8 de janeiro – a guerra contra o Brasil moderno

image_pdf

Por JORGE BRANCO*

A tentativa de golpe foi antes de mais nada uma batalha contra o Brasil que evoluiu, uma tentativa de retroceder ao tempo passado

O início do século XXI está marcado por uma “descoberta” desconcertante. O que o senso democrático médio, aí incluído a maioria do próprio campo político de esquerda, considerava ou imaginava superado e que ninguém sonharia ou atrever-se-ia a defender ou propagar, passou a ser dito, publicado, defendido e principalmente, ouvido em público. Com cada vez mais intensidade.

A defesa da ditadura, da tortura, do golpe de 1964, da extinção de direitos sociais e a apologia à violência, ao racismo, à misoginia e à violência sexual passaram a ser manifestações emergentes que conferiam sentido e senso grupal a uma visão de mundo e a uma ideologia. O reacionarismo e os elementos neofascistas deram sentido a uma explicação desajustada ao mundo moderno e com nítido viés destruidor e revanchista. Uma explicação que transformou o processo civilizatório e o caminho tortuoso da construção da igualdade em responsáveis pelos desajustes provocados pelo neoliberalismo. Investidor fundamental dessa ascensão fascista.

Uma intentona golpista, eficaz como a de março de 1964 ou fracassada como a do General Frota em 1975, não se dá como fato isolado. A tentativa de golpe político resulta de um processo de desconstituição ideológica e até moral das bases de um bloco social e de um governo.

As investigações a respeito da tentativa de golpe de 08 de janeiro, levadas a cabo nestes 12 meses, sejam elas da CPI, da PF ou de jornalistas acurados, foram revelando que se tratou de uma ação coordenada, baseada em condições políticas e sociais que foram sendo construídas desde o impeachment fraudulento de 2016. Contudo, essas condições foram volumosamente ampliadas durante o governo de Jair Bolsonaro. A intentona golpista de 08 de janeiro foi meticulosamente preparada por Jair Bolsonaro e seu núcleo mais próximo durante os quatro anos de seu governo.

Este grande campo de extrema direita, reacionário, liderado pelo governo de Jair Bolsonaro, mobilizou-se em torno da narrativa de que as conquistas de caráter progressista seriam um projeto de destruição dos valores e, em última instância, da própria sociedade brasileira, que estaria sendo vítima de uma ruína moral. Uma campanha de verdadeiro terror articulado por uma operação densa nas redes digitais e por veículos de comunicação sobre o que poderia acontecer se o que consideravam como “esquerda” conquistasse o poder.

Dia 08 de janeiro de 2023 foi um dia infame. Ali se achincalharam, por uma vanguarda de indivíduos crentes dos maiores disparates ideológicos e sustentados por frações de classes empresariais dispostas a eliminar todos os obstáculos à sua economia de rapina, os símbolos da frágil democracia brasileira. O alvo, contudo, eram os avanços progressistas que claudicantemente foram sendo conquistados ao longo da democracia.

O alvo das depredações e da violência eram os direitos trabalhistas, a emancipação das mulheres, a igualdade étnica, o orgulho LGBTQUIA+, os sindicatos, as organizações sociais por direitos, enfim o que há de moderno na sociedade atrasada. A tentativa de golpe foi antes de mais nada uma batalha contra o Brasil que evoluiu, uma tentativa de retroceder ao tempo passado. A reação à democracia, à esquerda e aos movimentos sociais é, no fundamental, uma reação à ideia de um mundo igualitário.

*Jorge Branco é doutorando em ciência política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).


Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES