Cabul, game over

Imagem: Ali Yasser Arwand
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Por ATILIO A. BORON*

Pela primeira vez na história, Biden terá que negociar com duas potências que Washington define como inimigas e que também selaram uma poderosa aliança

A queda de Cabul nas mãos do Talibã é um evento que marca o fim da transição geopolítica global. O sistema internacional sofreu mudanças significativas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Hiroshima e Nagasaki, junto com a derrota do nazismo na Europa pelo Exército Vermelho, foram os acontecimentos que deram origem à chamada “ordem bipolar”. A queda do Muro de Berlim e a desintegração da União Soviética no final de 1991 definiram o encerramento dessa era e animaram as fantasias de estrategistas e acadêmicos estadunidenses que se iludiram com o advento do que seria “o novo século americano”.

Zbigniew Brzezinski advertiu sem êxito sobre a fragilidade da ordem unipolar e os riscos de uma ilusão tão perigosa. Seus receios confirmaram-se em 11 de setembro de 2001, quando, junto com a queda das Torres Gêmeas, também se desvanecia a ilusão unipolar. A multiplicação de novas constelações de poder global, estatais e não estatais, que emergiram com força após esse acontecimento – ou melhor, que se tornaram visíveis depois dessa data –, foi o ponto de partida para o surgimento de uma nova etapa: o multipolarismo. O “ciclo progressista” latino-americano teve como pano de fundo esta nova realidade, em que a hegemonia estadunidense tropeçava com crescentes dificuldades para impor seus interesses e prioridades. Uma China cada vez mais influente na economia mundial e o retorno da Rússia ao primeiro plano da política mundial, após o eclipse dos anos Boris Yeltsin, foram as principais características da nova ordem emergente.

Para muitos analistas, o policentrismo tinha chegado para ficar, daí a ideia de uma longa “transição geopolítica global”. E mais, alguns compararam esta nova constelação internacional ao “Concerto das Nações” acordado no Congresso de Viena (1815), depois da derrota dos exércitos napoleônicos, e que duraria mais de um século. Só que, no caso que nos preocupa, havia uma potência ordenadora, os Estados Unidos, que, com seu enorme orçamento militar e o alcance global de suas normas e instituições, podia compensar sua primazia decadente em outros domínios – a economia e alguns ramos do paradigma tecnológico atual – com uma certa capacidade de arbitragem, ao conter as desavenças entre seus aliados e manter na linha as potências desafiantes nos pontos quentes do sistema internacional. O revés sofrido pela aventura militar lançada por Barack Obama na Síria, que devolveu à Rússia seu protagonismo militar perdido, e a derrota catastrófica no Afeganistão, após vinte anos de guerra e o desperdício de dois trilhões de dólares, mais os indizíveis sofrimentos humanos produzidos pela obsessão imperial, encerram definitivamente essa etapa. A entrada do Talibã em Cabul marca a emergência de uma nova ordem internacional marcada pela presença de uma tríade dominante formada pelos Estados Unidos, China e Rússia, substituindo a que vinha sobrevivendo, a duras penas, desde os anos da Guerra Fria, formada por Washington, os países europeus e o Japão.

Daí a natureza ilusória da pretensão expressada por Joe Biden de trazer as principais nações do mundo para a mesa de negociações e, sentado à cabeceira, estabelecer as novas regras e orientações que prevaleceriam no sistema internacional porque, como ele disse, não podia deixar os chineses e os russos assumirem tarefa tão delicada. Mas as suas palavras tornaram-se letra morta porque essa longa mesa já não existe. Ela foi substituída por outra, triangular, que não tem cabeceira, onde se sentam, ao lado dos Estados Unidos, a China, a principal economia do mundo, segundo a OCDE, e formidável potência em Inteligência Artificial e novas tecnologias, e a Rússia, um empório energético, o segundo maior arsenal nuclear do planeta e um protagonista tradicional da política internacional desde o início do século XVIII, ambas erigindo limites à outrora incontornável primazia estadunidense.

Pela primeira vez na história, Biden terá que negociar com duas potências que Washington define como inimigas e que também selaram uma poderosa aliança. Os artifícios publicitários de Trump são inúteis: “vamos tornar a América grande novamente”, ou o mais recente de Biden: “a América está de volta”. Na nova mesa, pesam os fatores reais que definem o poder das nações: economia, recursos naturais, população, território, tecnologia, qualidade da liderança, forças armadas e toda a parafernália do “poder brando”. Nos últimos anos, as cartas de que dispunham os Estados Unidos para manter sua onipotência imperial perdida eram as duas últimas. Mas se suas tropas não puderam prevalecer num dos países mais pobres e atrasados do mundo, Hollywood e toda a oligarquia midiática global não poderão operar milagres. Esta etapa nascente do sistema internacional não estará isenta de riscos e ameaças de todo tipo, mas abre oportunidades inéditas para os povos e nações da África, Ásia e América Latina.

*Atilio A. Boron é professor de ciência política na Universidade de Buenos Aires. Autor, entre outros livros, de A coruja de Minerva (Vozes).

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Publicado originalmente no jornal Pagina12.

 

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