O avatar da consciência

Imagem: Magali Magalhães
image_pdf

Por LUIZ MARQUES*

Garantir a posse de Lula da Silva, e a prisão do terrorista oficial responsável pela barbárie social e política

As manifestações de 2013 tiveram início com a demanda contra o aumento das passagens dos ônibus, nas grandes capitais. Em São Paulo, o Movimento Passe Livre (MPL) se opôs ao reajuste de R$ 3,00 para R$ 3,20, que logo deu lugar ao slogan “Não é pelos vinte centavos”. O inominável da República, com o argumento neoliberal de que a economia tem leis próprias, responsabiliza a Petrobrás sob controle do Executivo, e se faz de sonso para a colonialista paridade internacional de preços, criada pelo golpista Michel Temer e mantida pelo dissimulado sucessor, saído dos porões. “A gente era feliz e não tinha consciência?”

A cobertura da mídia corporativa fez um jogral com a oposição, ao apresentar as manifestações como uma reação ao governo Dilma Rousseff, que haveria investido de forma exorbitante e desproporcional nas monumentais construções esportivas da Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016), com vistas às plateias privilegiadas. Em contrapartida, teria alocado quantias modestas para distribuir ao “pobretariado”, além de ignorar temas considerados prioritários de infraestrutura para a educação, saúde e transporte de interesse das massas. A pecha colou, e a aprovação da presidenta que era alta (57%) desceu a ladeira (para 30%) do patriarcado.

A governante foi descrita como preocupada, mais com a imagem do país no exterior, do que com o povo. A pauta dos manipulados protestos parasitados pela “nova direita” se deslocou, das passagens, para a acusação de propinas com a suspeição de superfaturamento nas obras. O governo, atônito com a velocidade das denúncias, virou alvo de escândalos pré-fabricados no Jornal Nacional (JN). “A atenção da mídia proporcionou o palco para os manifestantes apresentarem as queixas a um público de âmbito mundial”, anotou o sociólogo da Universidade de Nova York, James Jasper, no prefácio à edição brasileira do livro Protest: a cultural introduction to social moviments (2014).

Questões morais empolgaram a irrupção “apartidária” que tomou as avenidas, com multidões iradas. Mobilizações gigantescas, com extração na classe média, galvanizaram os participantes para ataques frontais ao Partido dos Trabalhadores (PT). Espalhava-se o antipetismo. Na abertura da Copa do Mundo, a mandatária foi vaiada e xingada em coro por milhares de espectadores, em termos chulos, ao recepcionar delegações estrangeiras no estádio Maracanã. Uma cena misógina.

Era a tempestade no paraíso, que celebrava o pleno emprego. Os salários estavam valorizados. As aposentadorias, vinculadas aos reajustes anuais do mínimo sempre acima da inflação. Havia critérios para o acesso ao Bolsa Família, que garantiam a frequência de crianças e adolescentes nas escolas e exorcizavam o êxodo dos alunos. Os concorridos cursos técnicos e empreendedoristas bombavam. Diaristas, com carteira assinada, tinham filhos formados nas universidades. Gente humilde fazia cruzeiros no Atlântico. A quietude da sociedade se explicava pela melhoria das condições de vida, fruto das políticas públicas governamentais implementadas, no período.

Para James Jasper, os partícipes dos movimentos sociais são: “Pessoas que abrem mão do conforto material, da estabilidade financeira, do tempo com a família, de uma vida normal em favor de projetos morais e táticas arriscadas que parecem ter muita pouca chance de sucesso. Quem são essas pessoas, que com frequência proporcionam benefícios à nossa sociedade enquanto retêm relativamente pouco para si?”. A interrogação traduz o espanto com o espírito cívico que sacodia a apatia social. Metodologicamente recendia a perspectiva liberal, centrada nos indivíduos, “para decodificar significados, sentimentos culturais e pontos de vista dos participantes nos protestos”, inclinando-se para a inevitável psicologização e sentimentalização das atividades dos militantes.

Na Terra brasilis, a classe média desfilava uma opção subordinada de classe. A foto do casal com camisas verde-amarelas, que conduzia um cão da raça spitz pela coleira, acompanhado da babá uniformizada para empurrar o carrinho de bebê, per se, elucida a pergunta sobre a essência dos levantes de 2013, 2015 e 2016. O desconforto não era com o sistema, mas com uma colocação inferior às expectativas na hierarquia de mando. O Instituto DataFolha (SP) e o Instituto Index (RS) trouxeram estatísticas similares: 40% recebia mais de dez salários mínimos e 47% motivou-se para os eventos pela luta anticorrupção. Destampava-se o modus operandi de financiamento das campanhas políticas, para chocar quem desconhecia a recorrente lógica materialista do poder.

Nos EUA, o movimento Occupy Wall Street (OWS, 2011) dividia a humanidade com o rótulo “We Are The 99%”, que opôs o universo de prejudicados com a debacle de 2008, causada pelas políticas de desregulamentação, a 1% dos beneficiários sistêmicos. Diante da narrativa triunfalista dos apologistas do livre mercado e do Estado mínimo, o acampamento dos insurretos trouxe a público a realidade da parcela de batalhadores que vive em situação de pobreza (menos de US$ 5,50 dólares por dia), o equivalente a quase 50% da população mundial (quase 4 bilhões de pessoas). Afora a indignação, a característica que delineou a manifestação foi a devoção à democracia participativa, com posições deliberadas junto aos eventuais circunstantes. Cidadãos de variada procedência socioeconômica, sem uma nítida identidade ideopolítica, apontavam as desigualdades vigentes.

O Occupy Wall Street, assim como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e o seu equivalente urbano, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), são expressões simultâneas de subalternizados em pontos geográficos distantes. Já o neofascismo é o emblema de setores com extração na pequena burguesia e inspiração no hiperindividualismo pós-moderno. Para o historiador britânico E. P. Thompson, em A formação da classe operária inglesa: “A classe é definida enquanto os indivíduos vivem sua própria história e, ao final, esta é a sua única definição”. A luta contra os grilhões é coletiva, o avatar (“descida do céu à terra”) da consciência de classe é individual.

O elã emocional dos protestos “mescla a raiva ao ultraje moral”, conclui J. Jasper, com uma platitude. Informação que não revela o sentido dos movimentos, por abstrair a cosmovisão socioideológica que ampara os objetivos. Que os homens e mulheres cantam quando se divertem ou mesmo quando vão à guerra, é um truísmo. E daí? Na Espanha (1936) ou no Brasil (2022), importa se marcham nas fileiras da barbárie ou da civilização, em nome da dominação ou da emancipação.

A democracia tradicional está fundada na ideia de representação. Não obstante, dezenas de milhares de sugestões recebidas no programa antineofascista e antineoliberal, da “Frente Juntos pelo Brasil”, sinalizam o desejo de uma democracia participativa para que a cidadania ativa possa intervir no direcionamento do Estado, como sujeito da política em vez de objeto das finanças. A vitória que se delineia, em outubro, agiliza o parto da consciência nos conflitos do porvir com as muitas contribuições que cimentam, socialmente, os esforços para viabilizar a soberania nacional-popular.

Como escreveu Karl Marx, na terceira das Teses sobre Feuerbach (1845), “o próprio educador precisa ser educado”. A receptividade às proposições oriundas de fora dão prova da humildade e da maturidade dos protagonistas partidários, na corrida contra o obscurantismo e o negacionismo, ao se permitirem oxigenar no movimento real. Os partidos progressistas não são depositários da verdade absoluta. Não habitam redomas imunes à práxis da sociedade civil. Há espaço para todas e todos no campo de batalha. As manifestações, agora, abrem um novo capítulo para o povo brasileiro.

A palavra de ordem é: “organizar, conscientizar e combater”. O Brasil e a América Latina que queremos acena para a superação do colonialismo (racismo) e do patriarcado (sexismo) que, hoje, sustentam o capitalismo com suas perversas flexibilizações trabalhistas e brutais precarizações. O futuro está em jogo, em outubro. O capeta deixou claro, na sabatina em que os âncoras globais não questionaram o triunfalismo da política econômica em curso, realizada no Jornal Nacional, que não está disposto a sair do trono presidencial – “se as eleições não forem limpas” (sic).

Quem sabe não espera acontecer o segundo turno. E se prepara, desde agora, para garantir a posse do presidente Lula da Silva, e a prisão do terrorista oficial responsável pela barbárie social e política. A democracia e a participação cidadã estão batendo à porta da história: bem-vindas.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

 

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
3
O pior país do mundo
20 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Israel é um estado genocida e terrorista cuja existência é agora colocada em xeque; já os EUA não operam como uma democracia, mas sim como uma plutocracia, uma cleptocracia e uma kakistocracia
4
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
5
O cruzado, o imperador, e seu ataque aos persas
21 Mar 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: Da hesitação de Trump à resposta surpreendente dos persas, o que se anuncia não é uma vitória rápida, mas uma nova ordem forjada à força, onde o risco nuclear vira moeda corrente e a soberania se redefine pela capacidade de resistir ao arbítrio
6
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
7
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
8
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
9
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
10
A honra de Donald Trump e a de Cuba
19 Mar 2026 Por GABRIEL COHN: O desafio atual para o Brasil consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus possíveis competidores
11
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
12
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
13
Formação territorial do Brasil
20 Mar 2026 Por LARISSA ALVES DE LIRA: A compreensão da formação territorial brasileira exige distinguir as intenções econômicas das intenções políticas que, embora sobrepostas, obedeceram a lógicas distintas
14
A militância de Jacques Rancière
20 Mar 2026 Por PAULO FERNANDES SILVEIRA: Em sua crítica aos intelectuais pós-68, Jacques Rancière questionou a posição daqueles que se apresentavam como porta-vozes das trabalhadoras, denunciando a permanência de hierarquias mesmo em movimentos que as contestavam
15
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES