O céu é velho há muito tempo

Imagem: Elyeser Szturm

Por Henry Burnett*

Comentário sobre o último álbum do músico Lucas Santtana

Em tempos de recrudescimento da intolerância em todos os níveis – político, cultural, religioso e moral – não é raro que as artes operem contra o quadro antiético estabelecido, mesmo quando acossadas por editais conservadores, que sempre encontram quem os preencha com os requisitos necessários. Chame-se a isso independência, um nome frequentemente ligado aos músicos e suas produções autorais, mas que hoje significa cada vez mais.

Chico Buarque, um dos artistas mais engajados à esquerda, costuma dizer que sua criação mais frágil se mostra sobretudo quando ele precisou reagir aos movimentos totalitários na década de 1960 no Brasil. Ele quis dizer com isso que quando a criação precisa se colocar em cena contra o poder opressor, em geral ela perde força estética, embora ganhe em expressão e ação; tal como compreendo sua frase. É uma auto-avaliação que pode ser contestada, mas não desrespeitada, porque diz muito sobre o estatuto da canção em sua expressão máxima, por seu criador maior.

É neste quadro histórico grosseiramente resumido que o mais recente álbum do compositor Lucas Santtana se insere hoje no Brasil. Talvez nem todos se deem conta de que uma de suas primeiras aparições aconteceu no projeto Acústico MTV de Gilberto Gil, onde ele tocava flauta transversal. De lá até hoje seu percurso demonstra rara integridade. Depois que assumiu definitivamente o lado cantor e compositor, Lucas Santtana imprimiu ao seu trabalho uma identidade assinalada pelo uso da tecnologia, algo que ele domina como poucos.

O equilíbrio entre as canções tradicionais e os arranjos atravessados por elementos da música eletrônica é hoje uma marca inconfundível em todos os seus álbuns, desde Eletro Ben Dodô (2000) até o mais recente, O céu é velho há muito tempo (2019). Apesar da marca, cada álbum possui sonoridade independente e singularidade destacada. Pessoalmente considero o álbum Sem nostalgia (2009) o ponto alto dessa junção, mas o seu mais recente projeto introduz um elemento ausente ou nuançado nos projetos anteriores: o político.

Como o próprio compositor destacou em entrevista ao programa Metrópolis, da TV Cultura de São Paulo, o novo álbum procura voltar a um ponto inicial, zerando os processos que o levaram aos experimentos de Modo avião (2017), daí a opção pelo formato clássico voz e violão, enxugando ao máximo o processo de composição e registro. Todavia, desde a primeira audição o disco surpreende, porque a aparente simplicidade do formato não significa um retorno nostálgico aos mestres do estilo (Dorival e Dori Caymmi, João Gilberto, Gil, Caetano e tantos outros).

Como era de se esperar o ouvinte demora um pouco para entender como um disco num formato tradicional pode soar tão distinto da sonoridade comumente servida pelos cantautores. Só em algumas faixas ouvimos o violão limpo tocado pelo músico, como na excelente “Brasil Patriota”. Em geral os efeitos estão presentes em todas as faixas, utilizados com primor e sem deixar em nenhum momento que haja qualquer tipo de saturação ou cansaço. Ou seja: O céu é velho há muito tempo reitera um compromisso do músico com o contemporâneo, sem deixar que a tradição seja um fardo a carregar. A designação “folk contemporâneo”, que demarca o novo álbum nas plataformas digitais, não poderia ser mais feliz.

Dito isso, gostaria de concentrar minha atenção no que considero um novo elemento nessa obra ainda jovem e já tão bem definida em seus princípios: o compromisso do compositor não apenas com o seu tempo, mas com as agruras recentes de seu país. Não é fácil, como se sabe, encontrar a frequência certa entre criação e crítica, sobretudo quando falamos em música comercial e suas necessidades de inserção e manutenção; sem falar na tradição, quer dizer, nos compositores canônicos que emprestaram força à luta contra a ditadura de 1964 e outras formas de opressão num país cujo pendor autoritário e violento sempre esteve à flor da pele – nessa seara o jogo é pesado.

Sabendo disso, lembremos que Lucas Santtana foi criado dentro do meio canônico descrito acima, só podemos atentar para suas opções e acertos. Há uma clara decisão pela comunicação direta com seu público. Isso é nítido na maioria das letras do novo álbum, majoritariamente escritas por ele. Longe de criar um panfleto, o disco age como um chamamento, uma convocação em vários níveis. Um discurso falado na faixa de abertura, “Portal de ativação”, poderia até ser visto como ingênuo em razão do tom adotado, mas é no fundo parte do chamado, e que abre caminho para as demais canções que se seguirão; eis um trecho:

Desde a casa leste da luz / Que a sabedoria se abra em aurora sobre nós / Para que vejamos tudo com claridade/ Desde a casa Norte da noite / Que a sabedoria amadureça entre nós / Para que vejamos tudo desde dentro / Desde a casa Oeste da transformação / Que a sabedoria se transforme em ação correta / Para que façamos o que tenha que ser feito / Desde a casa Sul do sol eterno / Que a ação correta nos dê a colheita / Para que desfrutemos dos frutos do ser planetário / Desde a casa superior do paraíso / Onde se reúnem os entes das estrelas e os antepassados / Que as suas bênçãos cheguem até nós agora / Desde a casa interior da terra / Que o pulsar do coração de cristal do planeta / Nos abençoe com suas energias / Para que acabemos com as guerras

Sempre cabe a pergunta sobre a justeza desse compromisso da arte com sua época. Nietzsche afirmou nos seus últimos anos de vida que a tarefa do filósofo era superar seu tempo, e mais, se opor a tudo que era fixo em sua época. Fácil equacionar: pensar para ele era se mover para o futuro. E qual é o nosso futuro? Teremos um? Lucas Santtana dá sua contribuição nessa direção.

Os temas contemporâneos mais caros ao jornalismo e aos analistas políticos estão presentes nas canções de modo expressivo. Alguns exemplos: as manifestações de rua e das redes sociais em “Ninguém solta a mão de ninguém” são uma continuidade afirmativa de algo fundamental, a saber, que a onda de extrema-direita trouxe à tona vozes ocultas da resistência, muitas vezes silenciadas à força e que hoje formam a grande oposição – quiçá a única? – aos ditames autoritários de um governo que já nem julga necessário se desvincular do nazismo, para ficarmos em um único exemplo recente e impronunciável.

Nosso nacionalismo raso e com vocação violenta aparece em “Brasil patriota”, que nos faz lembrar que a nação revela profunda patriotice no futebol e nos megaconcertos ao vivo, mas não guarda civilidade na hora de se opor aos massacres da Vale do Rio Doce. A educação (e a violência) aparece em “Um professor está falando com você”, declaração afetiva e um dos pontos altos do disco. O (não) trânsito entre classes sociais em “Meu primeiro amor” – onde Lucas também cita Lula e sua luta contra a pobreza sem medo de retaliações. “O melhor há de chegar”, uma das canções mais belas do álbum e outras são alguns exemplos de um álbum íntegro e necessário.

A versão de Lucas Santtana para a canção de Jorge Drexler, “Todo se transforma”, chegou a me enganar, pois a marca do autor alcança o intérprete de modo tão marcado que achei que era um duo. No fundo, mesmo as canções que não se dedicam à crônica direta de problemas políticos resultam em caminhos de sobrevivência, “O bem maior” é o maior exemplo. O amor, sempre ele, reavivado como antídoto e proteção contra o ódio. Todavia, o país que gira em falso é a matéria prima desse novo projeto, onde um compositor que expande seu público cada vez mais – dentro e fora do Brasil – se firma como uma voz fundamental e revigorante para a MPB cansada.

*Henry Burnett é professor do Departamento de Filosofia da Unifesp.