Lembranças reflexas

Roy lichtenstein, Composição II, 1996
image_pdf

Por TARSO GENRO*

O desafio de Lula para este terceiro mandato não é somente ser “melhor”, mas é ser “outro”

Na manhã de 29 de dezembro de 2022 estamos – como muitos que escreveram de maneira incessante sobre estes quatro anos de terror e desesperança – assaltados por um misto de alegria e de expectativas sobre o futuro. Sou, como muitos da minha geração, um homem comum de família vinda do interior do Rio Grande – Santiago, São Pedro do Sul, São Borja e finalmente Santa Maria – da geração que aderiu à militância socialista pelo heroísmo da Guerra de libertação do Vietnam e pela utopia esperada na Revolução Cubana. Fui vereador em Santa Maria e devo a Porto Alegre a projeção nacional, que me permitiu ajudar o meu país, na sua reconstrução democrática que começa com a Constituição de 1988.

A história luzia muito próxima de nós e não poderia ser ignorada pelos adolescentes que, como eu, amavam a política, Chico Buarque, Glauber Rocha e Jorge Amado. Ao longo da vida, todavia, estive atento a uma sensata lição paterna que me parecia, à época, exagerada. Eu ouvia do Pai, desde a adolescência, o seguinte: “política não é profissão, cuida de ter uma profissão.” E outra sentença, na pré-adolescência, quando eu queria parar de estudar, porque a escola me aborrecia: “Esquece” – me dizia com enfado – “o Ginásio tu tira nem que seja de bengala!”. Com a minha mãe aprendi desde cedo que deveria ler Tolstoi, Dostoiévski, Érico Veríssimo e Pasternak e com ele – meu pai – aprendi o francês e as melhores lições de tolerância, combinada com as virtudes da moderação sem perder os princípios.

Assim fiz e aqui estou. Prossigo como “político” militante – por fora das eleições – e retomei a minha profissão (permanente na minha consciência política) numa dupla condição de vida que jamais abandonei, seja no outono de alguma desesperança, seja nas fibrilações de felicidade que também assaltam as nossas vidas. Nesta dupla condição, portanto, avoco-me o direito de hoje fazer um texto meio ambíguo, que misture um pouco a sensação de felicidade e a posse do presidente Lula, com a preocupação solidária sobre o personagem Lula que, na sua figura quase épica, é o depósito das nossas esperanças. Dois pensamentos me assaltaram, desde a vitória apertada naquele dramático segundo turno: o passado é irresgatável, porque ele se modifica constantemente; e o futuro pode ser trágico, quando se pensa que ele pode ser escrito à nossa imagem e semelhança.

Posso dizer que conheço muito bem o presidente Lula para afirmar que ele não será sufocado por qualquer um destes dois mitos que atacam as grandes personalidades da história que, pela ilusão da onipotência ou pela soberba, conseguem diluir o seu passado pela perda dos seus ideais originários, em momentos de pragmatismo sem princípios, ou mesmo obstruem o seu futuro, por excesso de voluntarismos juvenis. Lula é um dos quatro grandes líderes do país nos últimos 100 anos e o seu “Governo 3” – um Governo novo – será melhor que os demais. Mas o seu desafio não é somente ser “melhor”, mas é ser “outro”: antenado no mundo real em que tudo, dinheiro, prestígios, amizades, memórias, podem se dissipar rapidamente, como a própria vida num bombardeiro experimental na Ucrânia ou nos confins do russo, não mais soviético, muito menos utópico.

Penso que a aceitação numérica meramente ordinal “terceiro Governo Lula” precede uma questão – tanto mais ampla quanto mais complexa – que dá um significado distinto a este novo Governo. Mais do que ser um “terceiro”, é um “novo” Governo. Qual é este significado? É que o “terceiro Governo” – “novo Governo”, não deve ser só o mesmo, melhorado, mas outro. Muito outro. É mais do que um Governo modelar no combate à fome, que esteve atento à visão profética de Drummond, num poema clássico da sua obra espetacular, no qual Drummond dizia que “os homens pedem carne”. “Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei.”

Não basta oferecer bons direitos fundamentais nas leis, parecia dizer Drumond, sem oferecer as substâncias para uma vida elementarmente feliz. Na mensagem mais universal do seu segundo Governo, Lula deu um exemplo para o mundo, que não deve ser substituído, mas ressignificado, nestes tempos mais ásperos de guerra e destruição planetária. A luta contra a fome precede a tudo, mas Lula sabe, à exaustão, que isso é apenas o fundamento inicial de um projeto de nação que, para não se estabilizar como mera política compensatória, precisa de muito mais do novo Governo. Creio que Lula entende que seu terceiro Governo deverá ser agregado por novas prioridades estruturais, mas não custa solidariamente lembrar.

Primeiro, que o trabalho social que compõe o tecido básico da vida e da riqueza desloca-se, rapidamente, da fábrica moderna e do seu sindicalismo corporativo, para os fluxos de dinheiro especulativos e produtivos, de mensagens culturais, de novas demandas sociais, de processos variados de construção científica e de diversificação das novas tecnologias; sistemas originais de colaboração horizontal entre empresas emergem com as novas bases produtivas em plataformas inteligentes, que surgem e logo são superadas: pesquisa e produção, novos mercados e novas profissões, reluzem e – ao mesmo tempo – se dissipam e degradam o sistema do capital em escalas globais e nacionais. Destas transformações emerge um novo mundo do trabalho e um novo modo de vida, real e virtual, que está balizado pelos interesses dos trabalhadores industriais clássicos e tem novas demandas e novas formas de organização “sindical” e das suas perspectivas políticas.

Novos esquemas de poder global, num novo momento de organização da violência e da geopolítica dos países que definem o sistema-mundo, exigem um refinamento especial das nossas relações exteriores. Sobre estas, temos experiências edificantes desde a “era Geisel”, com destaque para os Governos progressistas na área, a partir de 1988, período em que brilhamos em termos planetários especialmente nos Governos Lula. A conexão do interno com o externo – tanto na economia como na Segurança Pública e na Segurança Nacional – demandam então uma revisão do Sistema Defesa Nacional, da Política econômica e do próprio Pacto Federativo, o que é urgente nas questões da Segurança Pública, que – no último período – esteve subordinada a uma relação “novo tipo” dos milicianos com o Estado, de forma completamente perversa e marginal às leis do país.

Entendo que a formação do Ministério do Governo Lula 3, revela mais uma vez o seu talento político excepcional e vai lhe permitir, imediatamente, incidir sobre a questão mais importante na conjuntura, face à aprovação da PEC do teto. Esta vantagem, todavia, vai se dissipar rapidamente, pois o combate à fome será “naturalizado” pelas mesmas forças políticas que naturalizaram as políticas necrófilas de Jair Bolsonaro, nas áreas da segurança e da saúde pública, até que a situação arrebentou. O governo Bolsonaro, então, implodiu e explodiu e a sua crise interna, de aumento da corrupção e de assassinato dos protocolos, se combinou com o seu despretígio internacional completo. A crise, portanto, começou a atrapalhar os negócios legítimos e os escusos, das classes dominantes, momento em que a armação da unidade neoliberal com o fascismo ruiu sem um estrondo, mas com um gemido.

Num próximo momento de crise da hegemonia neoliberal, além das concessões que Lula deverá fazer para a base diversa do Governo, que nos apoia (parte dela fisiológica) – neste preciso momento – a nossa política externa deverá estar profundamente articulada com as nossas políticas de recuperação econômica e de retomada da nossa soberania compartilhada no espaço internacional. Então o Presidente Lula vai se deparar com um outro verso de Drummond, para que o Brasil – integrado no mundo de forma novamente soberana – veja que seus “ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança”. Difícil, complicado, mas real. É o que nos espera no próximo período num planeta dilacerado pela voracidade do capitalismo, com sociedades que perderam seu senso de solidariedade humana e do mínimo respeito à vida alheia e que precisa de mais, não menos democracia para saltar sobre o abismo.

*Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios).

 

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES