Os correios e a revolução

Imagem: Jimmy Chan
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Por JEAN PIERRE CHAUVIN*

Circunstâncias que permitem mensurar algum poder e alcance das palavras

“Atualmente, o imperialismo e a dominação dos bancos “desenvolveram” até uma arte extraordinária ambos estes métodos de defender e por em prática a onipotência da riqueza em quaisquer repúblicas democráticas”
(Vladimir Ilitch Lênin. O Estado e a revolução)

Pauliceia, 24 de janeiro, por volta das 14hs. A agência dos correios de costume está mais agitada que o usual, talvez por ser véspera de feriado.

Enquanto aguardo pelo chamado da senha C494, colo a aba do envelope que contém um livro para o jornalista Bob Fernandes. Na mochila, também há livros que pretendo enviar para o pesquisador Murillo Barros Nunes – leitor atento da tradição marxiana, em suas múltiplas vertentes dos séculos XX e XXI. A banca acontecerá em menos de um mês e farei gosto que ele folheie os materiais, visando a pesquisas futuras.

O painel anuncia letra e número. Dirijo-me, sorridente, para o caixa no. 4. Serei atendido por aquele senhor muito simpático e de boa prosa, que extrapola o contato frio e pragmático do envio de correspondências. Ele calcula aproximadamente quanto medem as lombadas dos livros. “Essa caixa serve”. Pede que eu preencha os campos reservados a destinatário e remetente, enquanto registra o outro envelope.

Reparo que ele está a examinar as capas… Receio que ele faça algum comentário que desabone a doutrinação esquerdista a distância. Começa: “Estava vendo os livros, aqui”. Sim…, respondo, é para um aluno que estuda esse pessoal. “Ah, está passando pra frente, então?”. Ele emenda: “Particularmente, acho que este sistema não deu certo”.

Surpresa das boas! Durante alguns minutos, trocamos figurinhas, enquanto ele veda a caixa com fita adesiva e calcula o valor do registro e envio. Re-olha as capas e diz, apontando para O Estado e a revolução, “este livro é incrível”. Livros acondicionados, agora observa que o país se tornou um grande importador, contrariando a sua vocação, e relembra o dia em que viu um galpão do aeroporto de Cumbica onde que 95% das encomendas provinham da China. Menciono o “capitalismo de Estado”, ao que ele responde que a expressão foi usada por Eric Hobsbawm, mas que era de matriz stalinista.

O senhor Luís parece apreciar a conversa. Sem perder o tempo dos seus afazeres, conta que trabalhou numa editora e que o dono afirmava que os Estados Unidos eram o pior país do planeta. Relembro as invasões em nome da democracia e da liberdade… Ambos rimos quando lembramos que os brasileiros realmente acreditam na ameaça comunista. “Eles nem sabem o que é isso!”.

O diálogo vai terminar. Ele lança uma mensagem de esperança: “Eu acho que o pessoal está percebendo, né? Veja esse caso das Lojas Americanas…”. Ele me pergunta o nome novamente. “Jean, vou pedir que preencha esse formulário e deixe perto da caixa, depois. Terei que sair um pouco para resolver um negócio”. E logo, “Vou te dar duas fichas, caso erre o preenchimento”. Epifania: o senhor Luís estende a mão e o cumprimento materializa solidariedade.

Estou meio comovido. Mais sorridente do que quando cheguei à agência. Preencho os dados de remetente e destinatário sobre o balcão externo, onde fica o frasco de cola. Retorno, com expectativa de nos despedirmos outra vez. De fato, havia deixado o posto momentaneamente. Dobro o formulário e o coloco sob a caixa que abriga os livros.

Ao deixar a agência, cogito que seria importante registrar esse acontecimento extraordinário. Na esquina seguinte, penso quão bom seria ter um tio como o senhor Luís. Diferentemente dos parentes que conheci, ele jamais tentaria me “converter” para a pseudo social-democracia ultraliberal dos tucanos; menos ainda para o totalitarismo arrasa-quarteirão do mitômano, capitão dos tolos, fã de Brilhante Ustra e cuja “especialidade é matar”.

Vamos ao que mais importa. De fato, foi uma jornada extraordinária. Circunstâncias como essa permitem mensurar algum poder e alcance das palavras. Dia desses, passo pela agência e deixo este arremedo de crônica com o senhor Luís.

*Jean Pierre Chauvin é professor na Escola de Comunicação e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Mil, uma distopia (Luva Editora).

 

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