Os três cavaleiros da liberdade

Imagem: Lucas Vinícius Pontes
image_pdf

Por TARSO GENRO*

Lumumba, Martin Luther King e Mandela, e o sonho brasileiro por democracia política, respeito aos direitos humanos e proteção social imediata contra o genocídio

O homem sonhou que estava ajudando a construir uma ponte que nascia do lugar mais agudo de uma rocha projetada sobre um abismo. No fundo do abismo, o Inferno descrito por Dante Alighieri: dor, tortura, morte, calor incandescente, estupros, violações, lamentações de fome e de afetos, deserções da condição humana promovidas pelos feitores de escravos, como carrascos credenciados pelo diabo.

Eis que alguém – um homem negro coberto por uma capa colorida – se aproxima dentro do sonho do homem que sonhava e fala com uma voz pausada: “presta atenção nos alicerces desta imensa ponte de madeira madura, mas sobretudo descobres o momento em que ela esteja mais vergada sobre o abismo, sem se romper, e daí meça a distância até o outro lado, pois ali estará o ponto de equilíbrio, para que o sentido e o destino providencial da ponte seja alcançado pelo teu desejo”.

O homem que sonhou olha para o visitante – que sorri – e lhe pergunta: “quem és?, pois suponho que não apareceste do nada da história, pois te identifico com as feições negras de Lumumba, Martin Luther King e Mandela, que só a simetria das palavras pode compor, numa sinfonia do marxismo melancólico de Walter Benjamin…”. O homem que apareceu no sonho, do outro homem que sonhou, vira as costas para partir e subitamente retorna para finalizar: “eu não sou ninguém, sou apenas uma metáfora da história presente, que cuida para que as pontes para o futuro não sejam apenas mais uma ponte para o inferno.” O que sonhou ficou pensando numa frase de Benjamim: “Quem está em jejum fala do sonho como se estivesse dentro do sonho”.

Lumumba, Martin Luther King e Mandela são os homens-metáfora do século passado. Lumumba assassinado covardemente pelos imperialistas belgas, que cortavam os braços das crianças negras cujos pais tinham baixa produtividade nas plantações de chá do Rei Leopoldo, o Hitler do colonialismo clássico; Martin Luther King assassinado pelos predecessores do fascismo de Donad Trump, no curso das campanhas racistas e violentas dos supremacistas brancos, da Klan e da John Birch Society; Mandela, o homem que começou a governar de dentro do cárcere e disse que não mandaria cessar a luta armada, antes que todos os lutadores anti-apharteid fossem livres e soltos para compor, no futuro imediato, um governo de maioria negra na África do Sul. Estes homens e mulheres do século passado e de outras épocas, como Rosa de Luxemburgo, Rigoberta Menchú, Anita Garibaldi, Antonieta de Barros, Dandara, Carolina de Jesus, Tereza de Benguela, estão presentes em cada gesto dos três líderes do sonho, na fala do visitante improvável.

No momento em que a luta dos partidos da esquerda e dos democráticos não fascistas, dos movimento sociais e da intelectualidade democrática, conseguiram sensibilizar os estratos empresariais mais diversos, a Rede Globo e várias instituições e lideranças representativas da burocracia estatal – para comporem uma ampla frente de defesa da democracia, do respeito aos resultados da eleição e da defesa das urnas eletrônicas (muitos destes inclusive coniventes com o suicídio democrático do país ao ajudarem eleger Bolsonaro) – devemos celebrar e construir esta ponte verdadeira para o futuro.

Ela quer dizer muito: ou temos democracia política, respeito aos direitos humanos e proteção social imediata contra o genocídio, também pela fome que se avizinha, ou o país vai para o caos: a anomia pervertida do fascismo e a morte nas portas do inferno que este sempre representou ainda estão às nossas portas.

O nosso sonho está próximo dos três cavaleiros das liberdades já referidos e das utopias das mulheres e homens que construíram as ideias da igualdade e da dignidade humana, mas não nos é indiferente que boa parte da elite brasileira reconheça que é melhor obter lucros dentro da democracia, afastando a besta do fascismo e da loucura bolsonárica, que muitos deles pariram, do que ficar apenas com os sonhos sem democracia e sem condições para salvar vidas, salvar instituições, afirmar os sonhos possíveis, tornando-os reais e rompendo com o jejum dos desejos sem futuro.

Pertencemos, a maioria de nós – respeitando as diferenças imprimidas por sonhos diferentes – ao campo que defende que Lula é o que está sonhando , como nós, perto daquela ponte metafórica, que pode se tornar vívida com uma grande vitória no primeiro turno, pela qual o Brasil se reunifica em torno das liberdades públicas e da decência governamental.

*Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios).

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
5
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
O pior país do mundo
20 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Israel é um estado genocida e terrorista cuja existência é agora colocada em xeque; já os EUA não operam como uma democracia, mas sim como uma plutocracia, uma cleptocracia e uma kakistocracia
8
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
9
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
10
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
11
A honra de Donald Trump e a de Cuba
19 Mar 2026 Por GABRIEL COHN: O desafio atual para o Brasil consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus possíveis competidores
12
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
13
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
14
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
15
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES