O gênero neutro e a linguagem neutra na educação básica

Imagem: Sami Aksu
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Por MÁRCIO ALESSANDRO DE OLIVEIRA*

É possível falar em gênero neutro gramatical (ou agramatical) na educação básica, desde que os professores conheçam as teorias linguísticas e as gramaticais

Não estou dizendo que não se deva falar de gênero neutro em sala de aula. Acontece que existem muitos, muitos erros tanto no lado dos que são contra a discussão do assunto em sala de aula quanto no lado dos que são a favor.

Em ambos os lados eu vejo animosidades e nenhuma base epistemológica confiável, a começar pelo fato de não fundamentarem a discussão nos conceitos de variação e mudança linguística, que são um pouco diferentes: cinematógrafo, por exemplo, é palavra que ninguém usa: todos usam cinema. Isso também vale para os substantivos pneumático e pneu. Quando uma variante toma definitivamente o lugar de outra, a variação é mais do que variação: é mudança mesmo. Já as formas foto e fotografia convivem uma com a outra no mesmo tempo histórico.

Além disso, precisamos distinguir gênero sexual de identidade de gênero. Os sexos (ou gêneros), pelo que entendi, são dois, além de serem necessariamente biológicos, mas já foram catalogadas pelo menos trezentas identidades de gênero. Se uma pessoa, logo depois do nascimento (ou do parto), foi enquadrada pelo obstetra no sexo feminino, mas, na adolescência, passou a identificar-se com o gênero masculino (ou seja: passou a declarar-se homem) numa disforia de gênero, eu respeito a identidade de gênero e trato a pessoa pelo nome masculino que a própria pessoa escolheu, principalmente se a pessoa for estudante dentro da minha sala de aula.

Quanto a quem se declara não-binário, posso acatar o tratamento que ela espera pelo uso de pronomes “gramaticalmente” neutros, porém tenho de deixar claro que: (i) o gênero gramatical neutro de “elu”, por exemplo, criaria um neologismo oxítono, o que é um absurdo, porque a palavra teria de ser paroxítona, o que exigiria um retrocesso ortográfico, com acento circunflexo em cima da letra “e” (êlu), e isso poderia ser confuso na fase de alfabetização (creio eu).

(ii) A palavra carro, cujo “o” é vogal temática, e não desinência de gênero, sempre fica no masculino, de modo que o masculino acaba sendo neutro por motivos óbvios, e tal raciocínio se aplica no caso da palavra cadeira. (iii) O gênero neutro era usado no tempo do Império Romano, e era dispensado aos escravizados e aos objetos porque tanto estes quanto aqueles eram colocados na categoria do que não era humano, o que evidencia que os escravizados eram injustiçados na medida em que não tinham nem sequer a própria humanidade reconhecida pelo regime jurídico daquele tempo, em que se falava o latim, idioma em que havia o gênero neutro para distinguir os homens e as mulheres dos escravizados; portanto, voltar a usar gênero neutro não seria progresso, nem evolução para a língua, mas sim um retrocesso.

(iv) A palavra criança fica sempre no feminino, mas pode se referir a qualquer garoto, ao passo que a palavra indivíduo, que fica sempre no masculino, pode se referir a uma mulher (quer seja cis, quer seja trans).

Conclusão

É possível falar em gênero neutro gramatical (ou agramatical) na educação básica, desde que os professores conheçam as teorias linguísticas e as gramaticais, às quais precisam acrescentar o que se sabe sobre opção sexual, gênero (ou sexo biológico) e identidade de gênero três conceitos diferentes (pelo que entendi).

Os professores de língua que mencionassem o assunto teriam de deixar claro que é impossível padronizar o gênero neutro gramatical (ou agramatical), tanto do ponto de vista do padrão culto quanto do ponto de vista dos modelos mais populares do uso do idioma em várias esferas de atividades humanas e em vários textos, quer sejam textos falados, quer sejam escritos.

Destarte, os professores de língua teriam de informar aos alunos que o gênero neutro seria um exemplo de variação linguística, mas, primeiro, teriam de verificar se os alunos já têm os requisitos mínimos para compreender isso, ou seja: teriam de verificar se já aprenderam as variações diacrônica (histórica), diatópica (geográfica), diafásica (situacional) e diastrática (de classe social, idade e profissão); também teriam de verificar se os alunos sabem os níveis de registro ou estilo (o formal e o informal).

Uma vez consolidadas tais condições, o professor competente mostraria que o gênero neutro ficaria numa interseção entre a variação diafásica e a diastrática. O uso do gênero neutro, presente no pronome “todes”, é do gosto de um grupo social. Se compararmos tal grupo aos aficcionados pelos games de luta, que usam a palavra apelão quando perdem para o oponente, o aluno entenderá que se trata de uma variação linguística.

Contudo, não pode virar norma, porque, como já declarou Evanildo Bechara, o idioma é como um edifício. Para que se torne norma culta, os que advogam a adoção institucional e social do gênero neutro teriam de criar um novo idioma em laboratório, como o esperanto. A direita e a extrema direita não querem saber de nada disso: querem caçar as bruxas; já a esquerda e a extrema esquerda promovem a cultura do cancelamento, que também é uma caça às bruxas. Estou entre a cruz e a espada.

*Márcio Alessandro de Oliveira é mestre em Estudos Literários pela UERJ e professor da rede estadual do Espírito Santo.


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