A natureza como ator político

Imagem: Graeme Travers
image_pdf

Por RICARDO ABRAMOVAY*

Os elefantes usam nomes únicos, e mariposas escutam o estresse das plantas. Esses fenômenos reforçam a ideia de que a natureza deve ser reconhecida como ator político

1.

Não poderia ser mais oportuna a afirmação de Izabella Teixeira, em recente entrevista a Daniela Chiaretti no jornal Valor econômico (7 de maio), de que a natureza é um ator político. Independentemente de suas consequências imediatas para as discussões que vão ocorrer na COP30, pensar a natureza como ator político traz à tona dois temas fundamentais.

O primeiro é de caráter ético-normativo e tem consequências jurídicas importantes no que se refere aos “direitos da natureza”. O segundo tem interesse prático e deve ser pensado à luz da pergunta essencial colocada por Paul Hawken em seu fundamental e recém-lançado livro (Carbon: The Book of Life): as atividades econômicas atuais resultam em mais ou em menos vida?

Por que devemos preservar a coruja-pintada? Esta é a pergunta de Amartya Sen num artigo publicado na London Review of Books em 2004. Este animal não traz nenhum benefício aparente e imediato ao bem-estar humano, mas, ainda assim, não deveríamos permitir sua extinção por razões que nada têm a ver com nossos padrões de vida. Amartya Sen apoia-se em Gautama Buda para sustentar que, por sermos tão mais poderosos que as demais espécies, faz parte de nossa responsabilidade minorar essa assimetria.

Reconhecer os direitos da natureza abre caminho para este objetivo. Até agosto de 2023 o Eco Jurisprudence Monitor documentava 353 iniciativas nesta direção, das quais 229 tinham sido aceitas em 24 países. Vale a pena consultar a imensa quantidade de documentos fornecidos pelo Eco Jurisprudence Monitor. Em 2024, por exemplo, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução “Harmonia com a Natureza”, enfatizando a necessidade urgente de alinhar as atividades humanas com os processos naturais.

More Than Human Rights (MOTH) é um programa da New York University, liderado por Cesar Garavito, professor e ativista que organizou, na Colômbia, seu país de origem, o vitorioso movimento de crianças junto à Corte Suprema daquele país para que as políticas públicas fossem norteadas pelo interesse em impedir que as mudanças climáticas comprometessem a qualidade de vida no futuro.

Sua militância nos direitos humanos acabou por conduzi-lo à criação do MOTH, juntamente com Merlin Sheldrake (jovem biólogo cujo livro, traduzido em português como A Trama da Vida. Como os Fungos Constroem o Mundo, Ed. Fósforo, vendeu globalmente mais de um milhão de exemplares), acadêmicos de diferentes áreas, mas também músicos e lideranças indígenas.

E quem imagina que este é um tema meio “bicho-grilo” e avesso ao progresso técnico ficará surpreso ao conhecer os avanços científicos no conhecimento da natureza que este movimento está estimulando. Cesar Garavito e David Gruber publicam na revista Time Magazine artigo que relata o uso da aprendizagem de máquinas, da robótica e da bioacústica para o estudo da comunicação animal não humana com impressionante profundidade e precisão.

O uso de nomes únicos pelos elefantes, a capacidade das mariposas em escutar o estresse das plantas e a decodificação dos complexos sons dos cachalotes, contendo um alfabeto fonético semelhante aos blocos fundamentais da linguagem humana, são algumas das áreas que o respeito pelos direitos mais que humanos tem incentivado os cientistas a estudar.

2.

Outra área em que tecnologias contemporâneas abrem caminho para o conhecimento da natureza é na micorrízica arbuscular, ou seja, na formação de estruturas em forma de arbusto (arbúsculos) dentro das células das raízes das plantas hospedeiras, facilitando a troca de nutrientes. Esta é a mais importante parceria simbiótica da natureza, a dos fungos com as raízes das plantas, presente em 70% das espécies de plantas terrestres. Participantes do MOTH acabam de publicar artigo na Nature mostrando o uso da inteligência artificial para mapear globalmente esta relação simbiótica.

Galileu Galilei afirmava que a linguagem da natureza era matemática e suas letras triângulos, círculos e outras figuras geométricas. Os direitos mais que humanos rompem com esta visão, reconhecem e respeitam a inteligência, as capacidades, a criatividade da natureza e é com base nestes atributos que a natureza deve ser considerada como ator político.

Mas é óbvio que, além desta dimensão valorativa, tratar a natureza como ator político tem consequências práticas. E estas consequências são especialmente importantes para os países onde a vida é mais abundante e diversificada, ou seja, os países tropicais. É fundamental, claro, ampliar as áreas protegidas dos diferentes biomas, garantir a integridade dos rios e a vida dos oceanos.

Mas para países, como os da América Latina, em que a agropecuária ocupa parte tão importante do território e tem tanta relevância econômica, o maior desafio está em introduzir a biodiversidade no interior mesmo das superfícies produtivas. As técnicas em que, até aqui, se apoiou o crescimento da agropecuária latino-americana de grãos, por exemplo, dependem de fertilizantes sintéticos cujos impactos sobre os ciclos geoquímicos do nitrogênio e do fósforo já ultrapassaram as fronteiras planetárias.

A dependência em que estas culturas se encontram de agrotóxicos comprometem a vida no solo. Como esta destruição tem efeito cumulativo, os agricultores são obrigados a usar cada vez mais insumos para obter a mesma quantidade de produtos. Os custos sobem, a produtividade é estagnada, o que representa ameaça tanto à segurança alimentar, quanto às funções macroeconômicas que as exportações agrícolas desempenham.

O Brasil é hoje líder mundial na pesquisa e, embora ainda de forma minoritária, no uso não só de bioinsumos, mas de um conjunto de tecnologias voltadas exatamente a reduzir drasticamente o uso dos vetores de morte (em benefício dos vetores de vida) na produção agropecuária. Mas é fundamental que estes vetores de morte sejam eliminados das paisagens produtivas o quanto antes.

O país que liderou a mais importante revolução agrícola do mundo tropical, com a ocupação agropecuária do Cerrado, tem hoje a missão e a responsabilidade global de liderar a transição em direção a um sistema agroalimentar saudável e sustentável. Isso é reconhecer a natureza como ator político.

*Ricardo Abramovay é professor titular da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP. Autor, entre outros livros, de Infraestrutura para o Desenvolvimento Sustentável (Elefante). [https://amzn.to/3QcqWM3]

Publicado originalmente no jornal Valor Econômico [https://valor.globo.com/opiniao/coluna/a-natureza-como-ator-politico.ghtml].

A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES