As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Os correios e a revolução

Imagem: Jimmy Chan
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por JEAN PIERRE CHAUVIN*

Circunstâncias que permitem mensurar algum poder e alcance das palavras

“Atualmente, o imperialismo e a dominação dos bancos “desenvolveram” até uma arte extraordinária ambos estes métodos de defender e por em prática a onipotência da riqueza em quaisquer repúblicas democráticas”
(Vladimir Ilitch Lênin. O Estado e a revolução)

Pauliceia, 24 de janeiro, por volta das 14hs. A agência dos correios de costume está mais agitada que o usual, talvez por ser véspera de feriado.

Enquanto aguardo pelo chamado da senha C494, colo a aba do envelope que contém um livro para o jornalista Bob Fernandes. Na mochila, também há livros que pretendo enviar para o pesquisador Murillo Barros Nunes – leitor atento da tradição marxiana, em suas múltiplas vertentes dos séculos XX e XXI. A banca acontecerá em menos de um mês e farei gosto que ele folheie os materiais, visando a pesquisas futuras.

O painel anuncia letra e número. Dirijo-me, sorridente, para o caixa no. 4. Serei atendido por aquele senhor muito simpático e de boa prosa, que extrapola o contato frio e pragmático do envio de correspondências. Ele calcula aproximadamente quanto medem as lombadas dos livros. “Essa caixa serve”. Pede que eu preencha os campos reservados a destinatário e remetente, enquanto registra o outro envelope.

Reparo que ele está a examinar as capas… Receio que ele faça algum comentário que desabone a doutrinação esquerdista a distância. Começa: “Estava vendo os livros, aqui”. Sim…, respondo, é para um aluno que estuda esse pessoal. “Ah, está passando pra frente, então?”. Ele emenda: “Particularmente, acho que este sistema não deu certo”.

Surpresa das boas! Durante alguns minutos, trocamos figurinhas, enquanto ele veda a caixa com fita adesiva e calcula o valor do registro e envio. Re-olha as capas e diz, apontando para O Estado e a revolução, “este livro é incrível”. Livros acondicionados, agora observa que o país se tornou um grande importador, contrariando a sua vocação, e relembra o dia em que viu um galpão do aeroporto de Cumbica onde que 95% das encomendas provinham da China. Menciono o “capitalismo de Estado”, ao que ele responde que a expressão foi usada por Eric Hobsbawm, mas que era de matriz stalinista.

O senhor Luís parece apreciar a conversa. Sem perder o tempo dos seus afazeres, conta que trabalhou numa editora e que o dono afirmava que os Estados Unidos eram o pior país do planeta. Relembro as invasões em nome da democracia e da liberdade… Ambos rimos quando lembramos que os brasileiros realmente acreditam na ameaça comunista. “Eles nem sabem o que é isso!”.

O diálogo vai terminar. Ele lança uma mensagem de esperança: “Eu acho que o pessoal está percebendo, né? Veja esse caso das Lojas Americanas…”. Ele me pergunta o nome novamente. “Jean, vou pedir que preencha esse formulário e deixe perto da caixa, depois. Terei que sair um pouco para resolver um negócio”. E logo, “Vou te dar duas fichas, caso erre o preenchimento”. Epifania: o senhor Luís estende a mão e o cumprimento materializa solidariedade.

Estou meio comovido. Mais sorridente do que quando cheguei à agência. Preencho os dados de remetente e destinatário sobre o balcão externo, onde fica o frasco de cola. Retorno, com expectativa de nos despedirmos outra vez. De fato, havia deixado o posto momentaneamente. Dobro o formulário e o coloco sob a caixa que abriga os livros.

Ao deixar a agência, cogito que seria importante registrar esse acontecimento extraordinário. Na esquina seguinte, penso quão bom seria ter um tio como o senhor Luís. Diferentemente dos parentes que conheci, ele jamais tentaria me “converter” para a pseudo social-democracia ultraliberal dos tucanos; menos ainda para o totalitarismo arrasa-quarteirão do mitômano, capitão dos tolos, fã de Brilhante Ustra e cuja “especialidade é matar”.

Vamos ao que mais importa. De fato, foi uma jornada extraordinária. Circunstâncias como essa permitem mensurar algum poder e alcance das palavras. Dia desses, passo pela agência e deixo este arremedo de crônica com o senhor Luís.

*Jean Pierre Chauvin é professor na Escola de Comunicação e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Mil, uma distopia (Luva Editora).

 

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Remy José Fontana Salem Nasser Gilberto Maringoni Otaviano Helene Tarso Genro Daniel Afonso da Silva Eugênio Trivinho Celso Favaretto Luiz Marques Dennis Oliveira Leda Maria Paulani Luiz Renato Martins Ladislau Dowbor Alexandre Aragão de Albuquerque Ricardo Antunes Dênis de Moraes André Márcio Neves Soares Leonardo Sacramento Carla Teixeira Lincoln Secco José Costa Júnior Ricardo Fabbrini Daniel Brazil Érico Andrade Valério Arcary Rodrigo de Faria Carlos Tautz Paulo Capel Narvai Milton Pinheiro Marcos Aurélio da Silva Denilson Cordeiro Chico Whitaker Henry Burnett João Sette Whitaker Ferreira Caio Bugiato Manuel Domingos Neto Fábio Konder Comparato João Adolfo Hansen Luis Felipe Miguel Marcelo Módolo Yuri Martins-Fontes Marjorie C. Marona Luiz Costa Lima Luiz Eduardo Soares Valerio Arcary Manchetômetro Paulo Sérgio Pinheiro Sergio Amadeu da Silveira José Raimundo Trindade Francisco de Oliveira Barros Júnior Jean Marc Von Der Weid André Singer Tadeu Valadares João Paulo Ayub Fonseca João Carlos Loebens Eliziário Andrade José Geraldo Couto Flávio R. Kothe Alexandre de Lima Castro Tranjan Michael Löwy Thomas Piketty Gerson Almeida João Lanari Bo Luís Fernando Vitagliano Jorge Branco Gabriel Cohn Francisco Pereira de Farias Sandra Bitencourt Renato Dagnino Luiz Bernardo Pericás Chico Alencar Julian Rodrigues Fernão Pessoa Ramos Berenice Bento Bento Prado Jr. Jorge Luiz Souto Maior Eleutério F. S. Prado Marcus Ianoni Mariarosaria Fabris Luciano Nascimento Ronaldo Tadeu de Souza Ronald León Núñez Antônio Sales Rios Neto Priscila Figueiredo Igor Felippe Santos Ricardo Abramovay Leonardo Boff Ricardo Musse Everaldo de Oliveira Andrade Kátia Gerab Baggio José Machado Moita Neto Paulo Nogueira Batista Jr Eduardo Borges Juarez Guimarães Slavoj Žižek José Luís Fiori Walnice Nogueira Galvão Antonino Infranca Marilia Pacheco Fiorillo Vinício Carrilho Martinez Andrew Korybko Anderson Alves Esteves Luiz Roberto Alves Anselm Jappe Bernardo Ricupero Bruno Machado Benicio Viero Schmidt Roberto Bueno Lorenzo Vitral Airton Paschoa Armando Boito Alysson Leandro Mascaro João Carlos Salles Henri Acselrad Samuel Kilsztajn Maria Rita Kehl José Micaelson Lacerda Morais Luiz Carlos Bresser-Pereira Ari Marcelo Solon Vanderlei Tenório Paulo Fernandes Silveira Marilena Chauí Lucas Fiaschetti Estevez Rafael R. Ioris Marcos Silva Mário Maestri José Dirceu Afrânio Catani Francisco Fernandes Ladeira Bruno Fabricio Alcebino da Silva Fernando Nogueira da Costa Atilio A. Boron Heraldo Campos Eugênio Bucci João Feres Júnior Roberto Noritomi Annateresa Fabris Elias Jabbour Claudio Katz Plínio de Arruda Sampaio Jr. Paulo Martins Boaventura de Sousa Santos Celso Frederico Flávio Aguiar Alexandre de Freitas Barbosa Rubens Pinto Lyra Osvaldo Coggiola Gilberto Lopes Vladimir Safatle Michael Roberts Tales Ab'Sáber Leonardo Avritzer Marcelo Guimarães Lima Liszt Vieira Jean Pierre Chauvin Luiz Werneck Vianna Eleonora Albano Antonio Martins Daniel Costa Ronald Rocha

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada