O sacrifício de Fernando Haddad

Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil
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Por LUIS FELIPE MIGUEL*

Sua trajetória é o retrato de um talento ofuscado pela conjuntura: o político preparado que a era da simplificação brutal condenou ao papel de mártir tático

1.

Fernando Haddad é um daqueles casos de descompasso entre os talentos do indivíduo e a conjuntura em que ele deve atuar.

Era um quadro petista que, nas circunstâncias anteriores a 2013, tinha tudo para chegar longe. Um político preparado, competente como administrador, com probidade inconteste. Com perfil conciliador, educado. Suficientemente liberal para não assustar o capital, mas com a preocupação social necessária para se credenciar como continuidade do lulismo. A esquerda gostaria de alguém mais à esquerda, é verdade, mas não tinha muitas opções.

“O mais tucano dos petistas”, dizia-se, de forma mordaz. Mas isso, àquela altura, não era um handicap. Era algo que o posicionava favoravelmente na política brasileira.

Saiu do Ministério da Educação para se eleger prefeito de São Paulo. Dali, era de se esperar que chegasse ao governo paulista e, certamente, à presidência.

Mas o cenário mudou. No final de seu mandato, medidas de óbvio caráter civilizatório, que em outras circunstâncias teriam encontrado oposição apenas marginal, como a implantação de corredores de ônibus e a redução da velocidade máxima em algumas vias da capital paulista, serviram para estigmatizá-lo.

Não é só o avanço de uma direita extremada. A burrice se tornou um asset (para usar uma palavra ao gosto de seus praticantes) importante na política brasileira, o que complica as coisas para alguém como Fernando Haddad.

Os problemas começaram com as manifestações de junho de 2013. Fernando Haddad não soube lidar com as ruas, assim como ocorreu com outros dirigentes petistas. Mas provavelmente o percalço teria sido superado se aquele não tivesse se tornado o momento da grande virada no padrão da disputa política no Brasil.

Não, como queriam os militantes pelo passe livre, no sentido da radicalização da luta popular. A direita usou seus muitos recursos para capturar a insatisfação que viera à tona – e o resultado, todos nós sabemos.

Além do nivelamento por baixo de todos os termos do debate público, veio a campanha de criminalização da esquerda, com a abertura deliberada de um espaço privilegiado para o discurso da extrema-direita. Essa campanha fracassou na tentativa de impedir a reeleição da presidente Dilma Rousseff, mas triunfou com o golpe de 2016.

2.

Fernando Haddad era candidato à reeleição e tentou se adaptar aos novos ventos. Evitava chamar o golpe de “golpe”, por exemplo. Ainda assim, não escapou da humilhante derrota, já no primeiro turno, para um almofadinha sem experiência política. As eleições municipais de 2016, não só em São Paulo, mas pelo Brasil afora, foram o índice eloquente de que algo estava mudando, e muito, na política. Mas o pior, hoje nós também sabemos, ainda estava por vir.

Com Lula preso injustamente, a fim de impedir o retorno do PT ao poder, coube a Fernando Haddad a candidatura presidencial de 2018. Fez uma campanha digna, sob cerrada oposição da mídia e do aparelho de Estado brasileiro, incluindo a justiça eleitoral. Sofreu sua segunda derrota (mas, convém não esquecer, fez 47 milhões de votos no segundo turno, o que está longe de ser pouca coisa).

Em 2022, foi candidato ao governo paulista. As circunstâncias pareciam mais favoráveis. O Brasil já conhecia a catástrofe bolsonarista. O esquema de poder do PSDB, que controlava o estado por décadas, estava rachado, com Geraldo Alckmin alinhado a Lula, João Doria fora de combate e seu vice, Rodrigo Garcia, recém-filiado ao partido, tentando sem sucesso assumir a posição de herdeiro.

Fernando Haddad era não apenas ex-prefeito, mas também ex-candidato presidencial, logo um nome muito conhecido na população. Ainda assim, perdeu para um forasteiro de retórica primitiva. A guinada à direita do eleitorado paulista estava consolidada.

Lula fez dele seu ministro da Fazenda. No cargo, equilibra-se, como ele mesmo gosta de dizer, no estreito fio entre a esquerda e a direita. Eu acho que está muito mais para a direita do que para a esquerda, mas ele certamente discorda. Aceitou a ortodoxia sobre o controle das contas públicas, sufocando investimentos, arrochando o funcionalismo, o receituário de sempre. Mas protegeu alguns dos programas compensatórios que são a vitrine do lulismo e encaminhou uma reforma timidamente progressiva do sistema tributário.

Agora, ele é pressionado para encarar uma nova candidatura ao Palácio dos Bandeirantes, que quase seguramente representará sua quarta derrota eleitoral consecutiva – sobretudo se, como tudo indica, Tarcísio de Freitas for mesmo candidato à reeleição. Mas Lula precisa de um palanque forte no estado que concentra o maior eleitorado da federação e não há, no campo do petismo e de seus aliados, nenhum nome melhor que o de Fernando Haddad. Salvo, talvez, o de Geraldo Alckmin, mas imagino que Lula não tem nenhum interesse em reabrir a discussão sobre o vice em sua chapa presidencial.

(E é, convém assinalar, uma vice de singular importância, dada a idade avançada do candidato. Geraldo Alckmin, que sempre foi um homem de direita, tem o grande mérito de ter se mostrado muito leal, nesses mais de três anos de governo. Se ilude redondamente quem imagina que, caso ele seja substituído, tem chance de entrar no seu lugar alguém com posições políticas mais avançadas.)

Para Fernando Haddad, a candidatura em São Paulo tem poucos atrativos. Uma campanha eleitoral é sempre enormemente desgastante do ponto de vista pessoal. Politicamente, ele tem pouca chance de vitória e não ganha nada, em termos de visibilidade, que já não tenha. Se aceitar a empreitada, será com sentimento de sacrifício, em prol do projeto maior de impedir o retorno da direita ao Palácio do Planalto. Um sacrifício que engrandece sua biografia.

*Luis Felipe Miguel é professor titular de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica).[https://amzn.to/45NRwS2].

Publicado originalmente nas redes sociais do autor.

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