se dissolve perante a emergência do novo estilo assassino de fazer política.

*Flávio Aguiar é jornalista, escritor e professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).