Por MARIAROSARIA FABRIS*
O artigo de Fabris desnuda o abismo social brasileiro através da polêmica Huck-Ferréz e de Tropa de Elite, revelando como a violência policial e a desigualdade são naturalizadas
1.
Em 1º de outubro de 2007, o jornal Folha de S. Paulo publicava o desabafo do então animador de “O caldeirão do Huck”, programa veiculado nas tardes de sábado pela Rede Globo. O texto, intitulado “Pensamentos quase póstumos” iniciava com o apresentador imaginando como seria noticiado seu falecimento, se não tivesse escapado incólume de um assalto à mão armada:
“Luciano Huck foi assassinado. Manchete do ‘Jornal Nacional’ de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno cultura. Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio. Por quê? Por causa de um relógio”.
A reação provocada pela divulgação pública do acontecido foi descomunal. Causou uma enxurrada de artigos e cartas de leitores, principalmente depois que a mesma seção “Tendências/Debates”, que havia hospedado o texto de Luciano Huck, na semana seguinte acolheu “Pensamentos de um ‘correria’”, no qual Ferréz, sem citar explicitamente o apresentador, rebatia seus argumentos, imaginando o que teria se passado pela cabeça do assaltante na hora de cumprir sua “missão”.
Dessa forma, à “biografia edificante” (como a denominou Fernando Barros Silva) da celebridade global contrapunha a vida de agruras de um “correria” anônimo da periferia de uma megalópole,[1] concluindo: “No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes”.
Estava instaurada, assim, uma espécie de foco de luta de classes – o povo, de um lado da barricada; a elite,[2] do outro –, com as opiniões divididas entre o ataque e a defesa do artigo de Luciano Huck e da réplica do escritor e rapper paulistano. “A elite branca brasileira ganhou um rosto. Ele é narigudo, casado, tem 36 anos e um patrimônio estimado (há cinco anos) em US$ 6 milhões.” – anunciava a revista Época, enquanto os “espoliados” das periferias, mais uma vez, tinham em Reginaldo Ferreira da Silva,[3] que nasceu nesse meio, um de seus paladinos.
Ao criticar a postura do apresentador, o cantor maranhense Zeca Baleiro (sempre no mesmo artigo) afirmou: “A nossa elite – se é que merece ser assim chamada – é mesmo patética. Só mostra indignação com a situação do país quando tem seu Rolex roubado. Queria ver Luciano Huck escrevendo um texto tão indignado caso presenciasse uma chacina no Capão Redondo”.
2.
Ao defendê-la, Roberto da Matta (ainda no artigo de Celso Masson e Nelito Fernandes) asseverava: “A reação ao Luciano Huck é um exemplo de neofascismo. Qualquer um tem direito de denunciar a injustiça de que foi vítima”.[4] A pecha de neofascistas atribuída pelo antropólogo aos detratores de Luciano Huck, no entanto, não levava em consideração que este, num dos trechos menos comentados de seu texto, ao apelar para as forças da ordem, reais ou ficcionais – “Onde está a polícia? Onde está a ‘Elite da Tropa’? Quem sabe até a ‘Tropa de Elite’!
Chamem o comandante Nascimento!” –, clamava, em suma, pelo BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar), com suas ações táticas de combate ao crime, que tanto dividem a opinião pública,[5] e com seus VBTPs, ou seja veículos blindados de transporte de pessoal, popularmente chamados caveirões, sucessores dos paladinos e dos brucutus com que, nos anos 1960, o Batalhão de Choque da PM dispersava as manifestações contrárias ao regime (conforme dados da revista Piauí).
Parece que o apresentador, pelo fato de divertir as pessoas e presidir uma ONG[6] – confundindo, como tantos outros, obras de caridade com combate à desigualdade econômica –, acreditou ser imune à violência social, pela qual não se sentia responsável e para a qual só despertou ao ser atingido por “um assalto para chamar de seu” e ao ser “transformado num obelisco da desigualdade social brasileira”, nas palavras de Elio Gaspari.
Assim mesmo, ao contrário do que afirmou Fernando de Barros e Silva, a polêmica não o ajudou a “cair na real”, isto é, a pensar a serviço de quais interesses ele estava, que ideologia defendia, que modelo de sociedade perpetuava com seu programa.
Como observou o missivista Henrique Stecanella Cid, no “Painel do Leitor” da Folha de S. Paulo, em 10 de outubro de 2007: “Presidir uma ONG não deixará Luciano Huck livre de ser assaltado e não resolverá os problemas sociais que afligem as camadas mais pobres da população. Não só Luciano Huck mas todas as emissoras de TV deveriam refletir sobre sua programação. Será que se houvesse programas que incentivassem um pensamento mais crítico em relação a problemas sociais, políticos etc. não haveria uma cobrança maior da população em relação ao governo?”
“Em vez de ficar pensando que poderia ter morrido ou botar a culpa nas pessoas marginalizadas que veem apenas o crime como meio de vida, não só Luciano Huck mas todas as pessoas que de algum modo atingem um grande público deveriam refletir sobre a responsabilidade que têm quando um assalto ou outro tipo de crime acontece”.
3.
Ou, como resumiu a leitora Susane Peixoto, no box “Uma polêmica no ar”, da revista Época de 15 de outubro de 2007: “Para acabar com a hipocrisia precisamos sim, cobrar as ações do poder público, mas também parar de achar que montar uma ONG (e faturar muito com isso em imagem, é claro) é fazer o seu papel”.
Invocado pelo apresentador, o capitão Nascimento, protagonista de Tropa de elite (2007), embora ainda não tivesse chegado às telas, era conhecido do público, uma vez que DVDs com o copião dessa obra de José Padilha já circulavam bem antes de sua estreia. Com o lançamento da versão final, a polêmica pró ou contra o filme, iniciada quando da circulação das cópias piratas, atingiu o clímax.
Tachada de fascista e acusada de fazer a apologia da tortura, de um lado; aplaudida por desmistificar a “vida bandida” e por atacar a ambiguidade da sociedade com relação ao consumo de drogas, de outro, essa produção de 2007 desencadeou uma forte reação no meio cinematográfico e na imprensa – destacando-se as seções de cartas de leitores e a internet –, e acabou transformando seu personagem principal, no herói ou no anti-herói por excelência.
A atitude hipócrita, que, na visão de José Padilha, a burguesia teria para com o consumo de maconha e outros “baratos” se explicitava na sequência em que alunos do primeiro ano de Direito de uma universidade particular da zona sul do Rio (a PUC, a qual, embora nunca nomeada, foi o cenário das filmagens) discutem a truculência empregada pelos policiais na repressão às drogas – das quais, depois se saberá, alguns são usuários.
Segundo João Pereira Coutinho, esse era o momento-chave de Tropa de elite: “quando os universitários discutem com aprovação do professor, Vigiar e punir, o estudo de Michel Foucault sobre o sistema prisional como instrumento de submissão e poder. Toda a gente aplaude Michel Foucault, transplantando as suas teses para o Rio dos nossos dias: a polícia é a face da repressão, os criminosos são vítimas e etc”.
“No meio dessa orgia de irracionalismo, é Matias, o policial-estudante que fala com experiência, quem coloca as coisas na sua devida proporção: os bandidos são bandidos, alguns policiais são corruptos; mas a fonte do mal está em meninos de classe média ou alta que ‘romantizam’ a marginalidade e, ao mesmo tempo, alimentam o tráfico. Silêncio na turma. E aplauso em mim”.
No meio acadêmico, no entanto, a sequência elogiada pelo articulista português causou polêmica. Sem deixar de reconhecer a existência do consumo de drogas nas universidades, muitos intelectuais reprovaram o modo simplista como foi estabelecida a equação entre os estudantes usuários de estupefacientes e a violência resultante do tráfico, atribuindo-o a uma postura moralista do diretor, o qual, assim, esposaria a visão estereotipada e homogeneizadora da polícia com relação à intelligentsia (conforme constatou Michele Oliveira).
4.
É isso que parece ter incomodado mais os que não aplaudiram Tropa de elite, ou seja, o maniqueísmo ao retratar a luta entre o bem (o impoluto efetivo do BOPE) e o mal (a corrupção que grassa nas esferas públicas; a questão das drogas que torna cúmplices usuários endinheirados e traficantes favelados), luta para a qual só existiriam medidas extremas, isto é, o aniquilamento impiedoso de quem a ocasionou, sejam os filhos da burguesia executados pelos marginais, sejam os bandidos eliminados pelas forças da ordem.
Além do fato de a narração ser guiada pela voz-off do protagonista. Numa entrevista à Carta capital, José Padilha declarou: “É um erro primário confundir o meu ponto de vista com o dos personagens”, parecendo esquecer que o recorte dado à narrativa, a posição da câmera vem reforçar a visão de mundo levada para as telas.
Angustiada diante do tratamento dado por Tropa de elite à questão da violência, que lhe lembrou a época da ditadura,[7] a cineasta Lúcia Murat asseverou: “Eu efetivamente tenho uma outra opinião não somente em relação ao filme, mas ao que ele propõe em relação ao combate ao tráfico de drogas (ou talvez fosse melhor a ordem inversa: eu tenho uma opinião diferente da forma como ele vê este mundo e portanto uma outra opinião em relação ao filme que se origina desta visão)”.
O fato é que, nessa obra cinematográfica, apesar das declarações de seu realizador, não há uma crítica aos excessos de comportamento do capitão Nascimento. Sua crise, seu pânico, suas dúvidas dizem mais respeito a uma moral de paladino da justiça, que construiu para si, do que a uma moral social. E o desconforto nasce diante da “moral da história”: no estágio atual da sociedade brasileira, a violência só pode ser combatida com mais violência; a barbárie só pode ser vencida pela barbárie.[8]
Conforme afirmou o cineasta, em entrevista à Veja: “Como está dito no filme, o policial tem três escolhas: ou ele se corrompe, ou se omite ou vai para a guerra”. Ir para a guerra é o que faz o protagonista, torturando, matando, temperando o caráter de seu sucessor. Um retrato cru, se assim aprouver, mas também a “mais desoladora desistência” do resgate de valores éticos, como observou Jurandir Freire Costa, ou a falta total de uma escapatória, nos dizeres de Paulo Sant’Ana: “É um filme nauseante, como toda obra que pretende ser realista. Não há saída para todo o elenco de personagens, policiais, bandidos, consumidores de drogas, estão todos eles condenados por uma sentença moral que acaba atingindo a inteireza do meio social”.
5.
Isso ficou bem patente na adesão de boa parcela do público às sequências de tortura, acolhidas não raras vezes com palmas ou gargalhadas, o que levou o roteirista do filme, Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, a afirmar à revista Brasileiros que existe “um pacto velado da população com a tortura”.
De fato, como Ignacio Cano declarou a Mario Cesar Carvalho: “Historicamente, a tortura sempre foi um mecanismo de controle das camadas populares. As primeiras polícias do Brasil foram criadas para diversas missões, entre elas a de açoitar os escravos que fugiam. A polícia no Brasil tortura como parte de seu trabalho desde que foi criada no começo do século XIX. Tortura no Brasil só é escândalo quando aplicada contra inocentes. Só vira escândalo quando atinge o alvo errado”.
Para o sociólogo, o combate às lesões corporais e às execuções sumárias praticadas pelas forças da ordem não é uma prioridade nem do governo federal nem dos governos estaduais,[9] e a prática da tortura parece estar tão entranhada na cultura nacional a ponto de ser considerada normal não só por agentes do Estado como por algumas de suas vítimas, enquanto ato punitivo. É dessa naturalização da violência em geral e da tortura em particular que nascem as manifestações de apoio a crimes cometidos em nome da lei, seja na realidade,[10] seja na ficção.
Na opinião de Roberto Schwarz, reportada por Marcos Strecker: “Estimulado pela farda, pela empatia com os atores, que são astros, e pela missão justiceira, o espectador pode se identificar à violência desvairada e aprovar inclusive a tortura. [..] É verdade também que o espectador sem queda para os prazeres sádicos pode encarar os heróis com distância horrorizada, como anti-heróis. Nesse caso, ele vê a polícia dividida entre a corrupção e o enlouquecimento, o que não é banal e não deixa de ser instrutivo. […] Em Tropa de elite, dependendo do ângulo, os fanáticos da justiça vão mais longe que os piores malfeitores. São exemplos da desigualdade degradada, ou das afinidades de fundo entre os polos sociais”.[11]
A degeneração do tecido social levou as pessoas a aceitarem medidas coercitivas, entrincheirando-se progressivamente na “arquitetura do medo”[12] (atrás de muros e grades em suas casas ou em condomínios cada vez mais autossuficientes), circulando em veículos blindados, frequentando templos de consumo exclusivos, pagando pela própria proteção, ao contratarem seguranças particulares ou se sujeitarem às milícias, como tem acontecido em vários condomínios fechados do Rio de Janeiro ou até mesmo em muitas favelas cariocas dominadas por estes grupos paramilitares que destronaram os traficantes. São as cidades transformadas em “fobópoles”, tomando-se aqui emprestado o neologismo criado por Marcelo Lopes de Souza.[13]
Segundo este autor (conforme referiu Bruno Paes Manso): “O modelo social capitalista produz maciça e crescentemente fatores de estímulo a diversos tipos de violência. Não me refiro somente a desigualdades materiais, que se associam muitas vezes a sentimentos de revolta e frustração por parte daqueles que não podem satisfazer suas necessidades e seus desejos de consumo, mas também a fatores como a desregulamentação do sistema financeiro internacional e, com isso, as facilidades para a lavagem de dinheiro sujo, ao estresse e a psicopatologias diversas associadas aos ritmos e modos de vida, entre muitos outros fatores. Por outro lado, ao mesmo tempo que cria essas condições, esse modelo se mostra incapaz de enfrentá-las com eficácia”.
6.
Acossadas pelas disparidades sociais, autossegregadas pelo medo, as pessoas, na opinião da urbanista Raquel Rolnik (transcrita por Carlos Costa), tendem a ver a cidade como “um espaço de qualidade para poucos, enquanto as maiorias ficam de fora”, confinadas às franjas periféricas cada vez mais distantes do centro. O que deveria ser espaço de convívio se torna “campo de guerra” – usando uma expressão do arquiteto Marcelo Ferraz (registrada por Pedro Fernandes) –, quando os que lhe são “estranhos” o adentram, cobiçando os signos de prestígio que os happy few alardeiam.
Para Renato Mezan: “Como os poderosos são em pequeno número, usar um objeto de marca prestigiosa é também sugerir que pertencemos ao conjunto seleto dos que ‘podem’ – e mandam. Eis por que, além de servir a fantasias de exibição fálica, a roupa, a caneta, o carro (e o relógio) se tornaram ícones identificatórios que seu portador faz parte de um grupo valorizado, do qual a maioria está excluído”.
Dessa forma, o Rolex roubado de Luciano Huck não marcava as horas, mas media seu status.[14] Diante disso, por que não considerar o texto de Ferréz como uma forma de emprestar ao menos uma identidade aos que não têm nenhuma ou como mais uma tentativa de chamar a atenção para desigualdade que há entre “gente” e “subgente” (como salientou Jessé Souza) na sociedade brasileira? Por que não avaliar se, efetivamente, “o rolo não foi justo para ambas as partes”? Mais porque “as reiteradas manifestações de Luciano Huck desde a ocorrência do assalto não fazem outra coisa senão reforçar seu espaço, já nada desprezível, na mídia”, do que por outro motivo.
Se o apresentador, na óptica do modelo neoliberal tão bem representado pela rede televisiva na qual trabalha, ainda ficou no lucro, então para que o alarido público[15]? Por que fazer frente à violência com a “violência legítima”,[16] invocando logo o capitão Nascimento e seu caveirão da morte? Será que não haveria uma desproporção entre a infração cometida e a punição pretendida[17]? Ou ele achou que, ao expor a própria fragilidade, provocaria uma comoção nacional por ser um “cidadão exemplar”?
Ora, mas Luciano Huck não sabe que, neste País, os que não são imortalizados pela revista Caras e não pertencem à esfera das celebridades e das “pessoas bonitas”, não passam de um bando de ressentidos?
*Mariarosaria Fabris é professora aposentada do Departamento de Letras Modernas da FFLCH-USP. Autora, dentre outros textos, de Nelson Pereira dos Santos: um olhar neorrealista? (Edusp).
Versão revista do artigo “O caveirão do Huck”, que integrou o volume Comunicação visual: representações urbanas na América Latina, organizado por David William Foster e Denize Correa Araujo (editoraplus.org., 2008).
Referências
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Notas
[1] Emprega-se aqui o termo utilizado para referir-se a “uma cidade gigante (megacidade) com uma população em torno de 10 milhões de habitantes ou mais, cujo crescimento vertiginoso aconteceu nas últimas três ou quatro décadas do século XX, período em que a população urbana se multiplicou de cinco a oito vezes. Essa explosão demográfica em relativamente pouco tempo deve-se menos ao crescimento vegetativo que às grandes levas migratórias, via de regra, do campo para as cidades, com várias estações intermediárias. A afluência dessa população migrante a cidades ‘despreparadas’ para recebê-la manifesta-se na forma de déficits (de emprego, moradia, escola atendimento de saúde, serviços urbanos básicos como suprimento de água, esgoto, transporte). As diferenças sociais e culturais dos habitantes das megalópoles refletem-se no tecido urbano, onde se mesclam construções de luxo da arquitetura pós-moderna, reunidas em condomínios fechados, e favelas, cortiços […], invasões. Nas palavras de Neira Alves, trata-se do encontro entre a ‘cidade legal’ e a ‘cidade real’, resultante de assentamentos espontâneos ilegais. Essa ‘cidade real’, parcialmente ‘ilegal’, cresce num ritmo bem mais rápido que a chamada cidade ‘legal’, tanto vegetativamente quanto em decorrência de movimentos migratórios (entre cidade e campo, cidade e cidade, bairro e favela, favela e favela)”. São Paulo e Rio de Janeiro são as duas cidades brasileiras que podem ser consideradas megalópoles, ou seja, as que teriam resultado “de transformações estruturais nacionais e internacionais, incluindo a globalização da economia mundial da segunda metade do século XX [,] na economia, política, cultura e sociedade”.
[2] Antonio Cicero, ironizando o emprego indiscriminado do termo e de conceitos como “maldade” e “culpa” – incompatíveis com o pensamento de Karl Max, para quem “a relação das diferentes classes sociais entre si é determinada em primeiro lugar pelo caráter das relações de produção vigentes na formação socioeconômica em consideração” –, procurou mostrar como “a vulgarização da teoria das elites […] pôde dar subsídios exatamente para a execração das elites. É que, já que a denominação destas não se explica pela estrutura econômico-social, mas pela sua putativa superioridade, é concebível que essa ‘superioridade’ se reduza ao maquiavelismo com que se supõe que elas submetem as massas por meio da doutrinação, da violência, da intimidação, da intriga, da corrupção, do engodo: em suma, do ‘mal’. Só a facilidade dessa inversão vulgar do sentido da teoria das elites já seria suficiente para evidenciar sua inanidade teórica. Mas isso não é tudo. Além de não ser capaz de explicar coisa alguma, a noção de ‘elite’ é vaga demais para ter qualquer eficácia cognitiva. […] o fato é que, cada vez mais, também a classe média tem sido chamada de ‘elite’ pela esquerda. Consequentemente, como as estatísticas indicam que o Brasil é cada vez mais um país de classe média, trata-se sem dúvida de um país em que, segundo a esquerda, quase todos fazem parte da elite. Será a pior elite do mundo, como muitos afirmam? Não sei; mas é sem dúvida a mais autoflagelante”. O poeta, no entanto, parece esquecer que a elasticidade do termo elite deve-se também à “autoinserção” da classe média na “classe dominante”.
[3] Nome verdadeiro de Ferréz, o qual, por causa de “Pensamentos de um ‘correria’”, foi chamado a depor em inquérito policial, aberto em dezembro de 2007, a pedido do Ministério Público, para apurar se havia feito apologia ao crime. O caso foi arquivado depois que o escritor afirmou, em seu depoimento, que o texto “foi uma ficção que mostrava o roubo pela visão de alguém de fora da elite”, conforme foi relatado em nota publicada pela Folha de S. Paulo, em 19 de junho de 2008.
[4] A revista Época (que integrava o holding da Globo), no rodapé das duas páginas do primeiro artigo, intitulado “Os protestos e a razão”, ao dar destaque às declarações de Ferréz, Zeca Baleiro, Alba Zaluar e Roberto da Matta, colocava a do escritor e a do cantor (pardos) à esquerda, portanto como protesto, e as dos dois antropólogos (brancos) à direita, sob a égide da razão. Na página seguinte a estas, no rodapé do artigo de Luís Antônio Giron, destacava: “Na ditadura, música e arte faziam apologia da transgressão”.
[5] A “licença para matar”, concedida a grupos policiais especiais, não era uma novidade na sociedade brasileira. No fim dos anos 1950, havia surgido o Serviço de Diligências Especiais, que contava em seus quadros com egressos da Polícia Especial do Estado Novo. A corporação podia adotar as “medidas drásticas” que julgasse necessárias para “limpar” a cidade do Rio de Janeiro da marginalidade. Constituía-se, assim, o Esquadrão da Morte, conhecido também como Turma da Pesada ou Homens de Ouro, do qual derivaria a Scuderie Le Cocq – criada em homenagem ao mítico delegado Milton Le Cocq de Oliveira, morto pelo bandido Cara de Cavalo –, cujo símbolo era uma caveira com duas tíbias cruzadas (dados extraídos de Zuenir Ventura).
[6] Luciano Huck (2007) escreveu textualmente: “Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso”. A “indústria da benemerência”, como a denominou Paulo Camargo, com sua “falta de ética, oportunismo e corrupção que assolam nosso país desde seus primórdios”, foi o tema de Quanto vale ou é por quilo? (2005), que, segundo seu diretor, Sérgio Bianchi, é uma obra “sobre usar como mercado as pessoas pobres, destituídos, mendigos. Discute uma indústria burguesa que ganha dinheiro em cima de um desajuste social” (palavras reproduzidas por Denize Correa Araujo). Nos dizeres desta mesma autora, o filme mostra nitidamente como as ONGs, ao terem por objetivo “minimizar desigualdades sociais e raciais […] se propõem a ajudar as faixas mais baixas da população, continuando o status quo, ou seja, criando uma indústria da miséria”.
[7] Segundo Zuenir Ventura, “a democracia brasileira nunca esteve habituada a visitar prisões”, seja com a abertura política iniciada em 1945, seja com a outra redemocratização do País mais de três décadas depois.
[8] Já em 1993, entretanto, um grupo de cientistas sociais, procurava refletir sobre os sentimentos ditados pela desinformação e pela irracionalidade que permeavam a visão que o “lado de cá” tinha dos habitantes dos morros cariocas. Para combater a que ele denominou Cultura do Medo, um subproduto da Cultura da Violência, o antropólogo Luiz Eduardo Soares propunha “converter o medo e o ódio revanchista em preocupação cívica”, salientando que a ação do poder público nos bairros pobres não podia limitar-se à presença de seu braço armado: “Não há cidadania possível sob fogo cruzado” (conforme registrou Ventura). Luiz Eduardo Soares – subsecretário de Segurança Pública e coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Estado do Rio de Janeiro, entre janeiro de 1999 e março de 2000, e secretário nacional de Segurança Pública, de janeiro a outubro de 2003 – é coautor de dois livros que retratam a guerrilha urbana entre policiais e marginais na capital fluminense: Cabeça de porco (2005), no qual contou com a colaboração de MV Bill e Celso Athayde, e Elite da tropa (2006), escrito em parceria com André Batista e Rodrigo Pimentel, que deu origem ao filme Tropa de elite.
[9] O delegado Sivuca, que, em 1964, participou do cerco a Cara de Cavalo, se elegerá deputado estadual com o lema “Bandido bom é bandido morto”, como recordou Ventura.
[10] Conforme lembrou Sérgio Augusto, um representante do Rio de Janeiro na Câmara dos Deputados chegou a apresentar um projeto de lei para transformar em patrimônio cultural daquele Estado a farda preta do BOPE e seu símbolo – uma caveira atravessada por uma arma branca e duas de fogo.
[11] Em outro trecho de sua entrevista, Schwarz detectou, no pendor para a trapaça, o que mancomunaria as forças sociais no Brasil, tomando como exemplo Cronicamente inviável (2000), de Sérgio Bianchi: “Este mostrava uma burguesia chateada de não viver em Nova York e revoltada com a falta de segurança em casa. Noutras palavras, os beneficiários da situação brasileira a achavam uma porcaria e se sentiam prejudicados. Do outro lado estavam os trabalhadores, impregnados do imaginário antissocial dos patrões e querendo viver como eles, contemplando a degradação. Acossados pelo desemprego, pela criminalidade, pela prostituição, pelo terror e pela manipulação política, os pobres esperneavam como podiam, sem projeto de luta coletiva. Formando o denominador comum aos dois campos, a disposição generalizada para o trambique”.
[12] Arquitetura do medo era o título de uma exposição fotográfica, em que André Gardenberg “se volta[va] para o aprisionamento do homem moderno”, enquanto vítima e algoz desse estado de coisas. Com essa mostra, apresentada na Pinacoteca do Estado (São Paulo) entre junho e agosto de 2008, o fotógrafo buscou revelar ao público “o processo que ele chama de ‘descivilização’ para o qual caminhamos” (como registrou Persichetti). A expressão, no entanto, é anterior, pois surgiu na década de 1980, quando, com a escalada progressiva do tráfico de drogas, o temor diante do “lado de lá” começou a instalar-se nas cidades brasileiras: “Não o medo natural, indispensável como legítima defesa da vida e do patrimônio, mas o ‘medo reativo’, histérico, o medo transformado em paranoia ou pânico, habitante de bunkers, condomínios fechados, cidadelas medievais”, segundo Ventura.
[13] O título da obra de Marcelo Lopes de Souza, publicada pela Bertrand Brasil do Rio de Janeiro, é Fobópole: o medo generalizado e a militarização da questão urbana. Um bom exemplo de como seria a vida numa “fobópole” por excelência pode ser visto no filme mexicano La zona (Zona do crime, 2007), de Rodrigo Plá. Brincando ironicamente com os efeitos da violência nas cidades brasileiras, principalmente em São Paulo, os arquitetos Isay Weinfeld e Márcio Kogan haviam realizado, em 2004, a exposição Happyland vol. 2, na qual montaram alguns ambientes que refletiam a “paranoia de uma sociedade que busca paliativos à violência, mas não soluções capazes de pôr fim a uma das clivagens sociais mais clamorosas do planeta”: arame farpado decorado; um portão com armas de fogo; um muro móvel, que segue as oscilações do pregão da Bolsa de Valores; guaritas de vários estilos arquitetônicos; um carro com o porta-malas adaptado para o conforto da vítima num sequestro-relâmpago; um kit-assalto, com relógio Rolex, brincos Tiffany’s, caneta Mont Blanc, cigarreira Louis Vuitton (devidamente falsificados), cartão de crédito e notas de dólares; etc. A primeira edição de Happyland – uma série de maquetes realizadas em 1995 e apresentadas na 25ª Bienal de São Paulo (2002) – já mostrava a “utopia negativa” de uma cidade que procura precaver-se contra o terror gerado pela violência, como anotou Annateresa Fabris.
[14] Conceito emprestado do psicólogo social Bernardo Jablonski para quem a percepção distorcida da ideia de justiça social pode ser atribuída, em parte, ao preço cobrado por um Rolex: “O valor é desproporcional, o relógio não mede horas, mede status. […] As pessoas se revoltam com a ostentação, mas não é assim que se resolve” (como declarou a Masson e Fernandes.
[15] Vale ressaltar que Huck não fez boletim de ocorrência.
[16] Expressão de Jorge da Silva, soldado da Polícia Militar com Mestrado em Ciência Política, que, para resolver o problema do desarmamento nas favelas cariocas, preferia a aplicação da lei à pura e simples repressão policial: “Há quem queira enfrentar a violência com a lógica da violência legítima. Quando se sinaliza para os policias que a política dos direitos humanos só aproveita aos bandidos (sic), está-se incentivando a lei de talião” (como registrou Ventura).
[17] O advogado criminalista Roberto Delmanto Jr. ressaltou que o Código Penal brasileiro, com sua inclinação a proteger a propriedade privada, peca pela desigualdade punitiva, pois “o furto de um CD player de um carro, quebrando-se o vidro, tem a mesma pena mínima do crime de peculato, que é assalto aos cofres públicos!”. Já em 1962, numa crônica para a revista Senhor, Clarice Lispector, ao alertar para a disparidade entre o crime e o castigo, bem como para a inútil brutalidade das forças da ordem, evocando a morte do bandido Mineirinho, executado com treze tiros pelo Esquadrão da Morte, escrevia: “Suponho que é em mim […] que devo procurar porque está doendo a morte de um facínora”. Como resumiu Zuenir Ventura: “os dois primeiros tiros lhe deram alívio e segurança. O terceiro deixou-a alerta, o quarto, desassossegada. O quinto e o sexto a cobriram de vergonha; o sétimo e o oitavo a encheram de horror; no nono e no décimo a boca ficou trêmula; no décimo primeiro ela chamou por Deus; no décimo segundo pelo irmão”. E devolvendo a palavra à escritora: “O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro”.
[18] Em dois textos publicados entre 2008 e 2011, os filmes que tiveram como protagonista um certo capitão Roberto Nascimento levaram-me a refletir sobre a repercussão de suas “gestas” na opinião pública brasileira e, consequentemente, sobre o papel dos meios de comunicação de massa na construção/desconstrução desse personagem de ficção alçado a herói nacional. A leitura da matéria “Os vivos e os mortos”, nas páginas da revista Piauí de dezembro de 2025, estimulou-me a publicar de novo os dois artigos, em virtude da convergência de minhas ideias e a opinião de Fernando de Barros e Silva. No texto em pauta, o articulista analisava como a cobertura da ação policial deflagrada no Complexo do Alemão, em 28 de outubro daquele ano, foi orquestrada pelo jornalismo televisivo e impresso do Grupo Globo, que esposou a versão oficial, ao contrário do que aconteceu com a imprensa paulistana, que destacou e criticou a letalidade da operação: a Folha de S. Paulo, de forma mais pífia; O Estado de S. Paulo, num tom mais contundente.






















