O que importa é transformar

Dora Longo Bahia, Revoluções (projeto para calendário), 2016 Acrílica, caneta à base de água e aquarela sobre papel (12 peças), 23 x 30.5 cm cada
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Por PEDRO DE ALCANTARA FIGUEIRA*

O que temos neste período de mais de século é um processo de transformações revolucionárias de novo tipo acompanhado de uma feroz contrarrevolução

Não façamos dos fatos uma barreira que nos impeça de chegar à raiz da realidade atual. O que importa, sobretudo, quando estamos diante de uma realidade explosiva como a de agora é procurar saber a origem dos fatos e suas causas mais profundas, o que nos possibilitará entender que se trata de uma situação que resulta do desenvolvimento de uma determinada questão. Esta é condição para que possamos intervir em sua solução.

Partir, portanto, dessa questão, eis a que nos obriga a realidade. 1914 pode ser considerado o marco inicial de um novo mundo em que as forças produtivas capitalistas confirmam a análise de Marx segundo a qual o capital entrou numa fase destrutiva de suas próprias forças. O termo contradição, repetidas vezes usado em O Capital, resume o conteúdo dessa trajetória de força revolucionária que se converte em seu oposto, isto é, em força contrarrevolucionária. A primeira guerra mundial tem aí as suas razões.

Desde então, de modo de produção que revolucionou o mundo, sua trajetória se inverteu substancialmente, tendo se convertido em “modo de destruição”. Por essa especial razão, podemos afirmar que desde então o mundo vem vivendo convulsões que resultam ao final na aceleração de um processo de transformações sociais.

Peço especial atenção para o que denominamos modo de destruição, em clara oposição a modo de produção, que, desde os tempos da ciência econômica burguesa, a economia política, se consagrou como a expressão condizente com uma época revolucionária.

Não precisamos aqui lembrar o que significaram de devastação da Europa as duas guerras mundiais. Desde então, ou seja, de 1914 até os dias atuais, temos algo parecido com as guerras que dominaram o século XVIII, quando absurdos como guerra dos trinta anos e guerra dos cem anos consumiram populações inteiras.

Na etapa atual, o capital como que se tornou autofágico e o montante que ainda resta comprometido com atividades produtivas, pode se dizer que já se tornou incapaz de reproduzir a sociedade que lhe correspondeu. De seus escombros restou, em termos sociais e políticos, algo indefinido cujo nome mais apropriado seria “horda”.

O que temos neste período de mais de século é um processo de transformações revolucionárias de novo tipo acompanhado de uma feroz contrarrevolução. Este confronto, pois é exatamente neste ponto em que nos encontramos, explica a totalidade das manifestações políticas no mundo inteiro. Tanto o confronto entre Rússia e Ucrânia, ou melhor, entre Rússia e OTAN, quanto o holocausto que Israel vem consumando sistematicamente há décadas nas terras palestinas, cabem à perfeição neste contexto revolução–contrarrevolução.

Transformações irresistíveis e irreversíveis estão no centro de todas as questões.

Não surpreende que, em resposta a essa tempestade revolucionária, o império americano, arquiteto da contrarrevolução, se empenhe nas mais criminosas ações por todo o nosso globo terrestre. Pouco difere do que fizeram todos os impérios em sua fase moribunda.

Este momento de crise que atinge grande parte do mundo ganha uma dimensão toda especial naquele país que foi outrora uma superpotência capitalista. Sua trajetória declinante a tem levado a tentar soluções que mais agravam sua situação do que a recupera de um fim que se anuncia a cada passo que dá. O resultado – que é inerente à sua natureza capitalista – é o recurso à violência que tenta se justificar recorrendo ao anticomunismo. Recurso falido, pois, assim como a tendência irresistível ao domínio do capital nos idos do século XVIII, agora as tendências irresistíveis vão numa nova direção, precisamente as que apontam para o fim dos antagonismos fundados em classes sociais.

Em carta de 1964 à escritora Coretta Scott, Luther King, entre ricas considerações sobre socialismo e capitalismo, assim se expressa: “O capitalismo passou do prazo de validade”.

*Pedro de Alcantara Figueira é doutor em história pela Unesp. Autor, entre outros livros, de Ensaios de história (UFMS).


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