Os progressistas se comunicam mal?

Imagem: Jens Mahnke
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Por HENRIQUE BRAGA & MARCELO MÓDOLO*

A questão da comunicação progressista não pode ser reduzida à mera eficácia na transmissão de mensagens

Já é praticamente lugar-comum a ideia de que o avanço do extremismo conservador se deve em grande medida a uma “inabilidade de comunicação das esquerdas”. Tal tese vem ganhando ares de consenso, o que nos obriga a lembrar um dos mais conhecidos aforismos do dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980): “toda unanimidade é burra”.

Diante desse risco de simplificação, decidimos compartilhar com nossos leitores uma reflexão em favor da dúvida. As esquerdas se comunicam mal com as camadas populares? Nossa resposta mais honesta possível é esta: talvez sim, mas talvez não…

Quem domina o canal pode definir o que é viral

Como destacado no célebre livro Linguística e comunicação, do russo Roman Jakobson (1896-1982), não se pode desconsiderar que o canal é um dos elementos essenciais para que o ato de comunicar se efetive. Essa observação é crucial para a discussão sobre a suposta inabilidade comunicativa do campo progressista, pois qualquer análise que ignore esse fator corre o risco de ser pouco profícua. Afinal, a comunicação não ocorre em um vácuo, e a dinâmica dos algoritmos exerce um papel determinante ao definir o que viraliza ou permanece à margem do debate público.

Tendo isso em mente, talvez seja necessário ponderar que, na atual dinâmica de circulação das ideias, plataformas relevantes como o Twitter (que passou a ser oficialmente chamado de X) e as redes da Meta (Facebook, Instagram) são controladas por empresários declaradamente alinhados ao conservadorismo, o que, salvo melhor análise, parece gerar uma desigualdade de recursos difícil de contornar – sobretudo se levamos em conta que tais plataformas contêm mecanismos para impulsionar (ou ainda esconder) as publicações, desafiando a tão festejada “liberdade de expressão”.

Quando o desafio não é comunicar, mas convencer

Seria ainda possivelmente equivocado tratar dessa suposta inabilidade de comunicação sem considerar a hipótese de que, em um contexto histórico de inédita atomização dos sujeitos, a utopia da igualdade e da justiça social talvez não mais seduza corações e mentes como antanho: um estudo mais aprofundado deveria contemplar a possibilidade de que o novo sonho não seja superar as desigualdades sociais, mas sim buscar atalhos para ascender ao panteão dos desiguais vitoriosos – algo que se alinha com a proliferação de cursos e coaches dedicados à promessa da ascensão individual.

Se comprovada a hipótese de que “o sonho mudou”, seria incorreto reduzir a uma falha de comunicação o insucesso de pautas igualitárias. Quiçá seja o contrário: uma comunicação cristalina pode ser responsável por que parcela expressiva da população escolha outra proposta.

Nesse caso, se há um uma falha, seria impreciso apontar um problema de comunicação em sentido amplo – como algo mais ligado à clareza das ideias ou ao estilo dos textos –, pois se trataria mais precisamente de uma ineficiência na argumentação. Em seu Tratado da argumentação – A nova retórica, Perelman e Olbrechts-Tyteca lembram que, dada a multiplicidade de grupos que formam as sociedades, os valores não são unívocos, estando mais próximos às opiniões do que aos fatos. Desse modo, cabe perguntar: valores como igualdade e justiça, tão caros aos ditos progressistas, ainda podem ser tomados como universais positivos absolutos? Ou carece argumentar em favor deles?

O poder das palavras

Como as leitoras e os leitores notaram, quisemos trazer ao tema da “comunicação progressista” dois aspectos geralmente subestimados: o problema do controle sobre os canais de comunicação e a possível alteração das aspirações individuais e dos valores nelas implicados (questões certamente vinculadas a transformações profundas no mundo do trabalho e à popularização das redes sociais).

Diante do exposto, parece-nos que a questão da comunicação progressista não pode ser reduzida à mera eficácia na transmissão de mensagens. O problema envolve tanto a estrutura de circulação das ideias – impactada pelo controle dos meios de comunicação e pelas lógicas dos algoritmos – quanto uma possível mudança nas aspirações individuais e nos valores sociais. Se a comunicação é um processo de convencimento, talvez o desafio não esteja apenas em como falar, mas no próprio conteúdo da mensagem: até que ponto os valores progressistas continuam ressoando como um horizonte desejável?

Assim, embora distantes de encerrar o debate, buscamos caminhos que possam levar a uma análise mais aprofundada do tema, superando o pensamento relativamente simplista de que bastaria “comunicar bem” para que houvesse grandes transformações sociais – embora comunicar bem seja, de fato, um passo importante, que talvez careça de aprimoramento.

*Henrique Santos Braga é doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela USP.

*Marcelo Módolo é professor de filologia na Universidade de São Paulo (USP).

Versão ampliada de artigo publicado no Jornal da USP.


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