O esgarçamento do império americano

Imagem: Dave Meckler
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Por DRAGO BOSNIC*

À medida que o poder dos Estados Unidos míngua, o império decadente faz o possível para impedir o advento da multipolaridade

Nas últimas cinco décadas, o mundo passou por uma mudança dramática: do desmantelamento da ordem mundial bipolar à ascensão dos Estados Unidos ao status de “única superpotência”. Ultimamente, no entanto, esse processo tomou outro rumo, com o mundo unipolar começando a dar passo à ascensão da multipolaridade. Ainda que esse último movimento não esteja consumado, seguramente se vislumbra como um processo sustentado, que só poderia ser interrompido por um desastre de proporções cataclísmicas. Como era de se esperar, o regime unipolar, eufemisticamente apodado de “ordem mundial baseada em regras”, ainda resiste, e os Estados Unidos, seu principal promotor e beneficiário, fazem o possível para impedir o advento da multipolaridade.

No entanto, a beligerante talassocracia parece estar caindo na mesma armadilha que muitos outros impérios anteriores a ela: a da superextensão imperial. Essa expressão, cunhada pelo historiador Paul Kennedy, apareceu pela primeira vez em seu livro de 1987, The Rise and Fall of the Great Powers (Ascensão e queda das grandes potências, Campus). O autor a usou para descrever o que acontece com as grandes potências quando suas ambições se tornam insustentáveis, ao exigirem recursos maiores do que elas podem reunir. Curiosamente, ele argumentou que os Estados Unidos, que por então se encontravam em grande ascensão sob o governo Ronald Reagan, já estariam experimentando os estágios iniciais desse fenômeno.

Ainda que uma noção como essa pudesse ser contestada pela aparência dos fatos, quais sejam, de que os Estados Unidos estavam prestes a atingir o auge de seu poder global, que culminaria em seguida com as invasões quase paralelas do Afeganistão e do Iraque, os argumentos visionários de Paul Kennedy parecem agora confirmados pelos atuais eventos. Ele alertou sobre a ambição implacável de domínio global das grandes potências, insistindo que isso inevitavelmente leva ao esgotamento de seus recursos. Pode ser isso o que esteja ocorrendo com o Ocidente político, liderado pelos Estados Unidos. Prova da presciência de Paul Kennedy parece ser a capacidade de antever tal cenário, em que pese a gigantesca demonstração de força que os Estados Unidos demonstraram durante as duas últimas décadas do século passado.[1]

Enquanto os Estados Unidos se ocupavam com a destruição de dezenas de países em todo o mundo,[2] a economia global girava lentamente em direção à Ásia, com a China desempenhando o papel central nesse processo. O desperdício colossal dos recursos, em aparência “infinitos”, dos Estados Unidos levou o mundo a múltiplas crises econômicas em pouco mais de uma década, resultando em um aumento maciço do endividamento geral, a déficits fiscais e a um declínio do atual poder econômico ocidental. Com a terceirização generalizada de sua capacidade de produção – processo que o Ocidente político esperava que fosse garantido por meio de seu domínio financeiro –, o beligerante polo único de poder buscou estabelecer um sistema que garantisse sua supremacia global perpétua.

Esse esquema, ainda que tenha funcionado por algumas décadas, começou a falhar a partir do momento em que o Ocidente político insistiu no seu plano de invasão da Rússia. Moscou, uma superpotência adormecida desde o início dos anos 1990, tornou-se progressivamente mais frustrada e partir do momento em que suas iniciativas de cooperação passaram não apenas a serem rejeitadas, mas também recebidas com hostilidade sutil ou mesmo aberta. Isso forçou o gigante eurasiano a repensar sua abordagem geopolítica, culminando, por fim, com a contraofensiva de 24 de fevereiro, a partir da Ucrânia. Desde então, o Ocidente político não faz outra coisa que tentar obsessivamente mobilizar seus recursos contra a Rússia. Foi precisamente nesse ponto que os Estados Unidos acabaram expostos na sua superextensão imperial, ao tentar enfrentar, simultaneamente, vários adversários globais e regionais.

Em 17 de janeiro, o New York Times informou que os Estados Unidos agora se veem forçados a transferir munições de seu estoque secreto em Israel para o regime de Kiev, cada vez mais dependente das armas ocidentais. Como o Pentágono prevê que a Rússia está nos estágios finais dos preparativos para uma grande ofensiva na Ucrânia, a junta neonazista daquele país vai precisar de centenas de milhares de projéteis de artilharia e de outras armas. A matéria afirma que grande parte do estoque anteriormente secreto já havia sido enviada para a Europa e em breve será transferida para o regime de Kiev. Essa não é a primeira vez que os Estados Unidos usam as reservas de armas no exterior, já que estoques sigilosos semelhantes na Coreia do Sul também haviam sido mobilizados.

Tanto Israel quanto a Coreia do Sul negaram oficialmente o envio da chamada “ajuda letal” à junta neonazista, tornando o assunto extremamente controverso, uma vez que a Rússia pode reconhecê-lo como um movimento hostil. Isso pode complicar a situação geopolítica no Oriente Médio e na Ásia-Pacífico, já que Israel enfrenta a presença russa na Síria, enquanto a Coreia do Sul frequentemente depende de Moscou para aliviar as tensões com seu vizinho do norte, que possui armas nucleares. O envolvimento de ambos os países na agressão ocidental contra a Rússia pode levar a uma escalada fora de controle nessas áreas, uma vez que é altamente improvável que a Rússia ajude países que considere hostis. E finalmente, isso pode corroer ainda mais as capacidades de projeção de poder dos Estados Unidos em ambas as regiões.

Dado o fato de que os Estados Unidos enfrentam problemas crescentes na manutenção do seu império global, anunciaram eles então, mais recentemente, uma estratégia revisada que supostamente dará a seus vassalos um maior papel nos diversos teatros geopolíticos, o que inclui o maciço programa de rearmamento japonês, voltado contra os adversários dos norte-americanos na Ásia-Pacífico. Em outras áreas, como o Oriente Médio, Washington e Tel Aviv buscam formar uma coalizão anti-iraniana mais ampla. No entanto, uma vez que Moscou e Teerã estejam estabelecendo laços mais estreitos frente à pressão ocidental, o entendimento de Israel com a Rússia está se tornando cada vez mais difícil, se não virtualmente impossível, o que coloca em risco a sua própria posição na região.

À medida que o poder global dos Estados Unidos míngua, sua dependência de aliados regionais e estados satélites inevitavelmente conduzirá a problemas, pois esses segundos estarão menos propensos a seguir cegamente os ditames de Washington. Israel, Coreia do Sul e outros podem buscar evitar más relações com Moscou e Pequim, enquanto a União Europeia pode se mostrar indefectivelmente lenta para alcançar consensos na maioria das questões-chave. Regimes extremistas, como a junta neonazista de Kiev, e atores não estatais (ou seja, os numerosos grupos terroristas apoiados pela OTAN, como os jihadistas) serão cada vez mais difíceis de controlar e precisarão de cada vez mais recursos, exacerbando ainda mais a sobrecarga imperial norte-americana.

*Drago Bosnic é analista geopolítico e militar croata, colabora com os portais de notícias e análise GlobalResearch e InfoBRICS.

Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Publicado originalmente em InfoBRICS.

Notas do tradutor


[1] Nota do Tradutor: Uma interpretação com resultados absolutamente análogos, mas não funcionalista como a de Kennedy (e mais específica para as formações históricas capitalistas), foi elaborada pelo economista e sociólogo Giovanni Arrighi, a partir do modelo marxista de Immanuel Wallerstein do “sistema mundo”, poucos anos depois de Kennedy, em 1994, na obra O longo século XX (tradução para o português: São Paulo: Contraponto/Unesp, 1996). Veja-se a propósito o artigo de Carlos Eduardo Martins neste site. Aqui, o interessante a se notar é a coincidência no resultado das interpretações, feitas a partir de referências teóricas muito dessemelhantes, e em um momento em que, aparentemente, nada as autorizaria como evidentes.

[2] Nota do tradutor: Para uma informação geral da lógica por trás desse contexto veja-se, por exemplo, este artigo. Para uma ampla ilustração jornalística sobre a sua forma de operar, veja-se o livro O império do caos (Rio de Janeiro: Revan, 2016), do jornalista brasileiro radicado no exterior Pepe Escobar.

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