Terrapreta

Regina Silveira
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre o romance de Rita Carelli

O romance de estreia de Rita Carelli, Terrapreta, insere uma inovadora visão na literatura brasileira contemporânea. Com elementos nitidamente autobiográficos, a autora, nascida em 1984, relembra e reelabora um mergulho existencial no meio dos povos do Alto Xingu.

A adolescente Ana, que perde a mãe em São Paulo e é obrigada a acompanhar o pai, arqueólogo, no meio de um território indígena, se coloca na zona de intersecção entre vários mundos conflitantes. A transição da infância para a puberdade, a tímida e difícil aproximação entre culturas, crenças e modos diferentes de conduzir a vida, o estabelecimento de relações de amizade e afeto que flertam com o surgimento do desejo sexual.

O que um branco como eu só pode definir com palavras cruas, como no parágrafo acima, é retrabalhado por Rita Carelli de forma confessional, sensorial, sem nunca perder o fio da narrativa. De maneira engenhosa mescla tempos distintos, com ações que se passam em São Paulo, Xingu e Paris, onde Ana vai estudar e de onde retorna para uma reconexão com os liames que a prendem, buscando desatar os nós.

Embora seja seu primeiro romance, Rita Carelli conhece os segredos da escrita. Autora de livros infanto-juvenis que abarcam o universo mitológico indígena, é também realizadora de livros-filmes como Um dia na aldeia (2018). Seu pai, Vincent Carelli, é um antropólogo e documentarista conhecido pelo seu trabalho junto com povos indígenas brasileiros.

Essa carga biográfica poderia conduzir o romance de Rita a um mero relato “de formação”, com sabor antropológico, mas sem criação autêntica. No entanto, em Terrapreta nos deparamos com uma narrativa, ora realista, ora poética, onde as lendas e tradições vão se entremeando de tal forma com a história que fluem com a naturalidade de um igarapé em meio à floresta.

A água assume um papel crucial em diversos momentos. O ritual dos banhos, a pesca, os diálogos à beira do rio, as lágrimas, a natureza líquida das mulheres, sintetizada no quase epílogo “Leito do rio”. Água é vida, fogo pode ser morte, para os povos da floresta. Num movimento contrário ao dos invasores brancos, que impõem seus valores e sua soja transgênica, Ana e seu pai são porosos, absorvem a cultura que lhes é ensinada, e lentamente se transformam.

Longe do romantismo de José de Alencar ou do viés político de Antonio Callado em Quarup, Rita Carelli constrói em Terrapreta uma narrativa onde o sufocamento dos territórios e povos indígenas emerge de forma clara no final, quando a protagonista volta de Paris para reencontrar sua “família” e fazer seu Kuarup pessoal.

A autora adverte em nota que os personagens são fictícios, e que criou um “amálgama cultural” do Alto Xingu. Até as palavras indígenas são inventadas, declara. No entanto, intuímos que a cosmogonia relatada é real, assim como os costumes e rituais. A cerimônia do Kuarup tem papel fundamental no romance, em seu significado básico: enterrar de vez, simbolicamente, os mortos, para que eles (e os vivos) possam ser livres da dor, da tristeza e da saudade.

Se em alguns momentos a descrição de mitos e cerimônias possa parecer didático, ao fim da leitura chegamos à conclusão de que o romance seria impossível sem esse recurso. O livro traz uma orelha elogiosa de Ailton Krenak, o que não é pouco. E Rita Carelli, que criou aqui uma obra sem paralelos, demonstra domínio narrativo e imprime veracidade em cada parágrafo, credenciais que lhe permitem se aventurar por novos caminhos ficcionais. Boa leitura para iluminar tempos sombrios, onde o extermínio de povos nativos, de destruição de florestas e envenenamento de rios, deixou de ser uma ameaça para ser realidade.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

 

Referência


Rita Carelli. Terrapreta. São Paulo, Editora 34, 2021, 240 págs.

 

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • Um estudo do caso Ailton Krenak1974__Identidade ignorada 21/07/2024 Por MARIA SILVIA CINTRA MARTINS: Prefiro sonhar com Krenak o parentesco com a natureza e com as pedras do que embarcar na naturalização do genocídio
  • Clarice Lispector no cinemacultura a paixão segundo g.h. 22/07/2024 Por LUCIANA MOLINA: Comentário sobre três adaptações cinematográficas da obra de Clarice Lispector
  • Que horas são no relógio de guerra da OTAN?José Luís Fiori 17/07/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: Os ponteiros do “relógio da guerra mundial” estão se movendo de forma cada vez mais acelerada
  • Filosofia da práxis como poiésiscultura lenora de barros 24/07/2024 Por GENILDO FERREIRA DA SILVA & JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Fazer filosofia é, para o Poética, fazer filosofia contemporânea, crítica e temática
  • Apagão digitalSergio Amadeu da Silveira 22/07/2024 Por SÉRGIO AMADEU DA SILVEIRA: A catástrofe algorítmica e a nuvem do “apagão”
  • A disputa de Taiwan e a inovação tecnológica na ChinaChina Flag 20/07/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: A China já é hoje a líder mundial em 37 das 44 tecnologias consideradas mais importantes para o desenvolvimento econômico e militar do futuro
  • A produção ensaística de Ailton Krenakcultura gotas transp 11/07/2024 Por FILIPE DE FREITAS GONÇALVES: Ao radicalizar sua crítica ao capitalismo, Krenak esquece de que o que está levando o mundo a seu fim é o sistema econômico e social em que vivemos e não nossa separação da natureza
  • A radicalidade da vida estéticacultura 04 20/07/2024 Por AMANDA DE ALMEIDA ROMÃO: O sentido da vida para Contardo Calligaris
  • 40 anos sem Michel Foucaultveneza 13/07/2024 Por VINÍCIUS DUTRA: O que ainda permanece admirável na forma de Foucault de refletir é sua perspicácia em contestar ideias intuitivamente aceitas pela tradição crítica de pensamento
  • A questão agrária no Brasil — segundo Octávio IanniJose-Raimundo-Trindade2 19/07/2024 Por JOSÉ RAIMUNDO TRINDADE: As contribuições de Ianni podem auxiliar a reformular o debate agrário brasileiro, sendo que as obras do autor nos apontam os eixos para se repensar a estrutura fundiária brasileira

PESQUISAR

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES